Arreiro Palacete da Quinta das Ameias
Palacete da Quinta das Ameias. À direita um dos anexos, que foi um dos últimos edifícios a ser habitados na década de 1980 e 1990. Forografia: Rui Martins

As ossadas e a maldição aos construtores. Entre 1970 e 1974, durante umas sondagens para a construção das torres do Largo do Casal Vistoso (cujo terreno fazia parte da Quinta das Ameias), o construtor civil que as fez terá encontrado “ossadas de crianças” [sic]. Tanto quanto foi possível apurar nada foi reportado às autoridades nem houve um levantamento arqueológico subsequente por receio da reação das autoridades e do eventual bloqueio da construção.

Ironicamente, este empreendimento haveria de ser cancelado (numa das várias ocasiões em que tentativas de aqui construir alguma coisa saírem goradas, o que daria origem à lenda – que ainda hoje perdura – de que pende uma maldição sobre quem aqui quiser construir).

Na verdade, as torres atuais do Largo do Casal Vistoso são o resultado de outra iniciativa urbanística realizada mais de uma década depois e nenhum dos moradores parece ter memória ou conhecimento indireto destes macabros achados que, contudo, foram corroborados por uma narração que faremos mais adiante neste texto.

É certo que sobre o local corre o rumor de que se encontraria aqui um “convento de freiras” e que, não muito longe, estaria a “pedraria da quinta dos frades vicentinos” (junto à atual Avenida Afonso Costa) mas não encontrei mais nenhuma referência a “conventos” ou “propriedades” de ordens religiosas, embora registe, com curiosidade, a dedicatória da capela da Quinta das Ameias a São João Baptista, o patrono clássico dos Templários e um dos preferidos pela sua sucessora Ordem de Cristo.

Sendo assim, que ossadas poderiam ser estas? Desta zona (antes chamada de “Quintas do Areeiro”) não há relatos de ocupação anterior ao século XVI, mas na área do Campo Grande encontraram-se inscrições romanas e, mais recentemente, vestígios de uma exploração agrícola na zona da Feira Popular. Poderão estas ossadas pertencer à época da ocupação romana?

A Lisboa romana teria, segundo Jorge Alarcão, entre 30 e 40 mil habitantes e a maioria dos produtos agrícolas que suportavam esta população provinham dos arredores da cidade e não é impossível que existissem explorações romanas (nunca descobertas) nos terrenos agrícolas do vale do Areeiro. Serão estas ossadas um testemunho dessa época? Na tradição medieval portuguesa não existia o hábito de criar pequenos cemitérios familiares junto às quintas ou habitações (como ocorre, por vezes, nos países anglo-saxónicos), longe dos espaços sagrados das igrejas, pelo que nestas ossadas poderíamos estar mesmo perante um possível testemunho romano ou pré-romano.

Contudo, em conversa com Maria Júlia Inácio da Rocha Diniz, filha de Júlio Diniz, que passou na Quinta das Ameias parte da sua infância, e neta do juiz Gaspar da Rocha Diniz que, na década de 1940, viveu com a sua família naquele que era conhecido pelos habitantes da zona como o “Castelo do senhor juiz”, estes ossos poderiam ter outra origem e terem sido deslocados. Mas disso trataremos mais adiante.

Para já, fique a informação adicional (que não constava do primeiro artigo) de que o juiz António Mendes da Rocha Diniz, desembargador em Lamego, teria arrendado a propriedade e vindo do norte por motivos de saúde e que o seu primeiro filho haveria de ser, também, juiz desembargador e, mais tarde, Governador Geral da India. Aqui viveu este juiz com a sua mulher Cândida Mendes da Rocha Diniz, o filho António (solteiro) e o outro filho, de nome Eduardo, casado e pai de dois meninos e de duas meninas que frequentavam o Liceu Charles Pierre. Também aqui vivia em solteira, Maria Amélia Diniz, por volta de finais dos anos 1930 e em princípios de 1940 (tendo terminado o curso de piano no conservatório de Lisboa). Após o falecimento do juiz ficaram a habitar o palacete Eduardo Diniz e os quatro primos.    

Ora, é precisamente com esta família de arrendatários que surge pela primeira vez referência à existência de ossadas na Quinta. Assegura Júlia Diniz que o seu pai se recordava de que durante umas obras – realizadas na década de 1940 para criar uma nova divisão – se abateu uma parede interior do palacete tendo “chovido corpos” (ossadas de vários indivíduos). Estas ossadas foram depois enterradas pela família dentro do território da Quinta, provavelmente na zona onde hoje encontramos as construções do Largo do Casal Vistoso (junto à Alves Torgo e Gregório Verdonk). Isto corresponde aos rumores – que corriam dentro da família Diniz – de que na década de 1960 teriam sido encontrados “crânios” nas areias dos terrenos em torno do palacete e nascido assim a “maldição” de que “quem tentar construir na Quinta estará amaldiçoado”, uma vez que nessa primeira tentativa de construir perto do palacete terão falecido vários operários com a “cabeça esmagada” e um outro de ataque de coração.

De recordar que na década de 1970 (entre 1971 e 1974) na já referida tentativa de construção, gorada pela desistência do banco financiador, foram encontrados ossos “de crianças” na zona do Largo do Casal Vistoso que tornaram a ser enterrados sem reporte às autoridades. Mais tarde, já na década de 1980, o construtor dos prédios situados no Largo do Casal Vistoso terá morrido pouco depois do termo das obras, o que reforçou a lenda dessa “maldição” entre os habitantes da zona. De uma forma ou outra, parece certo que estes ossos nunca tornaram a ser redescobertos e que é provável que ainda hoje aqui se encontrem.

Estes ossos – a terem de facto existido (como indicia a presença de três fontes distintas que referem a sua existência) – seriam, assim, mais provavelmente modernos do que de origem romana ou pré-romana. Segundo o pai de Júlia Diniz, que, na década de 1960, investigou a questão, seriam ossadas de simpatizantes e militares liberais porque o palacete e os seus anexos foram ocupados pelos miguelistas, que os usaram como uma das “bases de operações” na região de Lisboa.

Oclusão (que se vê da Afonso Costa) da antiga gruta da Quinta das Ameias (rodeada de arenito).

A gruta, cujos restos agora oclusos se observam da Avenida Afonso Costa, teria sido usada para armazenar munições e para esconder estes militares até ao momento em que uma frota liberal desembarcou um contingente comandado pelo marechal António José Severim de Noronha, 1.º Duque da Terceira, que expulsou, sem combates, Nuno Caetano Álvares Pereira de Melo, 6.º Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel, em 24 de Julho de 1833.

Uma vez que então não houve combates, estas ossadas não serão um testemunho dessa época, mas sabendo-se que, depois de 1833, existiram várias rebeliões militares e populares nesta região e um massacre em Lisboa, em março de 1833, poderá, apesar de ter ocorrido noutro local da cidade, ter encontrado nesta zona de quintas e explorações agrícolas o local ideal para o despejo dos corpos. A informação é incerta, mas, na falta de mais elementos, é a mais provável de todas as teorias que podem alvitrar-se para explicar este mistério.

A gruta e os túneis

Gruta e túneis desenhados por Nuno Maneta, que os viu há cerca de 30 anos 

Como referido atrás, em finais da década de 1970 e começos da de 1980, ainda era possível explorar a “gruta” (artificial ou natural) na entrada virada para a encosta sul com dois túneis revestidos a “tijolo burro rústico” que dela partiam e que se supõe que iam ter às duas extremidades do palacete. Aqui perto e talvez ligando à gruta e à sua rede de túneis encontrava-se também um poço, pelo que todo o sistema poderia ter sido criado precisamente com o fim de armazenamento de águas pluviais para uso posterior em épocas mais secas, o que não invalida que depois tenha sido usado como armazém ou adega. Esta informação confere com a de outros moradores que falam de uma “pérgola” e de “túneis” nesta zona do palacete e que, no primeiro artigo sobre a Quinta das Ameias, julguei referir-se a um túnel feito de vegetais do lado oposto do edifício principal da Quinta.

Em finais da década de 1990, aquando da intervenção de emergência para evitar o colapso do morro sobre a Afonso Costa e cujos trabalhos e plataformas ainda hoje podem ser observados, os trabalhadores encontraram e fecharam, cortando ao meio e cobrindo-a com pedras de calcário, a dita gruta e os seus túneis, tendo no processo encontrado uma adega de onde desviaram algumas garrafas de vinho que ainda estavam em condições de serem consumidas (coisa que fizeram).

Ligação ao Morgado dos Lagares ou Senhorio dos Lagares d’El-Rei

Em conversa com um descendente dos Lourenço de Almada, confirmei que a Quinta e o seu palacete pertenciam ao morgado cujo solar (particular mas de Interesse Público) pode hoje ser observado na vizinha freguesia de Alvalade e cuja origem recua a uma doação de D. João I, em 1392, ao Doutor Martim Afonso Pires da Charneca, bispo de Coimbra e, posteriormente, arcebispo de Braga. Na descrição dos seus bens – confiscados por este se ter passado a Castela aquando de 1385 – constava o Senhorio dos Lagares d’El-Rei e as suas “vinhas com os seus lagares acerca de Lisboa aalem darroios que partem com o caminho da Charneca e com o caminho de Sacavém” num território de mais de 40 hectares e que se estendia desde a atual estrada de Sacavém e das Amoreiras, passando pelo norte da atual freguesia do Areeiro e até sul, à rua Actriz Virgínia, no extremo norte do Bairro dos Actores. Esta zona significa que a Quinta das Ameias fazia parte do extremo sul deste Morgado dos Lourenço de Almada.

Ruínas de um dos anexos do palacete da Quinta das Ameias.

Os últimos habitantes da Quinta das Ameias e dos seus anexos

Os últimos testemunhos de habitação na Quinta parecem recuar aos finais de 1988-1995, época em que aqui vivia sozinha uma caseira ou a última governanta conhecida pela vizinhança como “Dona Conceição”, que “vendia ovos caseiros” e vivia rodeada de muitos cães. Frente à quinta, do outro lado da Afonso Costa e onde entre 1973 e 1981 famílias de origem cigana vendiam alcatifas na rua frente a casas há muito demolidas, destacava-se a “tia Rosa”, reputada leitora de sinas e augúrios.

O Canhão do Palacete

Vários visitantes do palacete me haviam referido a existência de um “canhão”. Alguns diziam mesmo que este se encontrava junto às ameias que dão nome à quinta e cujos últimos vestígios ainda podem ser observados no muro sobrevivente perto da capela e que pode ser ainda hoje contemplado a partir da Avenida Gago Coutinho. Outros moradores que visitavam o palacete aquando das festas de anos de colegas seus do Liceu Francês confirmam a existência deste canhão, mas, desta feita, já dentro do próprio palacete para onde poderia ter sido deslocado em data posterior. A origem do canhão é incerta uma vez que dele não restam nem fotos nem descrições detalhadas, mas não é impossível que seja um testemunho das Guerras Liberais e da guarnição miguelista que aqui terá estado estacionada segundo a investigação de Eduardo Diniz na década de 1960.

Agradecimentos a:

Júlia Diniz
Nuno Maneta
Lourenço de Almada
Fátima Pinto
Carlos Rocha Diniz
Mário Calheiros

*Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).


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3 Comentários

  1. O professor José Hermano Saraiva faz referência à casa do Areeiro num programa de história (Horizontes da História ou Alma e a Gente). Sei que os ciganos destruiram o muro do lado da Av. e onde vendiam tapetes e onde viviam durante uns bons anos. A gruta não existe por duas razões primeiro nunca a vi e depois os terrenos são do Miocenico: areias.

  2. Três pessoas diferentes me falaram desta “gruta”: inicialmente julguei que estavam a falar de uma galeria entre vegetação mas depois percebi que não era o caso, que era mesmo uma cavidade subterrânea.
    Uma quarta pessoa falou-me de uma “adega” (que deveria ser no mesmo local). Para mim é uma gruta artifical, escavada entre o arenito ao lado do palacete para ser usada como armazém de frescos ou como adega que era acessível diretamente a partir da cozinha no primeiro piso do palacete (nunca encontrei essas entradas no palacete, mas há muito entulho, pelo que podem estar sobre as ditas)
    Que algo foi tapado: não tenho dúvidas: isso é visível a olho nu da Afonso Costa.

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