Antes do colapso no mundo, ainda havia amor entre Lisboa e a Amadora.

Tinham-se conhecido há dois anos e toda a gente julgava que aquilo tinha pernas curtas porque ela era melhor do que ele: cinco anos mais nova, cascata de caracóis, um sorriso que mudava o ar à volta. E ele, chegado aos 40, não apenas tinha a barriguinha de cerveja como o cabelo já começava a rarear. Era ouvi-lo dizer “Não me sinto com 40”, o que até fazia sentido para quem o via alegre a comer bolinhos de bacalhau com Coca-cola sem pensar no colesterol. Ainda por cima, desde que a conhecera que, apesar de mais gordo, se sentia mais leve.

Os cínicos não demoraram a calar-se. Ele gostava dela, ela amava-o. Nunca lhes faltava um sorriso quando falavam um do outro. Chegavam os dois do trabalho, ia cada um à sua casa, depois fazia o percurso a pé para a do outro. Era quase sempre ele que ia à Amadora. Não por um tom galante de quem vai ter com a donzela. Era mesmo pelo aspeto prático de a cama dela ser maior, 200 x 180 centímetros de colchão ortopédico e almofadas viscoelásticas. E ainda por cima ela tinha máquina de waffles.

De uma casa à outra, eram sete minutos a pé. Entrado no prédio, três andares sem elevador. Chegava à casa dela ofegante e não dava para se entender se era por estar em baixa forma, se por ter acelerado, se por ter saltado degraus, se pela excitação do vislumbre do amor. Aninhavam-se um no outro, o mundo lá fora era paisagem.

Quando o ex-marido dela voltou da Suíça, os cínicos voltaram ao ataque. Não apenas o tipo era bonito como regressara rico ao ninho. A partir daí, nunca mais ninguém o viu em churrasqueiras na Amadora. A vida era andar nas marisqueiras de Benfica. Depois de se entupir de sapateiras e lagostas, ainda deixava uma gorjeta que dava para dois jantares no McDonald’s.

Claro, cá chegado, começou a fazer-lhe a corte, julgando que o casamento tinha acabado à pressa. Ela disse-lhe que estava com outro e ele passou a pente fino, como um stalker, os likes do Facebook. Intuindo pelos corações em publicações estratégicas, lá chegou ao nome do gajo: Carlos Jorge da Cruz. Ainda por cima tinha nome de sketch de humor.

A ex-sogra não ajudou nada, pôs-se a dizer à filha “Olha que um casamento não acaba assim”, mesmo que o casamento já tivesse acabado quando ele saltara a cerca. A infidelidade parecia valer-lhe pouco perante uma insistência de galã, roupa Massimo Dutti e uma entrada para um T3 com closet e chão de soalho flutuante.

Mariana Sofia ignorou tudo, só queria saber do seu amor, a quem chamava “Meu Cajozinho”. Os cínicos calaram-se outra vez: se ela queria aquele minorca careca com dedos engordurados por causa dos rissóis, que podiam fazer? Era aceitar, acenar, entender que o amor vai sempre avante.

A história de amor ia para onde tinha de ir se não houvesse outro tipo em Benfica pronto para estragar esta comédia romântica de domingo à tarde confinado. Quando António Costa apareceu no seu fato na televisão, os dois estavam em directo, cada um no seu sofá comprado em Alfragide, e souberam que os passeios entre a Amadora e Benfica, por muito que fossem apenas 420 segundos de distância, estavam condenados.

Dois dias depois, ela refez a sua vida, prática, virada para o possível. De que lhe servia o amor megalómano à distância de um estado de emergência? Voltou-se para o ex-marido. Se se tinham amado um dia, talvez a sede um pelo outro pudesse renascer. E uma traição em sete anos de casamento sempre era melhor do que namorar por Zoom.

O Cajozinho, coitado, teve de enfrentar o mundo inteiro: o governo estava contra ele, continuava barrigudo, sacava kebabs gordurosos na Estrada de Benfica, depois de passar cinco minutos a escavacar-lhe a cebola, e percebeu pelo Instagram que não passava de um episódio numa história longa de outros. A sua cabeça era a do povo: a culpa não era dela, a culpa não era do outro, a culpa não era dos chineses, os filhos da mãe do governo é que tinham estragado tudo. O Primeiro-Ministro lixara assim um vizinho sem prever que ia rasgar o coração de um conterrâneo. Como perdoá-lo, para mais tendo votado nele?

O Cajozinho contou-me isto ontem à tarde no jardim. A figura era ridícula e ele estava com pressa para passear o cão: calças de fato de treino largas, t-shirt XXL, hoodie para obeso para ser mais confortável, um fio de homem a desaparecer na roupa. Tinha os olhos esfregados e fumava. Estava mesmo com ar de quem tinha sido trocado por um novo-rico adúltero.

Perguntei-lhe se podia escrever esta história tal como aconteceu. Disse-me que sim, com uma ressalva. Não lhe importou ser o gordo, o mau partido, o gorduroso, o rapaz do tasco. Não lhe importou que ninguém fosse achar que ele era mau para ela ou que soubessem que agora chora agarrado à almofada, que nem sequer é viscoelástica. O seu escândalo foi outro, à lisboeta. Corrigiu-me, indignado, quase pedante, e disse-me que eu tinha de escrever “pastéis de bacalhau”, mas claro que me recusei a isso, vim do Minho e ainda tenho os meus princípios. São assim os concelhos que nos separam: estragam os amantes e ainda metem o nariz na semântica dos outros.

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

Entre na conversa

5 Comentários

  1. “de uma casa a outra eram 7 minutos a pé”, fiquei confuso, não vivia o cajozinho e a mariana separados pelos dois lados da margem?

  2. Também fiquei chocada com isso dos bolinhos de bacalhau. Sempre pensei que fosse um nome dado no Brasil. Não sabia que no norte também se chamavam assim

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *