Kalaf Epalanga em Lisboa. Foto: Rafael Duarte/ NANSEN

Pode ler a entrevista mais abaixo ou optar por ouvi-la aqui:

Dizes sempre que és essencialmente lisboeta…

Sim. Durante muito tempo a minha base era Lisboa e eu sentia-me muito bem em Lisboa. É estranho… quando chegas a uma cidade nos anos de formação, naquele fim de adolescência, agarras-te muito à geografia do espaço, à geografia emocional, à geografia dos sentidos… Estás a descobrir, a fazer-te “homem”, entre aspas, obviamente isso não é exclusivo da masculinidade. É muito a ideia de conquista, de procurares o teu espaço, de teres a tua voz, e Lisboa proporcionou-me isso e de uma forma extraordinária.

Como?

Mal cheguei, encontrei logo um caminho. Eu vivia em Almada, quando me mudei para Portugal. E estava cansado, da travessia do Tejo – porque tinha o barco, mas o último era o das duas da manhã. Quando me mudei para Lisboa alcancei os objetivos: conhecer pessoas, entrar na cena artística.

 Encontraste a tua banda (não no sentido lisboeta, mas no sentido angolano do termo)?

Totalmente. Era o lugar onde me sentia mais confortável. Aquele final  dos anos 90, a Expo… havia muita coisa a acontecer em Lisboa e que era emocionante, as minhas primeiras saídas noturnas, conhecer o Lux, ficar fascinado com aquela movida. E depois conhecer os heróis que eu já via como mitos: o Zé da Guiné, o Manuel Reis, o Hernâni Miguel – as figuras que moldavam a vida cultural da cidade. O Hernâni Miguel foi o responsável por aquela compilação “RAPública”, que mudou a história do rap em Portugal. Ele tinha um bar no Bairro Alto… era um dos sócios da Indústria, que era um clube de tecno, essencialmente, era de três sócios, e cada sócio tinha o seu bar.

Era incrível – havia um bar que era extremamente negro – trabalhavam lá pessoas que depois entraram na carreira da moda: mulheres lindíssimas, homens esculturais. E tu vias aquilo no meio de uma discoteca de tecno – aquilo para mim era super impressionante, eu tinha 18, 19 anos. Achei fantástico.

Recuando um pouco, quando chegaste, durante duas semanas nem desfizeste as malas porque achaste que irias regressar a Angola. Qual é a tua primeira imagem de Lisboa?

Não foi agradável… bom, tive logo o impacto do SEF, é o cartão de visita de Lisboa. A primeira pessoa que te diz bem vindo à cidade é um inspetor do SEF. E não foi assim muito simpático… Eu estava meio contrariado, quando és adolescente não queres sair do teu bairro, deixares os teus amigos, deixares a tua vida. Mas obviamente, por decisão dos pais, lá vim… e não foi assim um lugar que me convidasse.

Quando começaste a gostar?

Comecei a apaixonar-me por Lisboa exatamente quando me decidi a escrever, quando decidi ‘Ok, este é o caminho que vou seguir’. É quase natural – porque Lisboa é uma cidade de escritores, produziu muita literatura, quando se passa pela Brasileira, está lá a estátua de Pessoa, começas logo a sentir que estás no lugar certo.

Foi Lisboa que te fez escritor?

Eu diria os lisboetas. Comecei a escrever quando comecei a entender o lugar que África ocupava no lugar das pessoas da minha geração – afrodescendentes, e mesmo naqueles que por algumas circunstâncias se diziam africanos, porque havia os que se colocavam nessa posição, embora nunca lá tivessem estado. Eu sentia que tinha de explicar – porque a África que chegava pelos media e até de certa forma pela literatura era um pouco uma África datada, que ficou congelada ali no pré-75. E depois a que veio a seguir, pá, não era uma África que fascinava, era a África da guerra, do conflito MPLA-UNITA, ou seja, não havia ali muitos pontos de orgulho, não havia muita coisa com que se fascinar. Mas a África que eu trazia, embora Angola fosse muito presente, já era a África dos sul-africanos, dos nigerianos, Chinua Achebe e Wole Soyinka, Fela Kuti, Miriam Makeba. A África dos afro-americanos que se interessavam por África  – Kwame Ture foi casado com a Miriam Makeba –  essas eram as figuras que representavam a minha África.

A palavra “mistura” é uma palavra da tua vida. Como conjugas Eça de Queiroz e Almada Negreiros como inspiração para essa África que querias contar e trazer para esta Europa?

O que eu sentia em relação a Almada, a Eça, estava relacionado com as correntes que eles criaram – a forma como eles se entregavam à arte, o sentido de comunidade que tinham muito presente – de estar em diálogo com os pares.

As tertúlias…

Sempre senti que isso é super importante para a evolução de qualquer ideia artística. Eu sentia que se isso era uma tradição, na minha cabeça havia que continuar a alimentar esse tipo de tradição. Mas os tempos são outros, a vida mudou… Naquela época o nosso direito a ter voz, o direito a ter espaço para nos expressarmos – nós, os negros -, era tudo muito mais limitado, senti que era importante não travar isso. Criar uma comunidade e uma tradição artística que não esteja só fechada numa única disciplina, como os futuristas.

Que idade tinhas quando começaste a ter essas ideias?

18, 19. Nasci em 1978, foi na época da Expo – 97, 98…

Como é que Lisboa recebeu as tuas ideias?

Foi uma receção espantosa, e isso foi uma coisa espantosa. Parecia que eu sempre tinha vivido em Lisboa. A maneira como enche o meu espaço, era fascinado pela Baixa, pela vida que se vivia… Havia duas lojas de música: a Virgin MegaStore e a Valentim de Carvalho, ali nos Armazéns do Chiado. Para mim eram santuários – eu ficava horas e horas a ler as contracapas dos discos, era quase uma biblioteca… Logo a seguir abriu a Fnac e as outras duas fecharam. Eu não tinha dinheiro para comprar os discos. Os meus parceiros musicais nasceram nesses encontros nas lojas de música, nas lojas de livros.

Saíste de Almada e vieste morar para Lisboa, para o centro. Para onde?

O meu primeiro endereço em Lisboa foi na rua de São Nicolau. Depois, fui viver para a Avenida da Liberdade, ali muito perto dos Restauradores, ao pé do antigo centro comercial Palladium e foi aí que conheci o Zé da Guiné, ele também morava perto, ao pé do Ritz Club – o nosso ponto de encontro era uma antiga loja de vinis, que acho que ainda existe, acho que agora está na Calçada do Duque, chama-se Discolecção – sempre a história dos encontros em lojas de discos.

Se quiser ouvir a playlist que Kalaf fez para a Mensagem, sobre Lisboa, clique aqui.

A tua história em Lisboa é um mapa das lojas de discos [da cidade].

Totalmente [risos]. Da Avenida da Liberdade fui para a Rua dos Fanqueiros, depois para a da Conceição e depois voltei para a dos Fanqueiros.

Como descreverias essa Lisboa que foste conhecendo quando eras tão novo e tão livre?

A Baixa sempre foi muito cosmopolita, embora às oito da noite fechava tudo mas depois tínhamos o Bairro Alto. Sentia que estava mesmo no coração de Lisboa. Eu sabia que havia rendas mais baratas na Linha de Sintra mas nunca me imaginei lá. Andava muito a pé, foi sempre esse o meu estilo de vida.

O que é que descobriste que fosse diferente de Angola que tu conhecias e que te agradou tanto?

“Comecei a escrever quando comecei a entender o lugar que África ocupava no lugar das pessoas da minha geração”, diz Kalaf Foto: Rafael Duarte para NANSEN

Eu sou de Benguela, que é uma terra muito pacata. Eu gosto de Luanda, e tenho um fascínio por Luanda  – mas nunca lá vivi. Benguela parece-me o centro de Oeiras – é a mesma velocidade. Para mim, Lisboa era o sítio mais fascinante. Já no início dos anos 2000, comecei a visitar muito Espanha. Quando perco o visto de estudante – já tinha deixado de estudar – estava naquela transição, a tentar arranjar um visto de trabalho, de residência, aqueles corredores intermináveis do SEF… Houve um momento em que fiquei ilegal na cidade e não me podia movimentar. Já estava de certa forma ainda mais embrenhado na vida artística – encontrar um “nine to five” que desse para conciliar com as duas coisas estava difícil… Eu escrevia, pagava as contas com a música, e música é sempre uma profissão super informal, pagam-te no final da noite, pelo trabalho do bar, etc, etc. Senti que não conseguia, alguma coisa ia ter de sacrificar: ou a escrita ou a música.

E o que é que sacrificaste?

Nenhuma! Criei uma editora: foi a solução. Não tinha forma de encontrar um emprego então criei um emprego.

Foi a Enchufada?

Criámos a Enchufada – e eu e o João Barbosa (Branko). Foi a solução que encontrei para resolver os meus problemas legais.

Foi nessa altura que começaste a ir muito a Espanha?

Sim. Visitava muito Madrid e Barcelona. Primeiro era muito Lisboa – Madrid, porque era a cidade mais próxima. Entrava no comboio, dormia e quando acordava estava em Madrid. Quando consegui chegar até Barcelona – acho Barcelona um pouquinho mais cosmopolita do que Lisboa. Mas aí deparei-me com a dura realidade.

Qual?

Espanha não vai nunca conseguir livrar-se disso: eles não têm negros naquelas cidades e para mim isso é fundamental. Para responder à tua questão – o que é que Lisboa tinha – Lisboa é uma extensão de Luanda. Parece uma segunda cidade angolana, com a vantagem de teres contacto com todos os PALOPs.

E  isso era muito importante para ti?

Sim, mas mais pela questão literária. Nisso os angolanos são vaidosos. Acham que não há música melhor que a angolana. Eu até dou o braço a torcer para os cabo-verdianos, mas na questão literária foi interessante estar em contacto com essas formas de ver ou de viver a portugalidade. Tenho um fascínio imenso pelos guineenses, mesmo. Não só pelo sofrimento, porque aquilo parece que não endireita – Angola é caótica, mas a Guiné, pelo amor de Deus, é de quebrar o coração! Ainda assim, todo o jovem africano que se interessa um pouquinho sobre as questões dos direitos humanos, emancipação, independência, enfim, tem Amílcar Cabral como herói– é o nosso Che Guevara.  Agora então imagina tu encontrares pessoas que o conheceram, que lutaram com ele…

Brancos e negros…

Sim, mas por uma questão de afinidade eu sempre me senti mais atraído pelos negros. Saía da Baixa, subia a Rua Augusta, parava ali no Rossio (Largo de São Domingos) e estavam lá todos eles – achava aquilo ultra fascinante, não só pela história do lugar, por que é que eles estavam ali, o que é que aquilo representava – isso muitas poucas cidades podem proporcionar, essa experiência, e eu sempre tive consciência dessa particularidade e singularidade de Lisboa. 

Como traduzias essa tua experiência para a vida artística?

Eu escrevia – tentava trazer isso para as minhas crónicas. Tenho bastante carinho – e é por isso que digo que me sinto essencialmente  um lisboeta – por esse contacto com uma história africana que nem nos próprios livros que eu estudei em Angola está presente. Não interessa, claro, por que é que se vai falar sobre a história do Rossio e a presença africana no Rossio? Em alguns livros encontras, em algumas teses, algumas obras históricas, mas na literatura contemporânea ela passa muito só em nota de rodapé. O Agualusa toca muito nisso – porque também tem essa relação intensa com Lisboa – mas são muito poucos.

Disseste algures que foi Lisboa que te escolheu como lisboeta, mas que também tinhas as características para o seres. Que características eram estas que te faziam estares disposto a dares-te a esta cidade?

Na minha humildade angolana – que é muito pouca [risos] – eu acho que Lisboa, de certa forma, me fez porta-voz. Me fez olhar por esses lisboetas anónimos que enriquecem de uma forma tão concreta a vida cultural da cidade, mas que são ignorados. Sou um apologista da criação do Museu da Kizomba – é fundamental não só para Lisboa, mas também por causa da relação de Lisboa com as suas Áfricas. Sinto que é uma expressão artística que é tida como menor, ou um pouco periférica em relação à grande cultura, como a morna, o semba, toda aquela cultura que é celebrada e é valorizada e reconhecida como valor cultural. A kizomba não ocupa lugar no nosso léxico cultural.

Talvez, no léxico da bolha. Porque fora da bolha…

A presença da kizomba é tão grande, e aí incluo negros e brancos, é tão presente… Antigamente sentias mais… Aí está a pressão turística, depois de 98, afastou as pessoas que começaram a fugir do centro – o centro é para negócio, para abrires o restaurante ou o hostel e os lisboetas começaram a sair do centro da cidade. Acho que tudo começou na Capital da Cultura, em 94.

A maior parte das pessoas saiu de Lisboa no final dos anos noventa.

Sim, com o boom imobiliário.

Kalaf defende um Museu da Kizomba. “A presença é tão grande, e aí incluo negros e brancos.” Foto: Rafael Duarte para NANSEN

Tu dizias que nessa altura a kizomba estava mais presente na cidade toda, como?

Sim, havia três, quatro clubes de kizomba a operar: o Mussulo, em Picoas, O Imbondeiro, no Marquês de Pombal, o Lontra ainda atraía público, e o Kudissanga. Havia pelo menos estes quatro, além do B. Leza, claro.

No entanto, hoje há kizomba nas rádios, o B. Leza deixou de ser cabo-verdiano e é praticamente só kizomba e tens a kizomba a ser ensinada em todos os clubes de dança de Lisboa.

Sim, claro. Mas eu considero-me da velha escola. Sim, ela se dá, ela acontece, mas eu sinto que não tem mais aquele lugar que tinha…  Durante muito tempo, para mim, era uma espécie de santuário, um lugar para te te reencontrares com a tua humanidade. Durante a semana a vida era difícil, imagina que estavas a trabalhar num andaime… Sempre senti que a kizomba representava esse lugar onde as pessoas voltavam a sentir o seu próprio nome.

Esse lugar era no centro da cidade, portanto.

Sim, não era nas periferias.  Era no Marquês de Pombal, o Lontra ficava no caminho para Campo de Ourique…

Porque seria Lisboa o sítio para esse Museu da kizomba?

Houve uma crónica que escrevi onde lancei o desafio a qualquer um dos países que reclamavam a maternidade da kizomba: Cabo Verde, Angola e Portugal. Mas ainda há quem considere a kizomba algo menor… Sem dúvida que a kizomba é uma expressão artística angolana – aí está a minha humildade angolana a falar – mas eu reconheço o contributo que os cabo-verdianos deram e, claro, Lisboa foi a cidade onde muitos desses artistas viviam e encontraram espaço para editar, na Vidisco. Devíamos estudar mais o impacto que a Vidisco teve, não só na música africana – foi a editora do Bonga durante muito tempo. Mesmo que fossem três museus, acho que haveria sempre lugar para eles. Lisboa é uma espécie de sede moral para a kizomba.

Adoro kizomba, sei que a minha kizomba se calhar é um bocadinho burguesa…

Eu danço mal também [risos], cada um dança o que pode, isso não é importante.

Como diz a canção do Dino, não sei se a letra é tua, não está especificado: “Mesmo sem saber deixa-te tarrraxar”

Sim, fui eu que escrevi. Esse é o tipo de coisas que eu escrevo [mais risos]. Porque é que eu tenho esta obsessão com a kizomba, na verdade por todas as expressões artísticas a que os africanos dão um contributo substancial? É porque não existem muitos mais espaços… Não é normal um miúdo, adolescente, da linha de Sintra, de primeira, segunda ou terceira geração, pegar no comboio e ir ver uma exposição a Serralves. Não é a prática – há razões  para isso. A segregação, os guetos, eles não são só espaços físicos, são também espaços psicológicos. Tu colocas qualquer ser a circular só do ponto A para o ponto B entre paredes, tu tiras essas paredes, mas o indivíduo vai continuar só a fazer esse caminho e ele nunca vai explorar o ponto c ou d, x ou z. Eu sinto que os guetos têm essa perversidade de colocar as pessoas em determinado lugar, oferecer um tipo de condição, pagar-lhes muito mal. E depois dizem-lhes: safem-se, criem, explorem, sonhem. É impossível sonhar, é impossível arranjares espaço para a contemplação. Então, o único lugar onde tu sentes que as pessoas se dão espaço para a contemplação é exatamente com a música. De certa forma foi isso que me atraiu em escrever para a música…

Exatamente o quê? Ou porquê?

Era o único lugar onde eu podia ter um contacto direto com o público que me interessava, com a audiência com a qual eu queria dialogar. Fiz discos com o pessoal do Hot Club, porque sentia um chamamento do jazz, com o pessoal da eletrónica, porque sentia um chamamento da electrónica e também vou colaborar com o pessoal da kizomba, porque também sinto um chamamento ali. Sei que todas essas expressões somadas nos tornam melhores. É assim que eu me sinto, vejo e reconheço – essencialmente sinto-me um escritor, mas sei que não é automático alguém entrar na Fnac e comprar um livro, pagar vinte euros. Não é simples, as pessoas têm mais preocupações.

Lisboa também é diferente de outras cidades, algumas que têm populações negras, porque aqui há uma população que, não sendo negra, está próxima, ou antes, tem as mesmas raízes?

Sem dúvida, essa foi de certa forma a parte interessante. Há cidades que têm uma relação com as suas Áfricas bem mais intensas e bem mais consequentes: Paris, Londres, pela questão da economia – há mais dinheiro a circular, logo há mais meios e mais produção de afro-descendentes, vindos do Caribe ou vindos de África. E isso em Lisboa não acontece: contamos pelos dedos os realizadores, os escritores, os filósofos, os pensadores, os empresários, a economia africana é bastante limitada. A diferença é que há muitos brancos em Portugal que se identificam como africanos, que não o escondem, que têm orgulho em trazer ao de cima essa identidade. Já em Paris e em Londres eu não conheço brancos que reclamam essa africanidade. Essas pessoas têm esse orgulho de dizer eu nasci no Huambo, Luanda, no Bié… E isso eu não me lembro de encontrar. Porque todos os outros brancos africanos estão em África, conheci vários no Zimbabué, na África do Sul, em Moçambique… eles vivem lá. Não encontrei em Londres ou em Amesterdão – cidades com uma presença africana grande – brancos que dizem, tudo bem, eu tenho esse passaporte por uma questão burocrática, mas emocionalmente eu pertenço àquele lugar. Acho isso bonito, mas depois reclamo responsabilidade nisso.

“Em Lisboa, há muitos brancos em Portugal que se identificam como africanos, não o escondem, que têm orgulho em trazer ao de cima essa identidade. Foto: Rafael Duarte para NANSEN

Como?

Isso é muito bonito quando estás a encontrar um negro escritor e consegues encontrar afinidade intelectual, mas eu quero ver isso é quando começares a votar e a ter responsabilidade política. Tu tens voz e espaço para amplificar questões que dizem respeito à nossa comunidade – se te sentes africano acho que te devias importar com os outros africanos que não têm os mesmos privilégios. Essas são as coisas que eu acho que ainda temos de amadurecer um pouquinho, essa relação com África ainda é um pouco umbiguista – é a minha relação com África, é a minha África, e não a África de todos nós que saímos daquele lugar. Como é que nós, como comunidade, conseguimos crescer, como é que a educação chega aos nossos filhos, netos, como é que a economia os afeta, como é que as políticas sociais os afetam. Por exemplo, li algures sobre essas discussões sobre a mobilidade no espaço CPLP – acho que esse assunto deveria estar na ordem do dia. A Europa está a redefinir-se, era uma boa altura para chegarmos à frente e desafiarmos o próprio conceito de Schengen. E isso não vai acontecer sem uma massa crítica que aponte isso como prioridade – essa é a minha visão.

Essa questão económica de que falas, é importante. Muitas vezes a exclusão é antes de mais económica…

Quando estou em Lisboa vou sempre cortar o cabelo à Mouraria porque ali é que estão os barbeiros africanos… Podia cortar o cabelo no Bairro Alto, mas, para já é mais económico, e dou sempre uma gorjeta generosa, depois porque sei que daquela barbearia, daquele negócio, estão a sair jovens universitários.

De que forma?

O salão onde eu vou, a dona tem dois filhos – a filha estava a acabar o curso na universidade quando eu saí de Lisboa, e isso é raro. Vivi vinte e tal anos em Lisboa e ver isso, aquela criança que nasceu naquele meio e aquele negócio conseguir formar uma pessoa…

Falamos muito nessa Nova Lisboa, mas não é assim tão nova… Quando chegaste cá percebeste que tinha mais de 500 anos. Que parte disso foste à procura?

Ela chegou-me de imediato. Uma pessoa que chega ao Rossio e sabe que se quiser comprar gengibre não há outro sítio para comprar… Quem sabe um pouquinho de História sabe o que significa o Padrão dos Descobrimentos, tudo bem, estamos do lado dos derrotados, mas África está presente em tudo. A presença africana em Lisboa não se conta só pelos negros, conta-se também pelo dinheiro que as Áfricas trouxeram para aqui, o que é que isso construiu, o que edificou. O império português sem o capítulo da história africana, não sei o que é que seria, eu não preciso de muito mais para perceber o impacto que isso tem. Começa logo pela língua: eu expresso-me em português, eu escrevo em português, chego a Lisboa e digo, ok, este é o berço dessa língua que eu falo. Ter essa consciência é logo imediato. Falo por mim, mas penso que não sou o único a pensar dessa forma. Talvez as pessoas não o verbalizem, mas eu não penso a relação de Lisboa com África – não conto pelo número de africanos. Começo logo pela língua, e logo a seguir a geografia.  O que é que essa relação edificou? Olhamos para a História de África: estou a trabalhar numa série da presença de dois deputados negros na Assembleia da República – um de São Tomé e outro não me lembro de onde era. Um pouco antes da Primeira Guerra Mundial – e foram eles que organizaram a conferência com Du Bois, até há uma foto deles nessa conferência (em Lisboa) de pensadores que estavam já  discutir a emancipação dos negros na América e havia esse cruzamento entre a diáspora africana na Europa. Fala-se da conferência em Londres e em Paris, mas em Lisboa não está nos livros de História. Quando se lê sobre a passagem do Du Bois na Europa, Lisboa não está contemplada. Ainda ontem estava a ler o artigo sobre o lobby político que Egas Moniz criou para ganhar o Nobel – eu não sabia que ele tinha sido nomeado quatro vezes até conseguir o prémio, na geografia política da Europa, Portugal estava muito mal cotado. Ele começou a fazer o seu lobby junto da comunidade científica – da brasileira inclusive – que depois votaram nele.

Há muito por contar.

Eu acho que o papel que Lisboa tem na presença negra na Europa está quase invisível na História, porque os lisboetas ou os portugueses não veem a importância que isso tem na construção da identidade cultural de Portugal – fundamentalmente de Lisboa. Na minha visão do mundo isso é trágico – continua a colocar Lisboa no local periférico que não deve ter, e que não teve durante séculos, mas que agora tem e isso por culpa dos lisboetas.

Já disseste que achavas os lisboetas desinteressados na sua própria história e no seu lugar no mundo.

Absolutamente, isso eu sinto. É pena, à nossa escala valorizamos muito pouco os acontecimentos, os feitos que a cidade conseguiu produzir, científicos, culturais, políticos. Houve uma conferência há uns tempos, com vereadores da Cultura de todo o mundo. Convidaram-me e foi interessante… Gosto muito de cidades essencialmente. Foi curioso a dada altura o vereador da Cultura de Nova Iorque, – estávamos ali naquela salão nobre da câmara municipal de Lisboa – olhou em volta, e perguntou: “Vocês não sentem nada de estranho aqui? Só estão aqui uma data de caras brancas, de homens, Lisboa é isso?” O salão nobre da câmara municipal de Lisboa só tem homens brancos e velhos. E as mulheres, qual é o papel delas nesta cidade? Parece uma coisa tão pequena, mas é tão representativa de como Lisboa se vê a si mesma. E isso é chocante. Eu tive de fazer um esforço para descobrir a primeira sufragista – a Beatriz Ângelo. Ela tem um hospital em nome dela, mas tenho a certeza de que há muita feminista em Lisboa que não sabe o papel dessa mulher nem da geração dela.

De certa forma contribuíste para que isso deixasse de ser um pouco assim? Qual é o teu papel nessa Nova Lisboa?

Eu sinto-me responsável. Não sei se contribuí ou não, porque essas  contas fazem-se no final. O que eu sei é que tenho um sentido de responsabilidade a partir do momento em que me expresso em português. No início, perguntaste-me se eu me sinto lisboeta. Pegando um pouco no Mia Couto e em Fernando Pessoa: eu habito a língua portuguesa, é o meu espaço geográfico, e embora eu fisicamente esteja fixado em Berlim, continuo a habitar esse espaço. E há ligações que nunca se perdem, há a minha história, a minha génese, que vem de Angola, mas Lisboa também tem um papel fundamental na minha formação. E esse lugar que eu habito, acho que me dá direitos, privilégios e responsabilidades.

Quais?

É minha responsabilidade relembrar-nos dos nossos feitos e daquilo que temos de fazer para continuarmos a melhorar. Isso eu sinto, sem dúvida, tanto na música, como nas crónicas, assim como nos livros. Todas as palavras, as frases, as ideias que tentamos passar têm de ter essa âncora, naquilo que é importante para nós, que é exatamente esse espaço físico que se chama língua portuguesa que nós habitamos. Não sou grande apologista do entendimento que os académicos colocam nisto porque há uma politização da língua portuguesa – essa não me agrada, não me diz nada, está associada à ideia do império…

Estás a falar de movimentos mais conservadores…

É, essa não me interessa. A língua portuguesa que eu habito, essa língua inclui-nos a todos. Inclusive os brasileiros.

Os Buraka Som Sistema. Foto: D.R.

Vamos falar dessa noção de centro e periferia. Essa tua cultura de mistura também se faz muito por aí. Quando é que foi a primeira vez que, tu, um angolano a viver em Lisboa, saíste do centro para ir para a periferia?

As revoluções não nascem nos centros. As revoluções, que estudamos nos livros de História, todas elas nascem na periferia. Sinto que na cultura é a mesma coisa, a cultura não é produzida no centro, ela vem parar ao centro, onde estão as pessoas que a organizam, colocam os rótulos, encontram as prateleiras certas para ela. Mas o caos, a efervescência, o borbulhar não está no centro, a gente sabe, no centro não há pessoas. Desde muito cedo senti que se quisesse ter contacto com o que de mais fresco e contemporâneo estava a ser produzido tinha de ir às periferias.

Por outro lado também sinto que há um preconceito das pessoas que habitam o centro, que conquistaram o seu lugar no centro, com as periferias.  Até dos mais liberais. Eles acham que as discussões têm de acontecer no centro, as manifestações culturais têm de acontecer no centro onde se colocou os museus, as salas de espetáculo, as galerias, os teatros. E é raro – tirando quando tens manifestações muito concretas, como a Amadora BD e é incrível, (para quem gosta de Comics, e não só, todos deviam ir). Os fazedores de cultura não encaram a periferia como lugar de pensamento, onde a cultura também pode se dar, sem os paternalismos, as condescendências, “ó coitadinhos, vamos lá ajudar”, não, uma coisa genuína. Grande Lisboa é essa área, eu vou onde está a acontecer. A Grada Kilomba, diz esta frase: “A arquitetura é também opressiva”. Para se desmantelar e destruir racismo, preconceito, tem também de se destruir essas manifestações. A arquitetura é provavelmente das manifestações mais opressivas porque delimita espaços e movimentos muito concretos.

Estamos a falar de bairros sociais, é isso?

Sim, desde bairros sociais, a políticas de urbanização, políticas de transporte, tudo isso contribui para esse afastamento da periferia.

Mas tu foste lá, à periferia.

É inevitável. Eu a querer criar, a querer fazer, sei que a pessoa de que eu preciso vive no Cacém, imaginemos. A locomoção do Cacém a Lisboa, se não tiveres um passe, ronda os quatro, cinco euros. Imagina que esse indivíduo tem 18, 19 anos. Vai gastar cinco euros para vir fazer coisas comigo em Campo de Ourique ou na Baixa? Nem pensar, sou eu que tenho de ir ter com ele. Para mim foi sempre essa lógica.

Onde é que encontraste os teus primeiros companheiros como o Branko?

Na Amadora, assim como o Riot. O Andro vivia na linha de Sintra [todos dos Buraka Som Sistema]. Acho o Slow J incrível – eu não o conhecia, mas foi lá que o fui conhecer, para o lado de Sintra, eu nem conhecia o nome do lugar, [era] ali nesses Rios de Mouros da vida.

Chelas. E de Chelas ao Rossio é mais perto do que de Benfica ao Rossio.

Como os Olivais. Há zonas que não estão fora da cidade, mas onde as pessoas ainda têm dificuldades em chegar ao centro, mas quando chegas à idade dos produtores de rap eles circulam por toda a cidade. Vou fazer 43 anos este ano, já muita coisa se passou na minha vida, a minha vida essencialmente é o computador: sento-me, escrevo e estou feliz com isso, mas eu acho que se estivesse há 15 anos provavelmente estaria a fazer a mesma coisa, como fiz quando estava no início das minhas lides musicais.

Como é que tens visto a evolução da cidade?

A mudança principal, para mim, foi sentir que Lisboa começou a ser reclamada por pessoas em quem não era comum ter esse chamamento. Nos primeiros anos, a maior parte dos afrodescendentes se diziam cabo-verdianos e angolanos. No contacto do dia a dia percebias que a pessoa se identificava com outro lugar, o que acontecia de uma forma quase inconsciente. O que eu senti, já estando fora, fazendo esta ponte aérea com Berlim, nos últimos dez anos – sinto que começou a  mudar essa consciencialização de que eu sou deste lugar e que qualquer coisa que eu faça tem de ter impacto neste lugar.

O que queres dizer é: “Eu sou de Lisboa”.

Senti isso ali no meio da minha carreira com os Buraka – um reclamar a cidade, reclamar o espaço. Comecei a ver – gosto muito de estudar e analisar o rap – nas próprias letras do rap, um reclamar do espaço, da zona, do bairro, diferente daquele que encontrei quando cheguei [de Angola]. Estamos a falar da década de 2010. Antes, eu não sentia isso. O rap foi sempre muito bairrista, esse reclamar sempre esteve presente, mas nunca na ideia de espaço de ação, mas de espaço de reação.

O que estás a dizer é que essa integração é dupla. É a cidade que integra, mas também são as pessoas que integram a cidade.

Sim, claro. Eu não acho que Lisboa resolveu  – aumentaram as linhas do metro, é um facto – mas todas as coisas que acontecem em termos arquitetónicos e em políticas urbanas foi sempre para trazer mais pessoas para o centro, não no sentido do imobiliário, mas na relação com a cidade: trazer pessoas para usufruírem das coisas que estavam a ser  construídas, edificadas no centro. Queres ir ao  teatro? Vens para cá. Curiosamente a literatura permitiu-me viver Lisboa de outra forma, colocou-me nas escolas, com os Buraka não tinha espaço para visitar uma escola preparatória ou secundária. Mas a literatura colocou-me nesses lugares. E há vida nesses lugares.

“Tenho saudades de ouvir e  dançar kizomba, embora também haja kizomba em Berlim. Mas lá toda a gente dança muito bem, são pessoas que estão a aprender em ginásios”, diz Kalaf. Foto: Rafael Duarte para NANSEN

Lisboa é uma cidade mais integradora do que… “afastadora”?

Acho que é inevitável. Lisboa não faz disso prática. Às vezes tens de lembrar isso às pessoas. Quando isolamos os portugueses são das pessoas mais generosas que podemos encontrar, mas quando estão em massa, em grupo, a coisa pia diferente. Não sei se é por causa dos anos do Estado Novo, não sei, mas a maior parte dos portugueses anula-se em grupo, ficam naquela passividade a ver quem é que avança primeiro e quando veem o outro avançar, aí sim, é que avançam. Individualmente, as conversas que eu tenho com o Presidente da Câmara são das conversas mais interessantes que podes ter com um político, mas depois… as coisas param. Aí é que é importante o vosso trabalho, da Comunicação Social e as vozes individuais são importantes. É a ideia do soft power – tudo bem, tu tens vozes que são importantes e que estão ali na linha da frente a quebrar barreiras , mas  acho que o soft power tem mais poder, porque é o que solidifica, o que instala.

De que é que tens saudades de Lisboa quando estás em Berlim?

É difícil, porque quando tenho saudades de Lisboa, apanho um avião e venho. Mas tenho saudades de ouvir e dançar kizomba, embora também haja kizomba em Berlim. Mas a kizomba que há em Berlim é uma kizomba em que tu e eu nos iríamos sentir como peixe fora de água, porque toda a gente dança muito bem, são pessoas que estão a aprender em ginásios.  Numa escala de zero a cinco, eu estou provavelmente no 1 e toda a gente está no três, esse é o average –  é incrível. Porque a kizomba se tornou um fenómeno como a salsa e a bachata, é uma dança de salão, está em todo o lugar. Quando vou a esses encontros essencialmente eu vou lá para ouvir música, tudo bem a gente bate o pé, mas sinto-me intimidado em dançar. Essencialmente, do que eu sinto falta é de espaços onde possa ouvir a música que a gente produz, que vai desde a kizomba até ao kuduro passando por esse hip-hop  – acho que o rap finalmente está a gostar dessa sua africanidade, e uma viragem que está a acontecer desde 2010, ele antes era muito virado para as Américas, mas agora começam a entender  – os Dinos D’Santiagos, os Julinhos, mas há mais – os Vados, que aquilo que os torna únicos é que lhes vai dar mundo e é maravilhoso. Em Berlim sinto falta desses espaços.

Quando estavas nessa tua vida lisboeta do Bairro Alto, ias ao fado?

Pouco, era muito raro. Nunca ouvi muito fado. O meu trajeto, na minha Lisboa noturna, passava sempre pelo Hot Club, Bairro Alto, qualquer discoteca de kizomba e acabar no Lux ou qualquer sítio onde houvesse dance music. Eu comecei a gostar de fado quando começaram a aparecer as africanas do fado: a Ana Moura e a Marisa. A Ana Moura, pelo lado angolano, e a Marisa, pelo lado moçambicano. Elas é que de certa forma me fizeram prestar atenção.

Já fizeste fados.

Já, vários. A Marisa já me pediu vários, nunca lhe consegui mandar uma letra. Para a Ana Moura escrevi – está no disco Moura -, para a Cristina Branco escrevo com mais frequência. Deixa-me abrir o Spotify, nem me lembro dos títulos das minhas próprias canções. Fados que escrevi para a Ana Moura no novo disco devo ter um ou dois, mas no disco Moura tenho o “Não quero nem saber”, que escrevi com a Sara Tavares. No disco da Cristina Branco, também escrevi “Noite, Onde Vais Cheia de Pressa?” A minha carreira de escritor de canções é muito esporádica, não faço disso prática, a pessoa pede-me e tem paciência – com a Marisa quando consegui [escrever a letra], o disco já estava em produção.


Catarina Carvalho

Jornalista desde as teclas da máquina de escrever do avô, agora com 48 anos está a fazer o projeto que melhor representa o que defende no jornalismo: histórias e pessoas. Lidera redações há 20 anos – Sábado, DN, Diário Económico, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo… – e segue os media internacionais, fazendo parte do board do World Editors Forum. Nada lhe dá mais gozo que contar as histórias da sua rua, em Lisboa.

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2 Comentários

  1. Foi com enorme satisfação que li atentamente esta entrevista, e
    porquê? porque me revejo no entrevistado e na entrevistadora, no entrevistado porque sendo eu alfacinha, e tendo vivido e crescido na alameda d. afonso Henriques e frequentador assíduo do bairro alto e da baixa, que eram os locais onde eu comprava as cordas para as minhas guitarras, partituras, e livros também,
    Revejo-me com a entrevistadora porque também eu fiz um curso de dactilografia numa escola junto ao café Império,estudei artes gráficas na António Arroio, aos desassete anos já levava textos de jornal à censura que ficava no bairro alto trabalhei numa agência de publicidade, numa revista de televisão e andei pelo meio audiovisual, já agora para terminar e não me tornar maçador, quero deixar aqui uma nota de algo que foi muito importante para mim, andava eu na escola primária e já aprendia a ler com o Diário de Noticias na nossa varanda virada para a alameda cujo jornal custava 1 escudo.
    Muito obrigado por esta entrevista, e pela paciência de me ter lido se foi o caso

    Jorge Cabrita

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