É em pequeno que emergem as maiores paixões. Feitas bem as contas, Tomás Tojo tornou-se jardineiro aos 8 anos. A convivência com as avós despertou o interesse pela natureza e jardinagem: uma era professora de biologia e dava-lhe o conhecimento, a outra abria-lhe os horizontes para um jardim inglês, com mais de 50 espécies de rosas.

Nascido em Lisboa, mas criado em Vilamoura, assim aconteceu também cedo o contacto e fascínio de Tomás pelas espécies exóticas – presentes no Algarve. Durante o curto período em que viveu em São Paulo, desenvolveu um costume peculiar: resgatar plantas de cemitérios que, doutra forma, também voltariam ao pó. A paragem seguinte destas plantas era o “Hospital das Plantas“, uma vez recuperadas, chegava o momento de as devolver aos vivos.

Apesar de ter estudado artes, é aos jardins que Tomás regressa e onde se sente bem: criou o que agora dá nome a um festival cada vez mais querido dos lisboetas, os Jardins Abertos, coletivo fundado e dirigido por ele que, além da abrir jardins públicos e privados, de palácios a pátios, está a ajardinar as fachadas dos edifícios lisboetas.

Tomás Tojo na Estufa Fria de Lisboa. Foto: Rita Ansone

Varandas Verdes é o nome da semente que, com uma equipa, voluntários e proprietários, anda a germinar por  toda a cidade.

Varandas invejadas, varandas copiadas

Em Lisboa, como se tem provado, os jardineiros são conhecidos por unir forças, e foi no atelier resguardado pelo agora reconhecido Jardim das Plantas Doadas onde, pela mão verde do também jardineiro Nuno Prates, se desenhou a primeira fachada das Varandas Verdes, em 2017. Até este ano, já foram intervencionadas 13 fachadas, em prédios pela cidade. Estas ações pretendem ser o mote para que as sementes se espalhem aos vizinhos, por toda a cidade.

O prédio intervencionado no ano passado, na Rua de Ponta Delgada. Foto: Armindo Ribeiro/CML

Durante a pandemia, houve uma reinvenção das varandas, o que aumentou o interesse por um Festival focado nelas. A matéria – flores e plantas – cedida pelos parceiros, toma forma e ordem através de um megafone onde, pela voz do coordenador, se gera uma coreografia de plantio, como se de um “flashmob” tratasse. Este ano fechará com mais oito fachadas ajardinadas por esta equipa. O trabalho de meses toma forma em quatro manhãs, nos dois fins de semana do festival.

Mais um dos prédios de Lisboa, este da Planta Livre. Foto: Planta Verde

Apesar do efeito não ser instantâneo, nas imediações de uma varanda verde, a pouco e pouco, o verde aparece nas noutras. Há sempre um vizinho que não  consegue desviar o olhar quando estas iniciativas tomam forma.

E ajardinar coletivamente tem muitos efeitos positivos: não só para as ruas e ecossistemas da cidade, como para as relações humanas. Há relações de vizinhança que sanam. Num dos prédios já intervencionado, uma vizinha, por não poder falar através da voz, encontrou na jardinagem uma nova linguagem para interagir com os vizinhos.

E assim as pessoas se entendem entre elas e a natureza.

Tornar mais verde a cidade através das varandas

Para Tomás, jardineiro de longa data, os jardins funcionam como um “degrau para falarmos das florestas”. A cada edição, uma preocupação, e largos passos numa conversa que não se quer demagógica, mas natural. Como uma árvore fazer sombra.

Importa-lhe desmontar as ideias preconcebidas acerca do mundo vegetal. E que vêm de muito antes. Astutamente, Tomás resgata um episódio do livro mais conhecido de todos. “Na Arca de Noé, por exemplo, quantas plantas é que foram colocadas lá dentro? Nenhuma. Isto porque há sempre a expetativa de que as plantas já lá estejam”, diz. “Pensa-se que o maior ser vivo do mundo é a  baleia azul. Não é; é um ser vegetal: a sequoia”.

O sonho de Tomás será fazer jardins apenas com propagação de outras plantas já existentes. Foto: Rita Ansone

Com este Festival também pretende desconstruir o mito de que ter plantas e jardinar é caro. Não é assim. “Dá para propagar plantas, trocar, tudo sem gastar dinheiro”, explica. Ele próprio tem o sonho de no futuro, fazer alguns jardins  apenas com este método de troca.

Apesar de tudo, a vontade dos lisboetas de tornarem a cidade mais verde tem sido notória. Vê-se nos ajardinamentos populares, no empenho em proteger as árvores, e nas varandas que, algumas vezes, chegam a ter mais árvores do que as ruas onde estão.

Isto tem-se refletido no número de candidaturas que Tomás e a equipa analisam, a cada Festival. Estas chegam pelos coordenadores do prédio, que mediam o processo. A escolha, acima de tudo, faz-se através de dois pilares: aptidão e disponibilidade, dois critérios que ditam a longevidade da intervenção na varanda ou prédio em causa. Todos os recursos, especialmente quando se  trata de um projeto de economia social, têm de ser bem empregados.

 “Não tem mal nenhum usar plantas por uma razão estética, mas falta a noção  de ser necessária continuidade” explica Tomás.

Na equipa do festival, todos têm as suas profissões. Acima de tudo, este é “um trabalho de amor”, que mantém a iniciativa viva para tantas pessoas. Além dos apoios financeiros, são os voluntários que permitem a dimensão que o projeto ganhou. Pietro Romani, também jardineiro, é quem os coordena no decorrer das atividades.

Além da satisfação de dever cumprido, é-lhes disponibilizada alimentação e regressam a casa com uma tote bag recheada.

Acima de tudo, o festival serve para que os voluntários descubram o potencial jardineiro que todos têm, fazendo, ao longo dos fins de semana, desaparecer o medo. “Estão a ser criados exércitos de jardineiros”, afirma Tomás, após constatar o impacto que estes dias imersos nas plantas criam.

Estas ações de jardinagem são sempre coletivas: pelo convívio, aprendizagem e o que 30 pares de mãos conseguem fazer em 4 horas. No Parque Monteiro Mor, fizeram diversas tarefas que ajudaram a compor o que é habitualmente  mantido por apenas 4 jardineiros.

 No Festival também há a pacífica “jardinagem de guerrilha”, que reúne comunidades locais para promover que se plante no espaço público. Um bem sucedido é a buganvília, espécie endémica da América latina, que ajudaram a plantar no Bairro Alto, tornando-o mais verde e florido.

O festival que une Lisboa em torno dos jardins, passou dos 80 para 30 000 participantes, em 3 anos. Mesmo com raízes estabelecidas, Tomás ainda tem “dificuldade em assimilar o alcance”.

Ações de grande impacto para preparar um futuro verde que já se conjuga no presente.

Veja a programação dos Jardins Abertos deste ano, aqui.

* É aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. É autor do blog Leonismos.com

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9 Comentários

  1. Boa tarde
    Acho este projecto fascinante! Ando há anos a querer plantar algo de verde a mnha varanda tão portuguesa… Nada dá…
    3andar,rua Tomás Ribeiro 52,poluída, vento, sol abrasador… Gostaria de experimentar arbustos com folhas suaves. Os meus vizinhos não têm qq. interesse…
    O que é que aconselha?
    Obrigada

  2. eu ando a tentar fazer uma horta na varanda… trigo, linhaça, ervilhas e erva: até ver têm resistido 🙂

  3. Tenho uma varanda que apanha sol, vento e poluição , gostava de ter ajuda para a tornar mais ecológica

  4. Que ideia tão boa e linda!! Parabéns! Vou aguardar pela edição de Setembro porque quero tanto ter as minhas janelas bonitas! Gostaria muito de ir recendo informações sobre este projeto. Bem haja e boa continuação desse fantástico trabalho!

  5. Gostava de poder ajudar, aqui na minha Freguesia S.Vicente, tenho imensas plantas e suculentas, posso dispôr e dar e a época que se aproxima é ótima.
    Podem contar comigo se quiserem, sem grandes deslocações.
    Adoraria participar e embelezar o meu bairro e ajudar outros.

  6. Bom dia, gostava de saber quantas candidaturas foram feitas para a iniciativa “Varandas Verdes” edição de Verão 2021 e a localização das 4 fachadas selecionadas. Fico a aguardar a v/ informação.
    Cumprimentos

  7. Cristina, o melhor será consultar a página do Festival, eles têm la a informação. Nós não estamos a fazer mais nenhum artigo sobre o assunto.

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