https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2021/07/Vintage-Football-City-Tour.mp3
Ponha os auscultadores e sinta o prazer de ouvir

Estamos em 1946. Em Portugal, o Clube Futebol Os Belenenses é pela primeira vez campeão. Como é habitual com tudo o que se faz primeiro, a festa não é tímida. O apito final soa e dezenas de adeptos correm em redor da estátua de Afonso de Albuquerque, em Belém. A uns escassos metros do banco onde os fundadores do clube decidiram fundá-lo, em 1919 – quase três décadas antes.

“Ei! Ei! Ei!”. E bisam.

A marcha acontece e um adepto, envergando uma camisola azul e branca, onde um escudo branco guarda a Cruz de Cristo ao centro, eleva uma gaita de foles sobre o seu lado esquerdo e inicia o hino do clube.

Por momentos, revivemos o que terá sido a festa de 1946 deste clube. O mesmo que ficou conhecido por, “cada vez que ganhava, os adeptos darem uma volta à estátua”, apenas por estar ali pousada junto ao local da fundação do Belenenses. Mas estamos no ano de 2021. Quem dança à volta da estátua são cerca de 30 jovens, de bem longe dali: do Vale de Chelas, trazidos pelo italiano Eupremio Scarpa. Ele que é conhecido por ser um especialista da história do futebol trouxe-os para, em Belém, conhecerem o berço do futebol profissional.

Entre eles, uma figura especial. Vasco Alves, 35 anos, o adepto do Belenenses que levava o hino do soprete ao fole da gaita. Dizem que ele já poderia até entrar nos livros de história de onde Eupremio, o ‘guia de futebol’, tirou o que contava nesta viagem.

Vasco Alves tem 36 anos e reavivou uma tradição antiga do seu clube. Foto: Francisco Romão Pereira

Ainda que seja sócio desde que se lembra de existir, o início da sua marca no clube data de 2018, quando o Belenenses desceu até ao campeonato distrital por força de uma diatribe já conhecida com a SAD (que se mantém na primeira divisão) e as normas de segurança para as entradas no recinto descomprimiram. Desde então, Vasco faz soar o hino nos 15 minutos finais de cada jogo, com a sua gaita de foles. Os adeptos, e até jogadores dispensados das quatro linhas, juntam-se à melodia, entoando a letra.

São os “15 minutos à Belenenses” que a gaita de foles deste adepto veio reavivar. Uma das muitas histórias e lendas – porque delas também se faz o futebol português – que o guia Eupremio conta nestas visitas.

Este italiano, que se apresenta “de sotaque esquisito” (um português que não deixa dúvidas da sua origem), chegou a Portugal há 20 anos para trabalhar na área social, com miúdos dos bairros mais desfavorecidos de Lisboa. Uma profissão e paixão que começou em Milão, mas que correu o mundo também, como a Mensagem já contou nesta reportagem.

Aproveitou um interregno na vida profissional para se dedicar a investigar sobre a origem do futebol em Lisboa. O desporto de que sempre gostou – ferrenho adepto do Inter de Milão – e já é conhecido como “uma enciclopédia do futebol”, tal como nos foi apresentado.

Passou anos a vasculhar livros sobre a história do futebol de Lisboa nas bibliotecas. Um em especial deu-lhe o mote para esta viagem à qual chamou Vintage Football City Tour, feita quer para miúdos quer para graúdos: Clube de Futebol ‘Os Belenenses’ – 90 anos de história, de José Ceitil. E por isso estamos aqui, em Belém, onde contamos, em alguns casos, uma das variadas versões da História, colhida na literatura que Eupremio estudou.

Aviso aos nossos leitores:
A origem do futebol em Portugal e, especificamente, em Lisboa, conta-se em várias versões. O que retratámos nesta peça é apenas uma dessas versões, dependente das obras que o autor desta tour leu.

Muito mais do que Benfica e Sporting

Num crachá também se pode contar uma história. E é mesmo assim que Eupremio começa esta viagem, na Travessa das Linheiras, a uns metros de onde os turistas e os apreciadores portugueses provam os famosos Pastéis de Belém.

“O que veem aí?”, diz, apontando para o símbolo que criou para o Vintage Football City Tour.

“Uma bola”, respondem.

“Certo, uma bola. Mas daquelas muito antigas, de couro, pesadas. E que mais?”.

Há quem veja também uma fábrica. Mas não é “de bolos”, como invalida logo Eupremio. “Não sei se sabem, o futebol, quando começou a desenvolver-se e a ser conhecido, era o desporto favorito dos operários e das classes mais baixas.” Assim conta também esta pequena chapa redonda, que logo todos os participantes na viagem colocam ao peito.

Em Lisboa, essa história tem dimensões que ele raramente viu noutras cidade – e Eupremio já viajou muito. Aqui, a modalidade sempre foi além do que acontece entre o primeiro e último apito de um jogo de 11 contra 11, com uma bola sempre a rolar. Aqui os clubes nasceram com uma missão social e solidária – até mais forte do que o próprio desporto, garante.

Uma parte da história que Eupremio escolhe deixar de fora desta tour, que torna mais completa quando a audiência é mais graúda. Neste dia, para um público de não mais de 15 anos – um grupo de crianças vindas dos vários bairros do Vale de Chelas, acompanhadas por interlocutores da Fundação Aga Khan – escolheu partilhar o que o levou à criação desta viagem por Belém: “É que as pessoas, muitas vezes, gostam de futebol, mas depois não sabem realmente a história, de onde vem. Conhecem só as equipas principais, sem pensar que houve muitas outras importantes para o desenvolvimento do futebol aqui em Portugal e na cidade.”

Eupremio é conhecido como uma “enciclopédia do futebol lisboeta”. Foto: Francisco Romão Pereira

Como é o caso do Sport Lisboa – depois fundido com o Benfica. Ou mesmo o Sporting, que Eupremio diz ter a sua génese “numa equipa de pessoas que iam para Belas”. “E lá nasceu como o Sporting Clube de Belas. Só que, ali, era onde eles iam de férias e, quando regressaram a Lisboa, criaram no Campo Grande o Campo Grande Futebol Clube. Mas [o clube] só fazia festas e eles queriam jogar futebol. Então, separaram-se e criaram o Sporting Clube de Portugal no dia 1 de julho de 1906. Um bocado mais tarde do que o Sport Lisboa [em 1904]”.

Já a bola rolava há muitos anos no mundo e mesmo em Portugal.

O primeiro, na Madeira de Ronaldo

Como qualquer acontecimento que ultrapasse os séculos que os mais antigos hoje viveram para testemunhar, a origem do futebol em Portugal pode ter várias versões. A mais conhecida e aquela que Eupremio conta a estes jovens é que a primeira vez que uma bola de futebol rolou em solo luso foi na pequena freguesia da Camacha, na Ilha da Madeira. No lugar onde mais tarde se faria jogador o atual português com mais Bolas de Ouro – Cristiano Ronaldo.

Corria o ano de 1875. “Eram duas equipas inglesas e fizeram o primeiro ensaio, sem regras – como nós jogamos na rua”, conta. E nem o final é aquele a que nos habituamos a ver hoje nos estádios de futebol: “A bola desfez-se e o jogo foi interrompido”.

Na plateia, a interrogação: “Então, mas a bola era de quê?” Couro? Sobre isto, Eupremio não se atreve nas certezas. Mas há quem alinhe em opções: “Seda de ovelha”.

Certo é que a bola – ou o seu protótipo – chegou de Inglaterra, onde o Foot-Ball foi criado. Um jogo disputado entre 22 jogadores e uma bola, dentro de quatro linhas. “E porque é que se joga com 11?” Eupremio lança a mais banal e misteriosa questão. Sobre ela, quase ninguém na plateia parece alguma vez ter pensado. Disto não reza a lenda, mas sim a explicação oficial da FIFA: “Era o número de alunos, mais o professor, em cada turma da Universidade de Cambridge, a primeira a aplicar as regras do futebol”.

Às viagens que se faziam entre Portugal e Inglaterra devemos o início do futebol em Portugal. Não só “havia muitos ingleses a viver em Portugal no século XIX, que vinham cá para trabalhar nas caves do vinho do Porto”, por exemplo, como havia “muitos portugueses, de classes mais altas, que iam de férias ou estudar na Inglaterra, gostaram deste jogo e trouxeram a bola”.

Um nome a fixar: Guilherme Pinto Basto. Um burguês, estudante em Inglaterra, que organizou aquele que é conhecido como “o primeiro jogo” em Portugal continental. Este entre portugueses, em 1888, em Cascais, com uma bola trazida de Inglaterra pelos irmãos Pinto Basto.

Na Camacha, junto ao largo da Achada, um monumento marca este primeiro jogo, em 1875. Foto: Wikipedia

“Vejam só como estavam vestidos!”, aponta Eupremio para a imagem que faz passar por todos. “Calças de ganga?”. A exclamação traça a surpresa perante algo que hoje soaria a estranho.

O rei que atrasou o primeiro jogo com taça

“Como é que sabes isso tudo?”, pergunta Diego, 12 anos. Apesar dos cabelos brancos, Eupremio não lhe parece assim tão antigo para ter presenciado o que conta. O guia italiano vai tendo respostas para todas as perguntas, mesmo aquelas fora de guião: “Porque estudei”, diz, aproveitando para fazer pedagogia.

Aliou o que descobriu na biblioteca, em livros de entusiastas do desporto ou historiadores, ao conhecimento que um grupo de amigos seu já detinha sobre o tema e lançaram-se nesta aventura.

Daqui nasceram estas visitas, mas também, já este ano, “o mais recente clube lisboeta”: a Associação Desportiva Recreativa Relâmpago. Uma coletividade que tem mais de humanitário do que quer ter de futebol. “O Relâmpago”, como lhe chamam informalmente, quer “servir de estímulo às outras [coletividades] que ainda existem para se reapropriarem dessa presença social”. Para já, são um grupo de amigos e entusiastas que se juntam aos fins de semana para percorrer estádios e relvados antigos, conhecer a história dos clubes por detrás de cada um. De vez em quando, uma partida de futebol em campo.

Há dois séculos, quase tudo era sobre futebol, mas também nasciam clubes. Depois de a família Pinto Basto ter estreado a bola em Carcavelos, onde passava regularmente férias, decidiu estender o jogo até Lisboa, a sua cidade.

Por isso, um ano depois, no Inverno de 1889, Guilherme Pinto Basto “organizou o primeiro jogo entre portugueses e ingleses”.

O Rei Dom Carlos, o ministro Villiers, embaixador de Inglaterra e Pinto Basto. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

As cores nacionais levaram a vitória deste duelo. E esta seria a deixa para este burguês dar início a um dos primeiros clubes nacionais: o CIF, Clube Internacional de Foot-Ball e “o primeiro clube a ser dono de um estádio”, diz Eupremio, em 1902. Que já era a continuação do que tinha sido o então extinto Foot-Ball Club Lisbonense, fundado em 1892.

Foi este mesmo clube, com nome de cidade, que defrontou um outro que seria o início da história do hoje conhecido FC Porto – Foot-Ball Club do Porto, desaparecido durante longos anos. Ambos se encontraram naquele que Eupremio diz ter sido “o primeiro torneiro oficial, a primeira taça” a ser disputada entre duas equipas em Portugal. Em 1894, terão competido pela Taça D. Carlos I, monarca e “adepto de desporto”.

Na plateia, estava o próprio rei. “Mas chegou atrasado e eles tiveram de jogar mais cinco minutos para poder ver um jogo completo”, diz o guia italiano. Uma espécie de prolongamento real.

Reza a lenda que os lisboetas venceram a partida e os rivais regressaram a campo a 2 de agosto de 1906 já como FC Porto.

A farmácia que viu nascer um clube

Então porquê fazer esta viagem por Belém? Porque depois destes primeiros anos dourados de estreias no futebol português, foi aqui que “se desenvolveu o futebol em Lisboa”. Di-lo Eupremio e a curiosidade da plateia é saciada com placas de mármore nas paredes, que vão dando provas do que diz.

Por essa altura, Belém “era um bairro popular, começava a ter também muita gente da classe mais baixa a gostar de futebol”. Mas trazia também condições físicas que tornavam a modalidade mais apetecível. “Isto era tudo praia, era a praia de Belém”, conta, ao olhar para o que hoje são esplanadas e jardim à sua frente. “E, portanto, era mais fácil jogar futebol neste piso liso.”

Além disso, era em Belém que estava “a primeira escola em Portugal a ter aulas de Educação Física”, cujo programa não deixava o futebol de lado – a Casa Pia, mais tarde “a primeira equipa a ganhar a uma outra inglesa”. Tudo isto tornava Belém um oásis da modalidade, o lugar ideal para se oficializar clubes, mesmo que dentro de uma farmácia.

Após os primeiros jogos em solo português, a freguesia começava a ver nascer diversas equipas: o União Sport Belenenses e os Catataus. Esta última foi fundada “pelos irmãos Rosa Rodrigues, que viviam em Belém, e que acabaria por ser a família adotiva dos atletas do Casa Pia”, segundo conta Eupremio.

No café Gonçalves, os Catataus terão decidido a origem do Sport Lisboa – mais tarde, Sport Lisboa Benfica. Foto: Francisco Romão Pereira

“Os jogadores do Casa Pia tinham vontade de ter um clube, um clube deles, porque eles não estavam a conseguir organizar uma equipa. Depois de várias tentativas para terem um, estes jogadores começaram a jogar com os Catataus. Uma vez, foram jogar com a equipa do Guilhermo Pinto Bastos, aquele que trouxe a bola e que era um craque, e conseguiram ganhar. Para festejar essa vitória, vieram a este café, o café Gonçalves.”

Aponta para um rés-do-chão de caixilharia verde, onde um pedaço de toalha de papel de mesa colado à janela tem escrito à mão “Encerrado”. Pelos vidros, baços e sujos, vemos um local em abandono, mas o café Gonçalves foi também a sede da criação do Sport Lisboa. Ali, os vitoriosos Catataus, “uns 20”, terão decidido pensar pela primeira vez na constituição de um clube.

O clube oficializou-se a 28 de fevereiro de 1904, numa reunião realizada do outro lado da rua, na então farmácia Franco (hoje um banco). Deram-lhe um nome – Sport Lisboa -, cores – vermelho e branco – e até um símbolo – uma águia, ave altaneira, ícone da ascensão. Pela primeira vez, ali não se discutiram receitas, senão as que poderiam pertencer ao clube. E as batas brancas compridas viraram camisolas com emblemas e calções curtos e leves.

Mas porque qualquer conto está sujeito a discordâncias, este não é exceção. A polémica logo se faz ouvir. “Benfica!”, grita um dos rapazes na audiência, cuja camisola que traz vestida não traz dúvidas sobre por que clube torce. Na placa de mármore está o símbolo do clube. Mas Eupremio diz que não. E fala de uma das mais longas polémicas da história do agora clube da Luz: “Tenho que lembrar que o Sport Lisboa é que nasceu em Belém. Depois, houve problemas por não terem campo, então, fundiram-se com outro clube de Benfica e nasceu o Sport Lisboa e Benfica.”

A equipa Os Belenenses. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Entretanto, Belém ficou sem clube. Até que “um jogador do Benfica, que depois foi para o Sporting, e que vivia em Belém, quis um clube para o seu bairro”.

Esse jogador chama-se Artur José Pereira e foi o fundador, em 1919, do Clube Futebol Os Belenenses.

Ele e outros amigos decidiram esta fundação sentados num banco de pedra, mesmo defronte da atual estátua de Afonso de Albuquerque – em frente do Palácio hoje ocupado pelo Presidente Marcelo.

O dia e o feito ficaram inscritos neste mesmo banco.

Neste banco, onde foi decidida a formação do Clube Futebol Os Belenenses, o feito e data ficaram inscritos. Foto: Francisco Romão Pereira

Uma rua de heróis

É aqui que Vasco, o adepto do Belenenses que segue toda a visita, pousa a mochila que traz às costas num banco de jardim e dali retira… uma gaita de foles. Para revisitar esses momentos iniciais de glória do seu clube e animar uma visita que já estava agitada pelas rivalidades clubísticas.

A história que ele vai reviver é do dia 28 de fevereiro de 1926 – quando, no Campo das Amoreiras, casa do Sport Lisboa Benfica, o clube defrontava o Belenenses, para o Campeonato de Lisboa. Já confortáveis com um resultado vitorioso de 4-1, as águias sofrem uma reviravolta. A quinze minutos do apito final, uma reviravolta, e tudo termina com a vitória do Belenenses, a 5-4. Quatro golos em quinze minutos.

O episódio marcou o clube: não havia impossíveis. E os últimos 15 minutos tornaram-se isso mesmo, os “15 minutos à Belenenses”. E assim aconteceu sempre, tornando-se tradição. Aos 75 minutos, alguém fazia soar um apito ou panelas e o cântico era tão alto que mais fazia crer, quem passasse alheio, qual era a equipa já vencedora.

E resultava? “Eles superavam-se”, diz Vasco, que reativou essa tradição com a sua gaita de foles – que aprendeu a tocar em 2014 “por acaso”.

Vídeo de um dos “15 minutos à Belenenses”

Deste mítico duelo, não se esquecem alguns nomes, como Artur José Pereira – o fundador – e ‘Pepe’ [José Manuel Soares], “um dos maiores jogadores portugueses”, lembra Eupremio Scarpa. Naquele dia de 1926, tendo o árbitro apitado para um penalty a favor do Belenenses, o colega Augusto Silva aponta na direção de ‘Pepe’ para dizer: “marcas tu!”.

‘Pepe’, elevado pela multidão. Foto: Site do Belenenses

Mais faz lembrar o que a seleção portuguesa viria a testemunhar anos mais tarde, no Europeu de 2016, entre Ronaldo e Moutinho – “Anda bater, que tu bates bem!” e Moutinho bateu mesmo aquele penalty. Como ‘Pepe’ em 1926.

Ele tinha acabado de virar a maioridade e dali não só partiu para o golo da vitória daquele duelo, como para uma carreira de sucesso, até à sua morte prematura, aos 23 anos, envenenado. Um acontecimento que “parou” Lisboa, como ditavam os jornais na altura, onde as páginas se pintavam de fotografias de uma multidão a guardar a passagem do seu caixão. “Vai ser lembrado como o jogador que marcou mais golos num jogo oficial. Em 1929, o Belenenses jogou contra o Bom Sucesso e ganhou 12-1. Quantos golos ele fez? Dez golos.”

“Obrigada pelo elogio”, brinca e interrompe um dos participantes na visita. É Pepe, sim, também ele, mas este mora no bairro Branco, em Almada, e acompanha a visita. “Uma lenda no bairro”, brincam os outros. Até “poderia ter sido um grande jogador”, não fossem as suas escolhas de vidas terem dado para o torto. Hoje é agente comunitário e ajuda os mais novos a seguirem os melhores rumos para as suas vidas.

Cartão de sócio de Artur José Pereira, fundador do clube Os Belenenses. Foto: Site Clube de Futebol Os Belenenses

Mas Eupremio sorri, e continua a contar a história do outro ‘Pepe’, o goleador, para a sua plateia estacionada na Rua do Embaixador, onde o jogador morou. E esta é uma rua de heróis do futebol. Aqui, morava também Artur José Pereira, o fundador do Belenenses, no número 69, onde a equipa do Vintage Football City Tour improvisou uma placa [de cartão] com o seu nome e legado.

Mas não terá sido apenas a casa dele. Eupremio conta como esta modesta habitação de dois andares se tornou, na altura, também no balneário do clube, a operar a poucos metros dali, no Campo das Salésias.

“Quando saiu do Benfica, foi provavelmente o primeiro jogador a ser pago. Mas sabem qual era o pagamento? Recebeu 36 escudos e tinha direito a ser o primeiro a tomar banho de água quente – porque não era muita. Começou a ganhar dinheiro e, quando comprou esta casa, tinha uma casa de banho decente, então os jogadores do Belenenses vinham para casa dele trocar de roupa e lavar-se. Este era o balneário do Belenenses, a casa do Artur José Pereira.” Hoje uma casa em tons magenta, de portas de metal, sem rasto de história.

A visita passa para a paisagem da bancada do Belenenses, com o Tejo a pintar o fundo. Aqui podemos imaginar como seria ouvir de novo estes “15 minutos à Belenenses”. Ou como também outro homem com ligações a Milão, Helénio Herrera, ali fez história, aos comandos do clube por dois anos – o primeiro da Europa que treinou.

O ex-futebolista franco-argentino rumaria mais tarde para o leme do Inter de Milão, o clube de Eupremio, onde inventaria a técnica mais defensiva que o futebol já viu – catenaccio de seu nome.

E se Herrera inscreveu a técnica, agora é a vez de Eupremio recordar a história do futebol. Em Belém e em Lisboa. Onde este desporto sempre foi muito maior do que ele próprio. E continua a ser.


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Entre na conversa

7 Comentários

  1. Não esquecer o trabalho, talvez pioneiro, de Marina Tavares Dias, História do Futebol em Lisboa, edição Quimera do ano 2000.

  2. Magnífico artigo. Conforme já mencionado foi precedido pelo livro da Marina Tavares Dias que possuo. Considero que relativamente ao Sport Lisboa e Benfica existe um equívoco: não foi o Sport Lisboa que se fundiu com Grupo Sport Benfica e sim o contrário. Não meramente pela data de Fundação mas porque as cores, o emblema e os valores são os do SL. Não e por acaso que a roda de bicicleta do GSB está por trás do escudo. De resto um excelente artigo e uma magnífica iniciativa do Euptemio.

  3. Várias imprecisões, para não lhes chamar outra coisa. O Sporting NADA tem a ver com o Belas. Alguns jogadores que fundaram o Sporting (inicialmente sem nome, depois Sporting Clube Campo Grande, finalmente Sporting Clube de Portugal) é que fizeram dois ou três jogos em Belas. Depois, estavam no Futebol Campo Grande e sairam do clube, porque só fazia piqueniques. Ponto. Relativamente ao Benfica, é o Sport Lisboa ao qual se fundiu e desapareceu o Sport Benfica. Com o tempo, ficou popularmente conhecido como Benfica, mas é o Sport Lisboa, fundado em 1904 na tal farmácia Franco. Finalmente, o “tal” jogo do Rei não foi nada o inicial FC Porto mas um misto de jogadores de clubes da cidade do Porto (Real Velo Club e Oporto Criquet Club), contra um misto de clubes de Lisboa. O Capitão dos lisbonenses, julgo ser o Pinto Basto (doss “swift”), foi fundador daquele que hoje é o clube mais antigo de Portugal, ainda em actividade: o CIF. A Taça diz lá CIDADES e está exposta na sede do CIF. É preciso ter mais rigor.

  4. D. Catarina. É MESMO verdade. O Belas e o Campo Grande não são antepassados do Sporting, embora a eles tivessem pertencido alguns dos que fundaram o Sporing (inicialmente sem nome). Quanto ao tal jogo do Porto, foi um misto de clubes das cidades do Porto e Lisboa, NADA tendo a ver com o FC Porto, que foi efectivamente fundado pelo Monteiro da Costa, membro do Grupo do Destino, em 1906. E nem sequer tem uma estátua dele no museu do FCP, ao contrário do falso, o Nicolau de Almeida. Não há registo de MAIS NINGUÈM, nem dirigentes nem jogadores, nem notícias, nada.É juma invenção, O Nicolau de Almeida retou uma equipa de Lisboa e juntou-se a outro clube e chamou o grupo misto de Footbal Club of Porto, assim como o misto de Lisboa se chamou Foot-Ball Club Lisbonense. Não sou eiu que digo isto, mas há um historiador, Alberto Miguénn, que tem um trabalho extensíssimo, suportado em DÉCADAS e restudo de cada tema. Podem averiguar. Entristece-me é ver como se altera a história. O clube mais antigo do Porto é o Boavista (1903), o mais antigo dos 3 grandes é o Benfica (Sport Lisboa, em 1904) e o clube mais antigo do País, ainda em actibvidade, é o CIF. Lá está a tal taça. Cumprimentos

  5. O Sport Lisboa e Benfica foi fundado a 27/09/1908 pela junção do Sport Lisboa com o Grupo Sport Benfica.
    As piruetas servem para justificar a falsa idade do Benfica.
    No Benfica há o culto de serem os mais velhos, populares, ricos, com mais títulos e também outras coisas que não lhes é conveniente enumerar.
    Com rigor o clube que foi fundado em 1904 foi o Sport Lisboa, que se extinguiu em1908.

  6. Se me permitem quero rectificar a data da fundação do SLB:
    13/09/1908 e não 27/09/1908.
    As minhas desculpas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *