Nem vale a pena dizer (só os mais caturras não o querem aceitar) que, apesar de todos os defeitos, a Lisboa de hoje é muito melhor do que a que tínhamos há cinquenta anos. Amigos que vieram visitá-la pela primeira vez logo a seguir à revolução – e que só regressaram quando a capital portuguesa começou a aparecer em tudo o que era revista estrangeira como um dos mais interessantes destinos do mundo – sabem melhor do que nós a diferença abissal entre uma cidade de muros derruídos, prédios com tinta lascada, carros estacionados à volta de monumentos nacionais, bairros de lata e uma zona oriental pantanosa e fedorenta (se é que chegaram a ir para esses lados) e a urbe moderna e multicultural em que Lisboa se tornou, com os edifícios restaurados nas zonas históricas, uma rede de transportes moderna, o Terreiro do Paço desimpedido, hotéis, restaurantes e lojas para todos os gostos e carteiras…

Mas (há sempre um mas) na Lisboa da minha infância nem tudo correu assim tão bem. Num dos seus principais eixos (aquele que une Entrecampos ao Marquês de Pombal), a modernização acelerada transformou uma via elegante semeada de vivendas, palacetes e edifícios belíssimos num trajecto completamente descaracterizado, ao longo do qual, junto às preciosidades que sobrevivem por milagre, se perfila um sem-número de prédios que ofendem a vista e que as décadas de setenta e oitenta conseguiram fazer ainda mais feios, com a moda de fechar as varandas para alojar um filho tardio ou arranjar uma zona de arrumos.

Talvez o descalabro arquitectónico dessas avenidas possa ser desculpado com a preocupação social (realmente cabem mais famílias num prédio do que numa moradia); de qualquer modo, tenho saudades da vivenda apalaçada que víamos da janela de casa donde a minha avó gritava pelo senhor Filipe quando a carrinha da escola não aparecia e era preciso um táxi para nos pôr na sala de aula o mais depressa possível.

Nem tínhamos de levar um adulto connosco, o que era estupendo, porque o senhor Filipe era um amigo de confiança. Conhecia a criançada toda da rua e sabia exactamente onde deixar cada catraio. Não queria receber adiantado e não corria, no regresso, a apresentar a conta, que em todo o caso vinha sempre certa. E, para nós, miúdos, chegar à escola num Mercedes em vez de numa carrinha a cair da tripeça era um luxo tão grande como morar no palacete do outro lado da rua.

Já eu teria uns catorze anos quando apanhei um táxi para ir à explicação de Matemática e reparei que o motorista me olhava pelo retrovisor a fazer caras esquisitas; mas, antes de ter podido assustar-me, ele perguntou-me se o meu pai ainda guiava o boca-de-sapo e se a minha avó não tinha chorado de desgosto por terem deitado abaixo aquela casa de esquina tão bonita. Então não é que eu estava no palácio verde e preto do senhor Filipe?

Prédios bonitos ainda se encontram, mas taxistas assim é que já não há.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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1 Comentário

  1. Em simbiose com o que diz. Lisboa foi bela, é bela mas, destabilizada (aliás como Lyon) com altas torres que desemquadram os lindos cantos. Como ali na Estrela onde as pequenas ruas quase familiares, se tornam inóspitas e frias!Abraço

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