André Costa, 31 anos, é federado de basquetebol desde os 13 e fundador da Hoopers, uma das empresas parceiras da Câmara Municipal de Lisboa na missão de dar cara nova aos velhos campos de jogos da cidade. “A Maggie Prata e o Francisco Leal têm estado incansáveis a ilustrar este novo espaço”, diz. Os mais recentes campos que a Hooper construiu são na Ameixoeira, junto da piscina municipal de Santa Clara. Abriram esta semana.

Os campos são uma parceria com a Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal de Lisboa e com a Junta de Freguesia de Santa Clara – a intervenção artística foi feita por Los Pepes, uma dupla de artistas urbanos. André está visivelmente satisfeito com as linhas arredondadas e as cores vibrantes que os dois artistas do atelier sediado no Príncipe Real, escolheram para atrair pequenos desportistas. 

Incubada na Startup Lisboa, a empresa de André é já um caso sério de sucesso. Chegou ao mercado há apenas ano e meio, no final de 2019, e depressa encontrou a fórmula das ascensões meteóricas: vontade inesgotável e capacidade de captar as oportunidades. “Quis aproveitar o potencial das comunidades urbanas, dos jogadores de basquetebol e dos fãs da modalidade. Dediquei-me a criar, dinamizar e a promover campos, conteúdos e produtos para todos eles,” diz. 

“Quando jogamos, se caímos, levantamos”

No princípio, foram as histórias que inspiram. “Começámos com um podcast sobre gente ligada ao universo do basquetebol: o 1×1 by Hoopers. Estamos na segunda temporada de emissões”, conta André Costa. Mas o jogo só começou a sério quando a Hoopers deu a volta ao que parecia ser uma inevitabilidade e arriscou na criação de uma marca que pertencesse a todos.

“Num país como Portugal, os produtos chegam sempre através das grandes marcas internacionais. Queria que a comunidade fizesse parte do que se constrói e desenvolvi uma linha de produtos relacionados com o basquetebol, através do feedback que ia recebendo dos aficionados da modalidade. As pessoas eram muito específicas a comunicar o que procuravam”, diz. Nasceram bolas, equipamentos, t-shirts, hoodies, meias, bonés. Tudo à venda na plataforma de e-commerce que a Hoopers adicionou ao seu site. 

Em fevereiro, vieram os torneios de e-gaming, no videojogo NBA 2K21 para a Playstation 4, que juntou cerca de 100 jogadores para a primeira edição da Liga Hoopers eSports, preparada com a Liga Portuguesa eSports. No final de março, aconteceu a segunda edição.

Por esta altura, a Hoopers também já identificava os locais para o jogo fora das plataformas digitais. “Quando começámos a mapear os campos existentes, pedi a várias pessoas da cidade que os indicassem. Eram referidos sempre os mesmos quatro ou cinco, apesar de haver uns 20 ou 30, só em Lisboa. Estávamos perante um problema de divulgação que merecia mesmo ser resolvido”, explica. 

André viveu em várias cidades – Madrid, Londres e São Paulo – e também nunca sabia onde deveria dirigir-se para bater umas bolas. “Percebi que se passava o mesmo aqui, tanto com habitantes como com os estrangeiros que nos visitam,” diz, explicando que mapear é também uma boa estratégia para atrair visitantes àqueles locais da cidade que nunca entram nos tours turísticos. “A semana passada passei no campo dos Lóios, em Chelas, e encontrei um grupo de estrangeiros que foi ali de propósito para jogar”, conta. “Isto não acontecia.”

Durante o processo de identificação dos campos, surgiu mais um problema – a maioria dos espaços estavam em péssimo estado de conservação, degradados ou abandonados. “A nossa primeira proposta, em Lisboa, foi intervir no campo do Bairro dos Lóios, em Chelas.” Foram rápidos: em novembro de 2020, estava concluído.

A CML já iniciara a grande empreitada de recuperação de campos de jogos através da Galeria de Arte Urbana (GAU), o departamento responsável pelo Programa de Intervenção Artística da Cidade de Lisboa (PIAC), criado em 2019 para requalificar espaços desportivos, valorizar o espaço público e diversificar a arte urbana na cidade para a Lisboa Capital Europeia do Desporto 2021.

A primeira obra, em parceria com a plataforma Underdogs, o artista akaCorleone e a Junta de Freguesia de Arroios, ficou pronta ainda nesse ano e requalificou o campo de jogos do Campo Santana. André acumulava funções na área da Estratégia da Startup Lisboa e andava atento. “No fundo, estava no epicentro de tudo e andava a ver as coisas acontecerem porque queria divulgá-las aos fãs que frequentavam o site da Hoopers,” revela.

Praticante de basquetebol desde os 7 anos, altura em que se inscreveu no Clube Atlético de Queluz, André também não é novo na criação de ideias que resultem – é um empreendedor que começou a acumular experiência ainda na universidade.

Campo no Campo Mártires da Pátria. Foto: AkaCorleone

“Formei-me em Gestão e levantei a primeira start up quando ainda estava a estudar – uma júnior-empresa de consultoria – a ISCTE Junior Consulting, que ainda existe e está de boa saúde. Em vez de fazermos projetos que fossem meramente académicos, tentámos que se pensasse em coisas que pudessem ter uma aplicação ao dia-a-dia”, diz.

Seguiram-se outras experiências. “Umas correram bem, outras não. Costumo aplicar-me a mamba-mentality, tão difundida pelo Kobe Bryant, um dos meus heróis e mítico jogador do Los Angeles Lakers, que morreu num acidente de aviação em janeiro de 2020: ter espírito de equipa, saber que nada se conquista a solo, haver persistência, trabalho, resiliência e superação. Num jogo, quando caímos, levantamos e continuamos a jogar.” 

“Os campos são para a comunidade”

A atitude deu frutos e a Hoopers foi escolhida para requalificar o campo de Chelas. “Contratou-se a Halfstudio, onde a dupla Mariana Branco e Emanuel Barreira já era conhecida pela qualidade do lettering que criava, e articulou-se o projeto com a GAU e a Junta de Freguesia de Marvila”, conta André. 

O campo, no meio dos prédios sociais do Bairro dos Lóios, era uma tabela e um touro pintado no chão em 1992 por Oliveira Donbell, aka “Maninho”, um morador da zona que quis fazer uma homenagem à lendária equipa de Michael Jordan – os Chicago Bulls. “O nome do campo sempre foi Chicago, coisa que queríamos respeitar”. 

Sam The Kid, rapper e uma das imagens de marca de Chelas, também foi recrutado. “Pedimos-lhe que fizesse uma música sobre a importância que o bairro dava ao basquetebol e àquele campo”, explica. O som foi fabricado em equipa, com recurso ao grupo original do cantor – os Official Nasty.

E o trabalho da Hoopers traduziu-se no casamento perfeito das várias expressões “da street”. “Nos EUA, é frequente ver que os playgrounds são usados por jogadores, mas, ao mesmo tempo, alguém está a grafitar uma parede ao som de hip-hop. Neste campo, conseguimos fazer uma recriação de um cenário que é muito típico de ambientes urbanos.” 

Depois de intervencionado, o campo foi passado à comunidade. “Continuamos a acompanhar, a garantir a manutenção e queremos usá-los em eventos futuros. Mas o nosso objetivo principal é que a comunidade se envolva com o espaço, que sinta que é seu,” afirma. 

A recém-criada associação “Chelas é o Sítio”, composta por vários moradores do bairro, já tem planos. “Queremos adicionar uma rampa de acesso para quem tem mobilidade reduzida”, avança Ricardo Gomes, responsável pela vertente do desporto da associação e administrador da MasterFoot, que também acompanhou a revitalização do campo. “Estamos a pensar em organizar torneios de basquetebol 3×3 e clínicas da modalidade com profissionais certificados. Só estamos à espera que passe esta história da pandemia. Temos ideias para apresentações de capoeira, ginástica sénior e alguns eventos culturais.”

O segundo campo requalificado pela Hoopers ficou pronto a 3 de maio, ali mesmo ao lado da Calçada de Carriche, no Lumiar. “É uma homenagem a Kobe Bryant, com assinatura do writer Hélio Bray”, esclarece o fundador da Hoopers. Numa das fachadas dos prédios junto ao campo, com 52 metros de altura, pintaram-se os retratos de Kobe Bryant e dos seus colegas mais próximos: Shaquille O’Neal, Derek Fisher, Robert Horry e Pau Gasol.

Campo do Lumiar dedicado a Kobe Bryant. Foto: Miguel Ribeiro Fernandes

Na Estrada do Calhariz de Benfica, há outro campo acabado de requalificar e estreado no dia 9 de maio: “Cara ou Coroa”, obra dos street artists Edis e Pariz, uma dupla sediada no mesmo bairro, que se inspirou na sugestão da Junta de Freguesia de Benfica para abordar a igualdade de género e na tradição de alguns moradores que usavam o espaço para jogos de cartas.

“Não é obra nossa, mas ficamos mesmo contentes por ver esta contínua recuperação de campos. O basquetebol é um desporto de cidade, de gente da cidade. Apostar nesta modalidade é apostar no espaço urbano”, diz André Costa. E garante: “Há um futuro maravilhoso para cidades inclusivas, pensadas para proporcionar bem-estar a quem as habita e a quem as visita.”

A Hoopers jura que continuará a contribuir. “Haverá mais campos renovados pelo país, mais eventos, mais produtos. Também já fizemos campos em Braga e em Cascais. É ir seguindo a nossa página para ficar a saber quais.”


*Patrícia Paixão é jornalista.

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