Um dia, um cineasta afamado viu Lisboa cidade branca, fez da visão um filme, deu-lhe esse nome – A Cidade Branca (1983) – e não gostámos. O suíço Alain Tanner começou a levar com outra fama, a de daltónico, cegueta, até. Mas que branca?!, indignamo-nos. José Cardoso Pires, que sobre o assunto Lisboa indignava-se melhor que ninguém, no seu livro Lisboa, Livro de Bordo, de 1998, arrumou o assunto: “Em poucos lugares como este, de tantas cores cada cor é feita.”

Tanner, que fora avisado da reação geral, quando apresentou o seu filme em Portugal admitiu ter feito algumas malfeitorias a Lisboa, mas justificou-se. Por exemplo, depois do protagonista Paul, um marinheiro suíço, vaguear pela cidade, ele fê-lo embarcar num lugar insólito para os propósitos da viagem: regressar à Suíça em comboio que partia da estação do Rossio. Ora, ele bem sabia que para ir para Zurique tinha de embarcar em Santa Apolónia. Aconteceu é que, confessou, não queria perder a oportunidade de filmar a estação do Rossio…

Sobre o comboio, o mal-entendido ficou resolvido. Não só um ficcionista tinha o direito de alterar as topografias, como também de filmar na estação do Rossio ao arrepio das linhas dos caminhos de ferro portugueses, se fosse esse o seu desejo intenso. O aparente erro era, afinal, uma homenagem do artista a Lisboa.  

Ficou só por se responder à questão da cor da cidade. Mas, na verdade, também isso não era o caso. O realizador suíço até podia invocar como sua a resposta do escritor português, a tal “em poucos lugares como este, de tantas cores cada cor é feita.” É que, sendo o branco uma não cor, ou melhor, a junção de todas as cores do espectro de cores, então o famoso título era outra homenagem a Lisboa. Afinal, a cidade era feita de todas as cores.

Diferendos acabados. Ainda bem, pois já estávamos a ser injustos. Muitos turistas que vinham a Lisboa era porque tinham visto o Paul correr para apanhar o 28 da Carris.

Gosto de quem cuida de Lisboa. Um dia, ao ler O Angolano Que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço), do Kalaf Epalanga, dei-me conta do cuidado dele ao escrever sobre as cores da cidade. Não a despachar, tipo “a luz de Lisboa e tal…”, não, ele escreveu com estudo suado, pois, benguelense, ele não vivia cá há tanto tempo assim. Quando falou de amarelo, Kalaf disse-o ocre – mas aí, até eu ia –, do que gostei mesmo foi que ao rosa ele chamou almagre. Quem fala das paredes de Lisboa gosto que se obrigue, se necessário for, a consultar o catálogo da Robbialac de cores para exteriores.   

E o respeito por Lisboa não se limita às cores. De cada vez que vou ao Rio de Janeiro faço questão de procurar memórias da infância luandense. De uma das vezes, 2015 ou 16, fui à Casa do Choro, ouvir um conjunto instrumental de chorinho e samba, o Nó Em Pingo d’Água, um belo nome para quem pratica música improvisada, em eterna e repetida procura (tentem fazer, à primeira, um nó a um pingo de água).

Naquela noite eu já tinha ouvido o saxofonista meter-se pelo Mindelo à procura dos sons de Luís Morais, e por isso não fui apanhado desprevenido quando o tipo do bandolim, Rodrigo Lessa, afadistou. Como é o costume da Caso do Choro, no fim, fui também ao bar. Aproximei-me do lugar que o bandolinista ocupava no balcão e perguntei-lhe: “Aquilo há bocado foi fado, não foi?”.

Ele disse: “É mesmo, morei lá, em Lisboa.” Paguei a rodada que ele levava para mesa, convidou-me a juntar ao grupo e pôs-se a contar: “Eu estava em Lisboa quando começaram a chegar os cabo-verdianos e a sua música…” Depois disse-me que tinha um álbum, Ilhas Mestiças, feito mais tarde, em 2007, com títulos como Morabeza, onde juntava a sua música do Rio ao encanto com que ficou pela música das ilhas que conhecera em Lisboa.

No concerto eu tinha reparado que quando o foco do improviso calhava a um colega, não só o do pandeiro, mas também os do sax e do violão, ele aproveitava para ritmar com o corpo. Homem delicado, o Rodrigo Lessa, atento aos outros. Talvez por isso se tenha lembrado de como eu tinha metido conversa e disse-me: “Agora, sobre Lisboa…” Interrompi-o: “Nunca deixámos de falar de outra coisa, Rodrigo”. Quando vejo que um tipo percebeu Lisboa não preciso que ele me explique.

Eu gosto de ouvir falar sobre Lisboa, estou sempre atento, e por isso volto à Cidade Branca. Nenhuma conversa sobre a estação do Rossio e comboios a partir para a Europa fica encerrada sem falar de outro filme, ainda não feito.

Eu abriria esse filme tal como ele aconteceu, de facto, num dia qualquer de abril de 1938. Na estação do Rossio a máquina já resfolegava e enchia o cais de fumo. Lisboa, cidade branca. Do fumo saíam dois vultos, tropeçavam nas malas, empurravam-se, pelos risos pareciam amigos.  E eram, tinham pedido o mesmo compartimento, amigos, companheiros e adversários.

Naquele tempo era pela estação do Rossio que os comboios partiam para Paris. Naquele dia embarcava a seleção portuguesa de futebol e os dois amigos eram o Guilherme Espírito Santo, negro nascido em Lisboa, e Fernando Peyroteo, branco nascido em Angola. Eram amigos desde Luanda, para onde a mãe de Espírito Santo tinha ido viver. Os dois rapazes tinham vindo há pouco para Portugal, o negro para o Benfica, o branco para o Sporting, ambos avançados-centro, goleadores. A competição entre os dois, dizem os estudiosos, colocou de vez o futebol como o desporto-rei em Portugal.  

Disputavam o lugar na seleção, e fizeram aquela viagem discutindo e brincando sobre quem seria o avançado-centro no próximo jogo, o primeiro com relato internacional feito pela Emissora Nacional. O jogo era amigável, o que foi horrível porque aconteceu em Frankfurt, a 24 de abril de 1938 e os adversários pela primeira vez alinhavam com a cruz suástica. O resultado não quero saber, nem de quem jogou.

O que eu quero bem filmada é a corrida luminosa dos dois moços amigos no cais da Estação do Rossio.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

Entre na conversa

15 Comentários

  1. Adorei a crónica, pouco me importando se já não é no PÚBLICO ou no DN – bem vindo de volta este escrever-ser.

  2. Mas, dizia, reparei também: “Nunca deixámos de falar de outra coisa, Rodrigo”, não é a mesma coisa, pois não é?

  3. … e por dentro do “ponto” um micro-cosmos de competências.
    a crónica é – como habitual – uma riqueza de memórias.
    o bem escrever nesta língua, “minha pátria”, é meu privilégio ler, seja quando, e onde fôr.
    abraço

  4. Ainda bem que volto a ter o privilégio de ler um cronista
    da sua envergadura, obrigado…

  5. Ainda bem que volto a ter privilégio de ler um cronista desta
    envergadura… Obrigado.

  6. Belíssima crónica!
    Boa sorte para a Mensagem. Serei um leitor fiel.

  7. Que bom ler sobre Lisboa! Adorei a Crónica.
    Esta “Mensagem” vem na hora certa. Que ao engenho se junte a sorte!

  8. Uma cidade de muitas cores embelezada com o melhor da noite de uma cidade cosmopolita: a música. São Bento foi referência, o Bana e a Clave di Nós; Dany Silva Clave de Sol e o Bairro Alto, o Rossio, a malta de Angola , os locais da Moamba e das cachupas ao lados das ao lado das petingas e do belo bacalhau com o bom vinho português. Depois do Peyroteo e do Espírito Santo, o Eusébio e o Jordão. Há lá país melhor que este?

  9. Faltou a Catedral – o antigo B. Leza ali no Largo do Conde Barão no Palácio Almada Carvalhais também sede da Casa Pia.
    Aí é que era o bom e o bonito, inolvidável .

  10. Tenho muita admiração por Catarina Carvalho e quero dar-lhe os parabéns por esta iniciativa. O País precisava de ter este espaço para,as pessoas se expressarem. Parabéns também pela crônica tão bem escrita desta jornalista que sempre nos brindou. Espero que este projecto seja bem sucedido porque tem que fazer a diferença. Infelizmente o que se produz diariamente quer na escrita quer nas Televisões só faz com que as pessoas se afastem da leitura ou de ver noticiários. Um desabafo há seis anos que deixei de comprar jornais… Cumprimentos. Jacinto Duraes

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *