Reza a história que a prevenção vale mais do que o remendo. Por isso desafiámos cinco mentes empreendedoras da Startup Lisboa a pensar no futuro de uma Lisboa sem pandemia. Embora a atualidade ainda nos peça cautela, há certezas com as quais se pode começar a trabalhar: a cidade não será a mesma, no turismo, na sustentabilidade, no ambiente, na mobilidade, mas também na empregabilidade e na qualidade de vida.

Já ouvimos falar em empresas com vales de mobilidade (em vez de disponibilizarem carros aos seus funcionários), de uma fórmula para a coabitação pacífica entre turismo e comunidade local e de chamar os “fazedores da cidade” para discutir questões ambientais. Agora, duas mulheres ligadas à incubadora de start-ups falam em voltar a 2012, quando ela foi criada e em chamar mais jovens universitários.

Ana Santiago entrou na Startup Lisboa em 2013, para a área da comunicação. Foto: D.R.

Pode a própria Startup Lisboa servir de exemplo do que a cidade deve fazer para o futuro? Ana Santiago não tem dúvidas que sim. A responsável pela comunicação da incubadora, desde 2013 passou a conhecer um outro lado da sua cidade, o ecossistema das start-ups e o que podem fazer por uma capital europeia como Lisboa. “Na altura, nem sabia bem o que era uma start-up, mal se falava disto. Nem sei o que terá nascido primeiro: se elas, se o ecossistema. Como a história do ovo e da galinha.” Hoje em dia, “já há tantas incubadoras”, que a questão nem se colocaria.

“Quando vou a outros países, primeiro digo que sou de Lisboa, depois é que digo que sou de Portugal”, confessa Ana. Este lado de conhecimento sobre a cidade leva-a a dizer que ela é “bonita, internacional, saudosa e trendy“, uma capital em que “os últimos anos parecem um século” em crescimento. “Deixamos de ser um canto na Europa, para ser uma entrada na Europa”, lembra.

O que estes tempos nos vão deixar é “uma cidade para reviver”. Os lisboetas vão ter de “aprender a viver na cidade e vão exigir mais dela”.

A pandemia veio estagnar esta ideia, que assumia proporções maiores a cada dia que passava, com a chegada de mais estrangeiros, mais empresas, mais mundo. E o que estes tempos nos vão deixar? “Uma cidade para reviver. Os lisboetas vão ter de aprender a viver na cidade e vão exigir mais dela”, diz Ana.

E qualidade de vida vai depender de uma coisa muito importante: a reorganização do comércio, sobretudo na zona da Baixa – “e esta conheço-a bem”, diz Ana. Se a pandemia trouxe a vontade de “sermos mais locais, consumir dentro dos nossos bairros”, está na hora de olhar para dentro e, diz Ana, “fazer o que fizemos em 2012”, com a criação da Startup Lisboa, na Rua da Prata. Nesse ano circulou ativamente “investimento de apoio aos empreendedores”. Quando a incubadora arrancou “o primeiro objetivo de todos era ajudar na reabilitação urbana, económica e social de uma zona que estava deprimida, que era a Baixa”, o que frisa ser transversal a todas as cidades europeias.

Ainda que a CML tenha lançado programas de apoio, como o Lisboa Protege, Ana diz que é preciso olhar mais em frente. “Temos de replanear para o que vem depois. Não pode acontecer termos três lojas de souvenirs que ninguém compra nas ruas históricas e emblemáticas da Baixa. Não podemos não apoiar mais o comércio local.”

E se “envolvêssemos os cidadãos em desafios concretos, em vez de ser um único concurso em que surgem ideias para várias áreas?”

Mas, quando fala em chamar os empreendedores da cidade, sublinha que qualquer um de nós pode sê-lo. É por isso que propõe à cidade dinamizar o seu Santo Graal, o conhecido Orçamento Participativo – Lisboa foi a primeira capital europeia a aplicá-lo -, e dar-lhe novas dimensões.

E se “envolvêssemos os cidadãos em desafios concretos, em vez de ser um único concurso em que surgem ideias para várias áreas?”, lança. Resolver a questão do comércio na baixa poderia ser um deles. “No fundo, dar a palavra que as pessoas têm nas redes sociais e cafés, levá-las a sair do sofá para a realidade.” Qualquer que seja o próximo investimento da autarquia, remata, deveria passar por aqui.

Maria Guimarães tem 40 anos e é Head of Content na Startup Lisboa. Foto: D.R.

A competição internacional para atrair talento

Se Lisboa quiser manter o caminho da modernidade tem de esforçar-se por ser uma cidade inclusiva e sustentável, com qualidade de vida, porque só assim conseguirá atrair talento: gente criativa que, por outro lado, ajude ainda mais a cidade. A Head of Content da Startup Lisboa, Maria Guimarães, 40 anos, não tem dúvidas disso.

Formada em política social, e conhecedora dos caminhos que se palmilham para entrar nas empresas, diz que a atração de talentos será um dos maiores desafios de Lisboa quando as portas se voltarem a abrir. Se é certo que “a única previsão que temos é a imprevisibilidade”, Maria diz ainda que já “sabemos que há marcas profundas e a questão do trabalho é uma delas”.

“Já se sentia, antes da pandemia, uma certa alteração do paradigma e a pandemia veio aprofundá-lo, com o teletrabalho. De repente, torna-se maior a competitividade entre as grandes cidades para atrair talento, que pode estar disperso pelo mundo. Isto vai ser um grande desafio e ganham as empresas que tiverem maior capacidade de retenção de talento”, garante.

Os career forum “são um bom exemplo: os estudantes ainda estarem a estudar e já terem contacto com as empresas”. “É uma boa prática. A ideia seria ampliar esta vontade, que tem de começar cada vez mais cedo e com maior dimensão”

Na proposta de solução que apresenta para este problema, vai no sentido contrário à ideia de Ana Santiago: olhar para fora (da empresa e do ecossistema). E cada vez mais cedo, acrescenta. Fomentar a ligação entre empresas e universidades deve ser, na sua opinião, um objetivo conjunto das entidades e “até em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa”.

Algo que já acontece com os designados “career forum” (fóruns de carreira), em que as empresas vão apresentar-se aos estudantes e vice-versa. “São um bom exemplo: os estudantes ainda estarem a estudar e já terem contacto com as empresas. É uma boa prática. A ideia seria ampliar esta vontade, que tem de começar cada vez mais cedo e com maior dimensão”, explica.

Maria Guimarães lembra um período pré-pandemia muito longe do vazio em que a cidade se tornou. Como se a luz se tivesse apagado, numa noite que nunca mais acorda. “Víamos um grande boom de pessoas interessadas em vir para Lisboa. A WebSummit foi um grande ponto de atração, por exemplo. De repente, começamos a ter todos os olhos em nós, as pessoas ficaram com bastante curiosidade e Lisboa tornou-se uma cidade bastante atrativa. Além disso, Lisboa tem uma grande qualidade de vida e é um sítio onde quase toda a gente fala inglês. Como é natural, a pandemia veio travar isto.”

Em mãos, a cidade tem agora a responsabilidade de começar a pensar na reversão deste sono profundo em que entrou. Sobretudo para ter a capacidade de acompanhar as outras capitais do mundo “que vão procurar fazê-lo”.


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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