Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Escrever cartas é antiquado. Isto não é uma carta. É aqui uma coisa entre nós, embora eu seja uns vinte e cinco anos, seis meses, um dia e decerto algumas horas mais novo do que tu. Mas ninguém está a contar.

Monica, já reparaste nos becos e ruelas e travessas de Lisboa? São muito cá da nossa casa. Ainda ninguém me disse que te viu passar – e eu aposto que Monica não toca com os pés na calçada quando passa. Nunca correrias o risco de cair. E se caísses eu levantava-te. Punha-me à frente de todos os outros para te dar a mão.

Eu acho que a tua Lisboa é mito em vez de cidade. Quando moras nela, a cidade julga que só tu existes. E tem razão: Lisboa porque é velha é sábia.

Monica, não deixes que alguém te leve à cidade lisboeta de verdade. Dispensa os alfacinhas, por favor: tu vens da tradição do veni, vidi, vici. És a neta mais nova de Júlio César, e nós resignámos desde Viriato. Não nos incomoda sermos-te súbditos. Veni, vidi, vici: a Monica bastaria um quadrado vazio no boletim para ganhar as próximas autárquicas. Desculpa, Medina. (E não me digas por favor que a conheces em pessoa.)

Mas, Monica, tu da cabeça aos pés me exiges sinceridade. Nem tudo o que fazes será bem feito, nem suponho teres em ti toda a sabedoria. Quanto a mim, tenho muito menos do que toda a tua sabedoria.

Esta cidade é igual a Città di Castello, aqui também há desgostos e vitórias. A minha parte de desgostos tem sido maior do que a minha parte de vitórias. Quer dizer que aprendo muito. Nunca me atreveria a dizer «Vem ver Lisboa comigo» a uma italiana da tua estirpe. Eu sei rastejar.

Porém, não me menosprezo. Sei umas coisas. E, como gosto de ti, quero contar-te um segredo. Nem tudo é sonho em Lisboa. Acho que aí nas nuvens ficas sem ver. Não é defeito teu, quase é qualidade: quando sais de casa deusuda não é suposto caminhares entre os mortais. Mas somos nós mortais que fazemos de ti deusa – dá-me pelo menos uns minutos de simpatia aristocrática e ouve o meu segredo.

Desde que Lisboa aportou neste rio, tem estado entre encalhada e airosa. Essa história da menina e moça. Agora que anda a comer o dinheiro de estrangeiros como tu, deu-lhe para ir ao hairstylist. Digo em inglês porque sou parolo. Mas aqui entre a gente continua a existir discreta a tasca, o desenrascar-se, o isso faz-se.

Quero oferecer-te um segredo dessa cidade. Vai embrulhado nos melhores papéis, e diz a um canto, na etiqueta, «Do Afonso para a Monica». A Monica da etiqueta é a ideia que tenho de ti, não confundo com a mulher que aturas todos os dias. O Afonso sou eu mesmo, mas também posso ser outro qualquer, visto não teres a mínima ideia de mim.

Escuta: houve tiroteio na tasca do Antunes, ali para a rua do Borja. Só que não foi como em Itália, em que se dispara para matar. Por cá, disparamos para dizer que disparámos. E depois tudo se arranja.

Ao Antunes agora custa-lhe entrar e sair da própria tasca, à conta da barriga. Há uns tempos custava-lhe menos, daí ter conseguido inicialmente expulsar o bêbado que ia ao desacato: em Lisboa, desacato é quando um bêbado arranja confusão, bebe muito, quer logo a rodada depois da que ainda está a beber, mas em simultâneo dá-lhe para os abraços. O Antunes não queria abraços nem ficar a arder. O bêbado já ia para três meses sem lhe pagar.

Farto de ser cutucado (no Brasil entendem), o Antunes foi aos fundos da tasca, por debaixo da bandeira do Benfica, para buscar a pistola que ficara de África. Monica, há muitas pistolas que ficaram de África. Outros desassossegos ficaram também.

O bêbado disse-lhe: «Homem, dê cá mas é um abraço!», e o Antunes, que é de Montalegre, bateu com a cabeça no limite. Não se atura neste país tanta sabujice.

E disparou. O eco do tiro foi aos encontrões rua do Borja acima, depois entre as árvores da Tapada – e soltou-se em cheio no resto de Lisboa. Deus queira que não te tenha acordado. E mesmo acordada, Deus queira que tenhas adormecido de seguida, reconfortada e de consciência tranquila, porque não fora nada contigo.

Mas, Monica nossa – senhora dos aflitos, senhora dos determinados, senhora dos distraídos, senhora dos perspicazes, senhora dos imbecis, senhora dos capazes –, nossa Monica: eu sei que a Lisboa verdadeira já não te é indiferente. Apresentei-te o bêbado (chama-se António, no jornal diz que tinha três filhos, um dos quais muito pequenino ainda); e sei, de certeza jurada como fazem as crianças, que o teu coração é de ouro. Daquele ouro que as estrelas espalharam nos melhores dos corações, aquando dos rebentamentos atómicos.

Decerto queres saber qual foi o destino do bêbado-António. Nesta história o tiro ainda ecoa, a cena suspendeu-se, o desenlace está por revelar. Um pouco como num filme, não sei se sabes como funciona a cinematografia.

Pois assim fica, suspenso, o segredo que embrulhei no melhor papel para te dar. Em Portugal temos uma tradição: só damos os presentes pessoalmente. Quererás saber do bêbado que tem três filhos, não duvido.

Marcamos um jantar na tasca do Antunes e eu conto-te, uniquíssima Monica. Telefona-me.

( * Para provar que isto é sério, pedi ao teu conterrâneo Giacomo Falconi o favor de transformar o meu português no teu italiano, e ele acedeu logo, dizendo-me que «nunca poderia fazer nada contra Monica Bellucci».)

Monica Bellucci, voglio raccontarti un segreto

Scrivere lettere è fuori moda. Ma questa non è una lettera. È una cosa tra noi due, anche se ho circa venticinque anni, sei mesi, un giorno e certamente qualche ora in meno di te. Ma a nessuno interessa contarli.

Monica, hai notato i vicoli, le viuzze e le stradine di Lisbona? Sono molto tipiche della nostra città. Nessuno mi ha ancora detto di averti vista passare – e scommetto che Monica non tocca il marciapiede con i piedi quando passa. Non correresti mai il rischio di cadere. E se anche cadessi, io ti tirerei su. Mi metterei davanti a tutti gli altri per porgerti la mano.

Credo che la tua Lisbona sia un mito più che una città. Quando ci vivi, la città pensa che esisti solo tu. E ha ragione Lisbona, perché è vecchia e saggia.

Monica, non permettere a nessuno di portarti nella vera città lisbonese. Lascia perdere gli alfacinhas, per favore: tu vieni dalla tradizione del veni, vidi, vici. Sei la nipote più giovane di Giulio Cesare, e noi, dopo Viriato, ci siamo rassegnati. Non ci dispiace essere tuoi sudditi. Veni, vidi, vici: a te basterebbe una casella vuota sulla scheda elettorale per vincere le prossime elezioni comunali. Scusi, sindaco Medina. (E per favore non mi dica che la conosce di persona.)

Ma, Monica, tu dalla testa ai piedi pretendi sincerità da me. Non tutto quello che fai sarà ben fatto, né suppongo che risieda in te tutta la saggezza. Quanto a me, di saggezza ne ho molta meno rispetto a te.

Questa città è proprio come la tua Città di Castello, anche qui ci sono gioie e amarezze. La mia parte di amarezze è superiore a quella delle gioie. Voglio dire che imparo molto. Non oserei mai dire «Vieni a vedere Lisbona con me» a un’italiana della tua stirpe. Io so strisciare.

Eppure, non mi sminuisco. So alcune cose. E, siccome mi piaci, voglio raccontarti un segreto. Non tutto è un sogno a Lisbona. Penso che lassù tra le nuvole tu non riesca a vedere. Non è un tuo difetto, è quasi una qualità: quando esci dalla tua dimora divina non dovresti camminare tra i mortali. Ma dato che siamo noi mortali a fare di te una dea, concedimi almeno qualche minuto di simpatia aristocratica e ascolta il mio segreto.

Da quando Lisbona si è installata su questo fiume, è sempre rimasta sospesa tra l’incaglio e la grazia. La famosa menina e moça di cui avrai sentito parlare. Ora che si sta mangiando i soldi degli stranieri come te, le è concesso di andare da un hairstylist. Lo dico in inglese perché sono un cafone. Ma qui tra la gente resiste ancora la discrezione delle tascas, il «tirare avanti», il «si fa così».

Voglio offrirti un segreto di questa città. È avvolto nella carta più pregiata, e dice in un angolo, sull’etichetta, «Da Afonso per Monica». La Monica dell’etichetta è la mia idea di te, da non confondere con la donna che sopporti ogni giorno. Afonso sono io, ma posso anche essere chiunque altro, visto che tu non hai la minima idea di chi io sia.

Senti: c’è stata una sparatoria alla Tasca do Antunes, in rua do Borja. Solo che non è successo come in Italia, dove si spara per uccidere. Da queste parti, spariamo per dire che abbiamo sparato. E poi tutto si aggiusta.

Antunes adesso ha problemi a entrare e uscire dalla sua stessa tasca, per via dello stomaco. Tempo fa ne aveva meno, ed è per questo che inizialmente era riuscito a buttare fuori l’ubriacone che faceva il desacato: a Lisbona, il desacato è quando un ubriaco inizia a fare confusione, beve molto, pretende un altro giro dopo tutto quello che si sta ancora bevendo, ma allo stesso tempo è anche in vena di abbracci. Antunes non voleva abbracci né tanto meno passare per fesso. Erano già tre mesi che l’ubriacone non lo pagava.

Stanco di essere cutucado (in Brasile si dice così), Antunes è andato sul retro della tasca, sotto la bandiera del Benfica, a prendere la pistola che si era portato dall’Africa. Monica, devi sapere che ci sono tante pistole rimaste dalla guerra coloniale. Così come altre inquietudini.

L’ubriacone gli ha detto: «Amico, vieni qua e dammi un abbraccio!», ed Antunes, che è di Montalegre, non ha retto più. In questo paese non si può tollerare un simile livello di piaggeria.

E ha sparato. L’eco dello sparo ha rimbombato per tutta rua do Borja, ha attraversato gli alberi della Tapada e si è abbattuto sul resto di Lisbona. Voglia Dio che non ti abbia svegliata. E se anche ti avesse svegliata, voglia Dio che tu ti sia riaddormentata subito, confortata e con la coscienza pulita, perché tu non c’entravi nulla.

Ma, nostra Monica – signora degli afflitti, signora dei determinati, signora dei distratti, signora dei perspicaci, signora degli imbecilli, signora dei capaci –, nostra Monica: so che la vera Lisbona non ti è più indifferente. Ti ho presentato l’ubriacone (il suo nome è António, il giornale dice che ha tre figli, uno dei quali ancora molto piccolo); e so per certo, croce sul cuore, che il tuo è un cuore d’oro. Di quell’oro che le stelle sparsero nei migliori dei cuori, ai tempi delle esplosioni atomiche.

Immagino che vorrai conoscere il destino di António, dell’ubriacone. In questa storia lo sparo risuona ancora, la scena rimane sospesa, l’epilogo deve ancora essere rivelato. Un po’ come in un film, non so se sai come funziona la cinematografia.

Perché rimane così, sospeso, il segreto che ho avvolto nella carta migliore per offrirlo a te. In Portogallo abbiamo una tradizione: consegniamo i regali solo di persona. Vorrai sapere dell’ubriacone con tre figli, non ne dubito.

Fissiamo una cena alla Tasca do Antunes e ti racconterò, unichissima Monica. Telefonami.

( * Per dimostrare che è una cosa seria, ho chiesto al tuo connazionale Giacomo Falconi il favore di trasformare il mio portoghese nel tuo italiano, e lui ha subito acconsentito, dicendomi che «non potrebbe mai fare nulla di male a Monica Bellucci».)


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

Entre na conversa

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *