Em 2017, eu andava estragado da vida.

Primeiro, pus-me a ter saudades dos dinossauros, e assim gastei as reservas mentais, reconfortado pelo carnívoro que captura, estraçalha e abocanha – e de tanto ansiar o inansiável, durante uns tempos D. Sebastião foi velociraptor. Eram estragos de amor. O coração regado a gasolina a arder sozinho faz-nos querer voltar à infância e ir para a cama com febre só para que alguém cuide de nós, e já agora nos dê um livro ilustrado sobre o Jurássico.

Depois, como os pais das aves não me curavam, fui à baleia-azul e aí fiquei, eu pequeno na aorta do animal, eu a ser bombeado por um coração grande como um Toyota Corolla; eu inteiro abrigado num pulmão-sala com alvéolos do tamanho de brócolos. Nenhum dinossauro respirou assim, cheio de mar.

Talvez o tropeço sentimental se apequenasse perante as maravilhas que a Terra pariu. Talvez daí a minha ânsia de imaginar o sublime.

Mas isto continuava em ebulição. A chama nunca ficava brasa, a brasa nunca ficava borralho e o borralho nunca ficava fértil. Faltava-me encontrar o ser vivo que humilharia a baleia e o dinossauro.

Foi uma fúria de pesquisa: a Internet assou do uso que lhe dei, com paragens nas super-centenárias e numa floresta norte-americana cujas árvores são um único ser, cada árvore um clone que brota da mesma raiz desde há oitenta mil anos. E já pensava em visitar a velha mais velha que então vivia em Itália, olhá-la e esquecer-me dos meus pequenos tropeços, quando por fim descobri o verdadeiro sublime. 

E encomendei as sementes.

Por 25€, a Tree Seed Online enviou-me de Inglaterra um saquinho com dez gramas acompanhado por um papel que explicava as regras da germinação. Havia qualquer coisa de muito britânico em avisarem que «as sementes de sequóia são particularmente difíceis de germinar». Mesmo depois de germinadas, os rebentos precisam de atenção, muita cautela, pouca brisa. Antes me tivessem dito que encomendara a rosa de Saint-Exupéry, e não o maior ser vivo que já existiu.

Fiz assim, de acordo com o indicado: pus as sementes em água límpida durante 24 horas; levei-as ao frigorífico guardadas num pano, por sua vez envolto num saco, que mantive sempre húmido durante um mês à temperatura de quatro graus; depois libertei-as do inferno gelado e enterrei-as a ¼ de centímetro num vaso com substracto próprio, cujas magias desconheço, à temperatura exacta de 21 graus; não reguei nem pouco nem muito; não pensei nelas nem pouco nem muito; e nunca deixei que ouvissem as notícias. Por fim, expus gradualmente o substacto ao sol, não fossem as sementes assustar-se com a descoberta da luz.

Das centenas de sementes, nasceu apenas um galho que mais parecia um pinheiro complexado que tão cedo cresceria como diria não quero e se cobriria de terra num gesto tímido. Era possível que a brisa o matasse. Tinha seis ou sete agulhas, uma delas murcha numa espécie de pequeno Outono. Nem a baleia nem o dinossauro nascem tão desprotegidos.

Passaram-se quatro anos. Hoje, é um rebento de dez centímetros que será uma árvore de cento e doze metros depois de eu morrer. Alguém encostará o ouvido ao tronco. Muito lá dentro, bate um nó de lenha, pulsando a seiva do gigante. Quem ouça, julga que são assim as árvores. Mas só a minha sequóia bate ao ritmo da minha pulsação.

Agora que é bem capaz de sobreviver, tenho pensado onde plantá-la definitivamente. Num monte do Tojal a dar para o Paiva. Num jardim público de Lisboa, à espera de que, por incompetência, os jardineiros só a encontrem quando as raízes já não largarem a cidade. Atrás da antiga casa da minha mãe na Rua da Escola, para acompanhar os ciprestes dos meus avós que aí estão sozinhos, sem perceberem que o que foi casa agora é condomínio privado.

Mas há terrenos mais férteis onde plantar a minha sequóia. 

Na rapariga que um dia se sentou à minha frente na linha de Cascais. Era sagrada, de tão bela. E eu senti vergonha de a observar, como se pegasse em pão com mãos sujas.

No Eça, o meu papagaio que fugiu depois de achar que íamos servi-lo à refeição. Deve ter-nos visto a assar frangos.

Naquela bêbeda que dizia «aqui comigo, Senhora, aqui comigo, nossa Senhora», enquanto eu a levava – mais ou menos nos braços, mais ou menos no chão – para longe dos cacos, da calçada ensanguentada, e da porta do alfarrabista onde eu trabalhava. Os bombeiros não se incomodavam com a mesma bêbeda de sempre.

Na minha avó, que era uma galinha-da-índia que adorava a arte de discutir e que, quando consultávamos a Luso Brasileira para desmentir uma afirmação categórica sobre história, contrapunha que a enciclopédia estava errada.

E em tantos retalhos de vida que não cabem aqui porque me fraqueja a imaginação e o jeito para descrever curas de amor.

Mas a sequóia parece-me demasiado frágil para crescer nesses terrenos. Afinal, ela é sublime porque é tão pequena. De maneira que talvez a coma. E assim ficamos os dois em paz.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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3 Comentários

  1. Há umas já meio crescidas no Continente. São bonitas e baratas. Só crescem mais, porém, se forem tratadas com amor.
    Acho que o sabes fazer.
    Tenho alguns contactos no mundo jurássico.
    Não tenho hesitação nenhuma em tos passar, num almoço que combinarmos.
    Um abraço

  2. Adorei! Não mate a sequoia, Afonso, continue a amá-la. Obrigada por partilhá-la connosco, na sua escrita fantástica!

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