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Um artista de vida regalada, o Vasco, morreu aos 85 anos. Um seu amigo e conterrâneo, o embaixador Francisco Seixas da Costa, deixou aqui, na Mensagem, uma nota. Desenhador, Vasco de Castro, exilado político desde 1961 em França, publicou em jornais de longa tradição e prestígio (Le Monde, Le Figaro Littéraire…) e também em revistas de vanguarda como a Actuel, que deu a conhecer à Europa a radical banda desenhada americana, de que Robert Crumb era o lápis mais afiado.

Essa produção permitiu a Vasco frequentar no Quartier Latin as elites culturais parisienses a que nem todos os exilados tiveram acesso. Quando depois do 25 de Abril ele pôde voltar, colaborou em vários jornais portugueses, sobretudo no Diário de Notícias e no Público.

Vasco ao lado de Nuno Saraiva, cartoonista na Mensagem, numa tertúlia sobre a história da caricatura portuguesa, na exposição que o Museu Bordalo fez com ele em 2019 (João Alpuim Botelho, ao lado direito). Foto: Paulo Fernandes

Por cá, assinalou-se o desaparecimento de um grande do cartoon, com especial destaque no Público, com o seu habitual cuidado nas notícias culturais. A maioria dos jornais, porém, caiu na desatenção, tantas vezes filha da penúria.

Uma notícia de agência prestara ao Vasco a condição de “desenhador de Moura.”

Por aí foram todos, ou quase todos, apostando alguns, até, em carimbá-lo no título: “Vasco de Castro, o desenhador de Moura.”

Seixas da Costa, na Mensagem, assinalara o nascimento ribatejano (em Ferreira do Zêzere), pelo acaso de a mãe, professora, aí estar durante o parto, mas logo o recuperou para a transmontana Vila Real, terra da infância de ambos.

Por seu lado, o Público deteve-se particularmente no seu exílio francês e, além dos desenhos, lembrou textos que Vasco coligiu das suas crónicas Montparnasse Mon Village, publicadas no DN, sobre os tempos em que Paris foi a sua aldeia. Conhecia-se também a permanência longa do desenhador em Fontanelas, para as bandas de Sintra.

Então, porquê, tirando as exceções assinaladas, emprestaram os jornais uma ligação telúrica de Vasco de Castro a Moura, como as consabidas de Pascoais ao Tâmega, Pessoa ao Chiado e Camilo às Terras de Basto?

E a não haver essas, pessoais, o quê, na obra, deixou Vasco sobre a cidade raiana e alentejana, igual ao que adivinhou Garrett viajando por Santarém, no beijo de Joaninha? Vá lá, que juntou Vasco de Castro a Moura como Bulhão Pato à ameijoa?…

Penúria, eis a resposta para esse mistério. A agência noticiou e quase todos os jornais marraram na mesma direção. Porquê? Porque quando não há dinheiro, despacha-se. Escreve-se, publica-se, mas não se relê (e até nem se lê).

Charlie Chaplin explica isso, com gestos, numa linha de montagem – Tempos Modernos, filme de 1936 (tinha Vasco um ano).

Sim, mas então como apareceu Moura neste enterro? Foi uma questão de consonância, soube-se, entretanto. Vasco de Castro morreu. A agência de notícias telefonou a quem o conheceu, um amigo, Mário Beja Santos, e este, até sabendo do que falava, falou do cartunista, perdão, ele até preferia ser chamado desenhador de humor… falou de Paris, etc… 

O amigo falou do que sabia. Falava-se de Vasco de Castro e ouviu-se (a culpa foi da rede) “desenhador de hu…kss…kss…Moura”. Foi o telemóvel do jornalista que inventou um título. Pode faltar gente nas redações mas a tecnologia está imparável.

O Vasco faria disto um cartoon, perdão, um desenho de humor: numa redação em forma de linha de montagem, Charlot, com um chapéu a dizer PRESS, juntava letras de forma caótica, como antigamente (há 85 anos) se avisou que as peças das máquinas seriam montadas. E ao seu desenho, Vasco daria o título (vindo dele, em francês) Temps Modernes (2021).

Testemunha da saga dos portugueses

Na verdade, em Paris, o transmontano de barba rala, óculos redondos de intelectual e eterna cigarrilha nos lábios foi também uma testemunha engagée sobre a saga dos seus compatriotas na imensa imigração, pobre e calada dos bidonvilles.

Se convivia no cafés Le Select e Le Dôme com o realizador  Jean-Pierre Mocky ou Bernard Kouchner, nessa altura revolucionário, mas futuro fundador de Médicos Sem Fronteiras e ministro dos Negócios Estrangeiros de Sarkozy, Vasco de Castro ilustrava causas com projetores menos sofisticados.

Um, ao acaso. Lorette Fonseca e o seu marido, Carlos, tinham emigrado do Algarve, em 1965. Ela era mulher a dias, ele, trolha, e viviam em Massy, a uma dezena de quilómetros a sul de Paris. Ao lado, o crescimento do aeroporto de Orly agitava a região e atraía trabalhadores imigrantes, a maioria de portugueses, mas também argelinos e tunisinos. Muitos viviam em bidonvilles, casas de acaso – tijolos, arremedos de porta, janelas de cartão, água de camiões cisterna, ruas de lama.

Em 1970, havia 1500 portugueses nos bidonvilles de Massy. Os Fonseca, vindo de Lagos, já moravam, com cinco filhos, num bairro de habitação social, de rendas baratas, na nova Massy. Lorette sabia ler e falava bem francês. A sua modesta ascensão não lhe apagou os outros. Aos fins de semana, ela ia aos bidonvilles preencher a papelada dos pobres.

Em 1971, Lorette foi expulsa de França por não cumprir a neutralidade política devida a um estrangeiro. Ou melhor, não foi expulsa: muitos não deixaram. Os três padres da paróquia de Massy, os pobres dos bidonvilles, magrebinos e portugueses, os operários da Renault na fábrica de Billancourt e gente de muitas lutas. Eu sei, eu vi. 

Entre eles, o Vasco de Castro, que ilustrava os panfletos com Lorette de punho no ar e os cinco filhos a fazer chorar as pedras da calçada. O Vasco de Castro, dos cafés do boulevard de Montparnasse, que convenceu Maurice Clavel, católico e gaullista, gauchiste radicalizado com o Maio de 68, a prestar apoio a Lorette. 

Documentário Lorette Fonseca – O Combate de Uma Vida

Há um documentário (Lorette Fonseca – O Combate de Uma Vida), com imagens de arquivo de 1973, com a voz de Clavel em defesa da portuguesa. Em 1971, durante um debate político, ele tornara-se uma personalidade nacional quando protagonizou um escândalo em direto, na ORTF, televisão do Estado. Clavel não tinha gostado que lhe cortassem uma palavra, uma só, de um texto. Proclamou: “Senhores censores, boa-noite!”, e saiu porta fora.

Foi talvez um ato de vedeta, golpe de teatro. Mas escutem, agora, no vídeo, a voz quente e generosa do intelectual francês por uma mulher a dias imigrada.

Convencido pelo seu amigo Vasco de Castro, Maurice Clavel juntou-se a um protesto que fez recuar as autoridades e adiar a expulsão da algarvia.

Durante anos, Lorette foi obrigada a renovar a sua permanência em França, de três em três meses. Só depois de François Mitterrand subir ao poder, em 1981, as medidas preventivas lhe foram retiradas. Lorette Fonseca morreu em 2001. Hoje o seu nome é lembrado em duas ruas – uma em Massy e outra em Lagos.

As imagens que vejo do vídeo – e que até agora desconhecia filmadas – de uma mulher loura, bonita, do povo, reconheci-as nos traços grossos e rápidos que vi, com olhos de ver, a serem desenhados por alguém, com amor e tinta de nanquim.        

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13 Comentários

  1. Caro FF. Obrigado por me teres ajudado a perceber essa coisa do “de Moura”. O Vasco deve estar a gozar e a desenhar. Lá onde estiver. Espero que haja cigarrilhas. E não só. Abraço

  2. Muito bom. Também achei pobre, ou melhor, paupérrimas as notícias sobre Vasco que apreciei imenso. Não conhecia a sua vida. Obrigada por nos contar. Morrer em Portugal em épica de futebol e mais futebol não dá espaço a quem deixou um trabalho merecedor de ser divulgado. Mais uma vez obrigada.

  3. Sou de Moura e dei voltas a cabeça por desconhecer este conterrâneo cosmopolita e não só. Na RTP durante a transmissão da notícia passava em rodapé ” o desenhador de Moura”. Fui procurar o motivo e ninguém me conseguiu matar a curiosidade. Teve de ser o FF o jornalista que não exerce nos nossos me(r)diaticos jornais por incapacidade nata para arranjar mentiras me(r)diáticas e sustentar acusações. Terei de ir ao site da Mensagem se me quiser encontrar com o que escreve.

  4. Muito bom!
    E uma pergunta: o Ferreira Fernandes desapareceu dos jornais? Do “Diário de Notícias”, primeiro, e depois do “Público”?
    Porquê? Maldito país, este, o nosso…

  5. O Ferreira Fernandes escreve agora aqui, na Mensagem. Não desapareceu 😉

  6. Obrigado, FF
    Como é bom ser esclarecido por quem bem escreve e sabe do que transmite. Um abraço e beijo para Alice

  7. Muito obrigada, Férreira Fernandes, por esta história extraordinária que desconhecia inteiramente. E por fazer justiça ao Vasco. Ainda falta fazer justiça as suas comoventes e ternas crónicas do Montparnasse mon Vilaverde.

  8. Um notável cronista que consegue captar a dimensão humana das personagens.
    Obrigado!

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