Após mais de cinquenta dias confinado aos lares, uma das paixões dos lisboetas, o café, volta a ser vendido nos estabelecimentos de restauração. Foto: Líbia Florentino

A partir de hoje já é possível beber bica na rua. Proibido durante o confinamento, em take away, pela acumulação de pessoas à porta das lojas, o café faz parte das primeiras medidas de reabertura. Já se pode vender de novo, em take away. Não regressa ainda na sua plenitude, sobretudo na sua função social, espalhando charme por salões e esplanadas. O desconfinamento funciona a passos curtos, permitindo por enquanto a venda “ao postigo”, com o cliente a ir buscar o café de pé à porta do estabelecimento, e o café servido em copos de papel. Para muitos amantes isto roça a heresia. Para outros, é melhor do que nada. Sobretudo depois de mais de 50 dias confinado às quatro paredes lá de casa. E às máquinas onde, todo o lisboeta sabe… não é a mesma coisa.

De acordo com as determinações do governo, as esplanadas e as chávenas ficam para 5 de abril e os salões das cafetarias e pastelarias reabrem no dia 19. A venda ao postigo é um pequeno passo, mas pode representar um salto para um setor levado às cordas pela pandemia e que luta para não ficar knock out.

A partir desta segunda-feira, a venda do café volta a ser permitida, mas apenas no postigo. Foto: Líbia Florentino

Segundo dados de fevereiro da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), 26% dos estabelecimentos tem funcionado em regime de take-way e 51% fecharam as portas. A expetativa de quebras na faturação rondava os 75% e 36% dos empresários ponderavam a insolvência. Embora não se consiga saber ao certo qual o peso do café – ou da proibição da venda dele – é dos produtos que mais lucro rende, e dos mais vendidos,

Uma paixão lisboeta, desde os tempos do Marquês

“O impacto no setor é enorme”, reconhece Tiago Quaresma, vice-presidente da AHRESP e diretor do Café A Brasileira desde março de 2020 (A Brasileira é sócia da empresa detentora da Mensagem de Lisboa), ou seja, desde o início da pandemia. O confinamento manteve as portas cerradas – e a Brasileira não fez venda em take away, só retomando os serviços a 5 de abril, curiosamente neste que é o lugar onde primeiro se serviu café à porta, em pé, numa espécie de primórdios do postigo.

A Brasileira só reabre a 5 de abril, quando as esplanadas voltarem a entrar em funcionamento. Foto: Líbia Florentino

No início, o estabelecimento comercializava apenas os grãos e, para convencer o cliente sobre a qualidade do produto, oferecia “degustações” do café, tirado não do bule, mas direto da bica, o que acabou por batizar toda uma paixão.

A paixão do lisboeta pelo café é antiga. No livro História dos Paladares (Prime Books), a escritora Deana Barroqueiro aponta que os primeiros cafés em Lisboa surgiram logo após o terramoto de 1755, reflexo de uma cidade em reconstrução física e emocional. “Por determinação do Marquês de Pombal, os donos tiveram que colocar por cima da porta uma tabuleta anunciando o negócio”, explica a autora. E assim, surgiram os cafés Martinho da Arcada, Tavares e Nicola, por exemplo.

Para Garrett, bastava se entrar num café para se conhecer as “feições características de uma terra”. Foto: Líbia Florentino

Fundado em 1794, o Nicola foi bom exemplo do que o café representa para o espírito dos lisboetas, para além do sabor e dos estímulos proporcionados pela cafeína. O proprietário, o italiano Nicola Breteiro mandara construir um “gabinete exclusivo para os poetas”, conta Deana Barroqueiro no livro, imprimindo ao espaço ares de ponto de encontro da intelligentsia da época.

Os primeiros cafés em Lisboa surgiram logo após o terramoto de 1755, reflexo de uma cidade em reconstrução física e emocional.

Provavelmente, o signore Breteiro também foi o precursor de uma outra instituição lisboeta, a do fiado. O seu mais notório cliente, o poeta pré-romântico Bocage, era conhecido pela riqueza dos versos e a pobreza da conta bancária. Dessa forma, o café e outras bebidas estimulantes eram patrocinadas por um dos empregados do Nicola, José da Silva, através de empréstimos “a fundo perdido”, ressalta Deana. O último empréstimo de José Silva a Bocage, definitivamente, foi concedido sem a mínima intenção de reaver a quantia, pois serviu para financiar o funeral do poeta.

Entre cafés e cafeína

O confinamento afastou os portugueses dos balcões e das esplanadas, mas aparentemente, não do café. Um estudo da TGI Marktest apontou que dois em cada três portugueses têm uma máquina de expresso em casa. Ou seja, um exército de mais de sete milhões de lares convertidos em minicafetarias – o que terá ajudado a passar os tempos da proibição.

Nada surpreendente numa população que, segundo dados da empresa alemã especializada no perfil dos consumidores, Statista, foi responsável pelo consumo de quatro quilos de café por pessoa, em média, em 2020. Ainda no ano passado, o InMarket apurou que 42% dos portugueses tomaram, pelo menos, duas chávenas ao dia.

Em 2020, cada português consumiu em média, quatro quilos de café. Foto: Negative Space (Pexels)

Duas chávenas ao dia representa o consumo aproximado de 200 miligramas de cafeína, o composto químico que batiza o café, capaz de agir sobre o coração, dilatar os vasos sanguíneos e estimular o sistema nervoso central, o que resulta na sensação de bem estar e disposição logo ao primeiro gole. Nem somos os campeões da cafeína e isso tem muito a ver com a forma como bebemos o café: em chávenas muito pequenas, onde há menos da substância.

Apesar de aparentemente sem contra-indicações – deve, entretanto, ser evitada aos que sofrem com insônias e arritmia cardíaca – a cafeína pode ser letal caso ingerida em dose superior a dez gramas, o que não é, necessariamente, motivo de preocupação, a não ser para quem esteja disposto a tomar cem chávenas de uma só vez.

O café como retrato de um povo

O jornalista Samuel Alemão também andou a pesquisar essa relação dos cafés com os lisboetas. O resultado foi publicado em Cafés Portugueses – Tertúlias e Tradição (Edições CTT), livro que traz como referência inicial o pensamento de Almeida Garrett sobre os cafés como “feições mais características de uma terra”. O excerto é retirado do livro Viagens na Minha Terra, onde Garrett sustenta que em qualquer país “sublunar”, basta se pisar num café para se saber tudo sobre “o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião”.

O jornalista Samuel Alemão diz que o lisboeta acostumou-se a estar em volta de uma chávena. Foto: Líbia Florentino

Samuel concorda com Garrett. “Os cafés sempre foram um espaço de entrosamento público”, define. “O lisboeta acostumou-se a estar à volta da chávena, seja numa esplanada requintada ou numa cafetaria de bairro, com A Bola sobre o balcão e a CMTV a passar na televisão.”

O valor do café em Portugal, lembra Samuel, é um ingrediente a mais da “cola social” do produto. “Um expresso na Alemanha, em França ou Itália custa três euros. Há zonas de Lisboa em que uma bica bem tirada sai por setenta cêntimos”, diz. Esse caráter democrático da bebida colaborou para que o convite de se “tomar um café” seja uma senha para se colocar a conversa em dias.

Nesta segunda-feira, Samuel Alemão ainda não decidiu em qual dos estabelecimentos do Areeiro fará a sua rentreé aos prazeres da chávena. Certo, porém, é que sairá de casa e, como milhares de lisboetas, engrossará a fila em frente ao postigo para rever o velho amigo de todas as horas, o café.

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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4 Comentários

  1. Li o artigo com muito interesse e, embora ache lógico e acredite que o nome”bica” vem da bica donde o café era tirado, gostava de acrescentar uma curiosidade que me contaram:
    No início, as pessoas não apreciavam muito o café por ser tão amargo. Então, na Brasileira, colocaram uma tabuleta na montra, junto ao café, com a seguinte frase: “Beba Isto com Açúcar” e, foi assim que nasceu o nome que damos ao café – pode não ser verdade, mas é engraçado.

  2. A sua última frase diz tudo.
    “Pode não ser verdade mas é engraçado”… É o que muita gente costuma contar aos turistas, mas carece de verdade, não existem nenhuns indícios dessa placa em nenhum tipo de documento, Dinah.

  3. Nunca percebi o gosto pelo café ao postigo ou ao balção. Para mim, café é em chávena e sentado. E o café de minha casa é biológico e do Peru e melhor do que qualquer que alguma vez tenha bebido num café. Portanto, paro em cafés, quando quero tomar outras coisas que não café, mas nunca ao balcão. E ainda menos ao postigo. Percebo que após o confinamento as pessoas queiram sair. Eu também quero e faço-o. Mas para tomar mau café ao postigo não!

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