Decidi ter um casal de pombas no terraço. Telefonei a um criador, comprei-lhe pombas-de-leque e instalei-as numa gaiola. São aves delicadas, brancas, com excesso de penas na cauda em forma de leque. Depois de criarem, afeiçoam-se ao sítio onde fizeram ninho e podem ficar à solta.

Como ornitólogo amador, sou obsessivo. Nos primeiros dias, fiquei sentado no terraço a observá-las, a mudar-lhes o milho, a vê-las felizes. O macho arrulhou durante uns dias, fez a corte à antiga, abriu muito o leque e por fim lá se lançou: copulou-a bem e várias vezes, que eu vi.

Em baixo, nas ruas de Campo de Ourique, onde não existem pombas-de-leque, um acordeonista tocava uma coisa romântica de Édith Piaf, a mesma todas as semanas, dando ao terraço com vista para os telhados uma melancolia quase feliz.

Mais uns dias e apareceu o primeiro ovo. Pu-lo na palma da mão, apesar dos protestos da fêmea, que me bicava os dedos. Liso e com a câmara de ar formada, como os ovos devem ser. No dia seguinte, o segundo e último ovo, porque as pombas só põem dois, e eu ansioso pelo choco, a meter a mão dentro do ninho para sentir o calor. O macho engolia milho à pressa, desfazia-o na moela e regurgitava o conteúdo para o bico da fêmea. Era bonito, o afecto das pombas.

Só que no dia seguinte apareceu o terceiro ovo. Aquilo estava mal, aquilo estava errado. Telefonei ao criador para lhe perguntar: «Ó homem, como é esta merda de haver três ovos?» Ele engasgou-se, meteu as palavras umas nas outras, mas lá me disse: «Isso, com três ovos, quer dizer que o senhor tem aí duas fêmeas». Raios partam, o macho arrulha, põe-se em cima dela, assiste-a no choco. Como é isso de serem lésbicas? «Desculpe, mas acontece. Três ovos, duas fêmeas…»

A minha raiva era querer que elas dessem crias. Exigi ao criador que me trocasse uma das fêmeas, escolhi a que identificara como macho, que me parecia menos de raça, e devolvi-a a Arruda dos Vinhos, onde o criador tinha um pombal. O homem olhou para a pomba e disse-me: «Afinal, não a quero». Parece que era demasiado rafeira, demasiado convencida de que era pomba-de-leque pura, para o criador a querer de volta. Ainda assim, exigi um macho e voltei a casa com o macho e o encargo da fêmea rafeira. 

Mal o macho viu a pomba que tinha ficado à espera na gaiola, caiu-lhe em cima. Arrolhou todo o cio que sentia, encantou-se. Era mesmo macho. Mas eu não sabia o que fazer com a fêmea rafeira, que assistia incrédula.

Para não ter mais encargos, e também por não aguentar a amargura dela, tirei-a da caixa de transporte, disse-lhe: «Agora vais à tua vida», e lancei-a ao ar. A pomba voou um pouco, ouviu o arrulho da antiga amante e deu meia-volta. Aterrou mesmo ao lado da gaiola. Deu-me pena vê-la assim aflita, a querer a namorada de volta, mas que fazer? Tinha de haver fecundação. Deixei-a à solta – e ela que se arranjasse.

No dia seguinte, a fêmea rafeira continuava no terraço encostada à gaiola. Arrulhava, abria o leque. Entre grades, as duas pombas beijavam-se em toques de bico. Eu começava a achar aquilo confrangedor – triste –, e até um pouco inconveniente, uma história de amores contrariados, mas quem achava realmente mal era o macho, que se sentia diminuído perante o amor das duas lésbicas.

Tal a afeição, deixei a fêmea rafeira viver no terraço. Só me preocupava que ela assistisse ao macho a copular com a outra, embora elas depois compensassem através das grades, no bico a bico.

Uma noite, acordei com barulho. A pomba decidira abrigar-se no quarto empoleirada na portada aberta. Pus uma folha de jornal por baixo do poiso e ela passou a dormir comigo. Era o mínimo, depois do que lhe fizera.

Acontece que pousou no terraço um pombo de cidade. Sem raça, de penas pegajosas, desses que enxotamos nas esplanadas. Era gordo, impositivo, e não tinha uma das patas. Coxeava sobre o coto tumefacto. Apesar disso, conseguia andar de roda da minha fêmea rafeira, como quem diz: «Vem a mim e deixa-te disso.» E ela sem lhe dar troco, só a querer aproximar-se da namorada.

Uns dias nisto e o coxo fartou-se. Qual corte, qual arrulhar, qual conquista. Saltou para cima da minha pomba e forçou-lhe o uropígio. Foi muito rápido. Corri para o impedir mas não houve tempo. Satisfeito, o coxo pôs-se a voar e nunca mais apareceu em Campo de Ourique.

Daí em diante, a fêmea amochou, parada a um canto. Já nem dormia comigo. Ainda assim, mantinha-se próxima da gaiola para continuar a debicar a namorada, que entretanto pusera os dois ovos galados da praxe e começara a chocar. Eu julgava que o trauma da violação a tinha avariado, mas não foi bem isso.

Três dias depois do que o pombo perneta lhe fizera, encontrei-a estendida no chão. Corri para ela, peguei-lhe ao colo, senti as patas tesas: tinha morrido de uma doença sexualmente transmissível.

Nesse momento, pensei que uma alma delicada como a da minha fêmea rafeira não merecia aquele destino. E que a namorada, agora alapada aos ovos do macho, também não merecia ter assistido à morte do primeiro amor.

Mas raios partam toda esta história. Antes de morrer, a fêmea rafeira tinha trocado bicadas intensas com a namorada. O macho habituara-se àquela intimidade, achava-lhe certa piada, por vezes participava. 

Outros três dias depois, a DST matou a fêmea remanescente, o macho e os dois ovos galados. E isto deixou-me angustiado com as injustiças da vida.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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5 Comentários

  1. Todo um universo neste conto.
    Já agora, em Campo de Ourique já houve pombos-de-leque; do meu Avô. Há muitos anos, na Sampaio Bruno.

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