Calcinhas em Lisboa é o peculiar nome do grupo de apoio virtual, com resultados bem concretos, que desde 2017 está a construir uma rede de apoio às brasileiras na capital portuguesa. A intenção original era a troca de informações para a obtenção de documentos e empregos, mas as dificuldades inerentes à equação mulher + imigrante ampliaram o raio de serviços oferecidos, como a atenção especial à violência doméstica, e em tempos de pandemia, a doação de alimentos.

O nome do grupo é uma referência ao facto de, ao contrário do que em Portugal, a peça íntima do vestuário feminino ser justamente a calcinha (a cueca é exclusividade dos homens). Devido à pandemia, as reuniões de calcinhas acontecem atualmente através da página do Calcinhas em Lisboa no Facebook, com cerca de 11 mil integrantes, embora haja a intenção de retomar os eventuais encontros presenciais no futuro.

“Muitas mulheres estão sós em Lisboa. Ligam para desabafarem. Antes isso acontecia à mesa de café, o confinamento acentuou a falta.”

Thaísa Araújo, organizadora do Calcinhas em Lisboa.

A ideia de reunir as “calcinhas” em Lisboa partiu da psicóloga Thaysa Araújo, após perceber que os demais grupos de apoio virtual, aberto à participação masculina e feminina e com medidas de segurança pouco efetivas – ou nenhuma – poderiam oferecer riscos às brasileiras que se encontravam em situação de fragilidade fora do seu país.

Para garantir a privacidade e a segurança das integrantes, Thaysa estabeleceu regras rígidas de participação, que incluem a proibição de uso do espaço para divulgação de mensagens religiosas e políticas, punidas com a expulsão sumária. “Como sou virginiana, gosto de tudo muito organizado e claro. O Calcinhas sempre teve objetivos específicos e é preciso respeito e foco para que as nossas ações resultem”, explica a psicóloga de 46 anos, que há dez trocou São Paulo por Lisboa.

Confinamento e a falta de um “ouvido”

Os anseios de documentos e trabalho ainda persistem, mas somam-se agora a outros desafios, principalmente após a pandemia. “Muitas estão só em Lisboa, sem os seus familiares, e ressentem-se da ausência de alguém, às vezes, apenas para desabafarem sobre algo que ocorreu mal no trabalho, com o senhorio ou no relacionamento. Antes, isso acontecia numa mesa de café, mas o confinamento acentuou a falta de contacto e o único ouvido disponível quase sempre é o nosso”, conta Thaysa.

Muitas brasileiras estão sós em Lisboa e se ressentem da presença de amigos e familiares. Foto: Raquel Pimentel

No início, o Calcinhas funcionava praticamente como os demais grupos na internet ou no WhatsApp, diferenciando-se pelo fato de ser restrito às mulheres. “Os interesses, porém, eram os mesmos, sobre como se regularizar em Portugal e a divulgação de ofertas de emprego”, explica Thaysa. Havia ainda espaço para amenidades inerentes ao universo feminino, como onde comprar roupas ou verniz para unhas mais barato e os salões com as últimas tendências – brasileiras – para o corte e colorir as madeixas. 

Apesar da aposta no poder da “escuta”, o Calcinhas não descuida da ajuda material, cientes de que as brasileiras sentiram fortemente o impacto negativo na economia provocado pela pandemia. No final do ano passado, o grupo realizou ações de arrecadação de dinheiro para a compra de cabazes a algumas das integrantes que passavam dificuldades por perderem o emprego, após o fechamento de milhares de postos de trabalho no comércio e na restauração.  

Como o grupo abriu o debate aos problemas das mulheres em geral, já há algumas cuecas (portuguesas) entre as calcinhas (brasileiras).

Há ainda um permanente “Bazar do Desapego”, com a oferta de artigos que não têm mais utilidade para umas, mas são de valia a outras, operando com a lógica de economia circular. O bazar também é uma espécie de índice para medir a frequência do insucesso na experiência imigratória. “Nos últimos meses, houve um aumento de anúncios no bazar, de brasileiras dispostas a voltar para o Brasil”, atesta Thaysa, sobre a decisão que nem sempre é fruto da opção, mas da falta de opções.

Atenção também à violência doméstica

Nos últimos meses, Thaysa começou a prestar atenção também a outro drama que ronda o universo feminino, independente da nacionalidade: a violência doméstica. As orientações não são no grupo do Facebook, mas uma extensão da atividade como psicóloga clínica. “Desde novembro, comecei um trabalho psicológico voluntário, dedicando duas horas por semana não só a brasileiras, mas a portuguesas, africanas e mulheres de outros países, sobre como se posicionarem em relação ao assunto.”

Aos poucos, os debates das brasileiras tem chamado a atenção também das mulheres portuguesas. Foto: Raquel Pimentel

A ligeira alteração de rota do grupo para um perfil mais preocupado com a condição feminina, para além da nacionalidade, provocou a curiosidade de algumas portuguesas que, convidadas por amigas brasileiras, aderiram à rede. “Antes, não fazia sentido às portuguesas saberem, por exemplo, como tirar um documento. Mas como abrimos o debate aos problemas das mulheres em geral, já há algumas cuecas entre as calcinhas”, conta Thaysa.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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6 Comentários

  1. Boa reportagem! Parabéns pela iniciativa e à Thaysa que idealizou o Grupo. O grupo é mesmo muito necessário e as calcinhas são muito prestativas, solidárias e unidas.

  2. É lindo de ver o apoio e a generosidade nesse grupo. Mulheres que estão ali para se ajudar, como puderem, seja uma palavra, um ombro amigo. Uma iniciativa que faz toda a diferença na vida de cada uma de nós. Parabéns Thaysa! Orgulho em fazer parte do Calcinhas!

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