Há músicas que resistem no tempo. “Como vai, senhor Contente? Como está, senhor Feliz? Diga à gente, diga à gente, como vai este país”. Poucos serão aqueles que ficam indiferentes a estes versos, cantados nas vozes de Nicolau Breyner e de Herman José. A primeira vez em 1975, na transmissão da rubrica humorística protagonizada por ambos no programa da RTP “Nicolau no País das Maravilhas”. Cantavam a parábola dedicada a um país que estava desde há um ano a dar os primeiros passos livres, depois de a Revolução o ter soltado de um regime opressor. A letra é agora o hino da luta de Carla, Rosário e Alessandra, moradoras do bairro da Mouraria.

Não é na televisão que cantam para os portugueses, mas sim num curto vídeo que correu a internet. Improvisam de boné e agarram um guarda-chuva fechado entre os dedos. A música é a mesma, mas a letra mudou, as perguntas da cantiga também.

“Como vai, senhor Contente?”, pergunta Carla Pinheiro. “Como está, senhor Feliz?”, avança Rosário Conceição. “Sou do Bairro da Mouraria/ Que trago no coração/ Querem-me tirar daqui/ Porque não tenho um tostão”

O que as três mulheres cantam não é um país nas ironias da nova condição de liberdade e pobreza, mas  a história de uma Lisboa também ela entre a nova riqueza trazida pelo turismo, e a tristeza dos despejos de velhos habitantes, levados pela avalanche de alojamento local nos bairros históricos, pelos menos até à pandemia, nos últimos anos.

Este vídeo é o culminar de anos de luta conjunta. Porque é preciso retroceder a 2016 para contar o que uniu Carla e Rosário, de 50 e 57 anos respetivamente, a Alessandra Esposito, de 53. Mais precisamente ao dia em que as três receberam a mesma carta, que em poucas linhas prometia mudar as suas vidas para sempre.

E depois do adeus

Alessandra é italiana, embora more há 27 anos em Portugal e, por isso, já se sinta como portuguesa. Os seus pais já por cá andavam, o irmão também, quando, depois de “vários anos sozinha em Itália”, um dia, tinha já 25 anos, no princípio de 1992, “o coração falou alto” e veio ao encontro da família.

Passou pela Amadora, viveu fora da Grande Lisboa e por vários outros sítios, mas escolheu a Mouraria para ficar.  “Mouraria é Lisboa, é o coração da cidade, onde tudo ferve e onde tudo vive”. Por estas bandas, cada vez mais misturadas, é conhecida como “a italiana”.

Alessandra é italiana, mas defende a Mouraria, o bairro que a adotou, como se sempre tivesse feito parte da sua história.

Carla e Rosário desde sempre que cruzam os seus dias na Mouraria. Carla chegou ao bairro quando tinha apenas três anos, depois de uma curta temporada em Angola. O pai nascera ali, na Rua da Amendoeira. Por isso, quis que o regresso, depois da independência, fosse ao mesmo lugar. A certidão de nascimento não o diz, mas também Rosário nasceu na Mouraria, na Travessa dos Lagares. Lembram-se vagamente uma da outra em crianças, mas “nunca calhou” uma amizade até serem adultas.

De grupos diferentes do bairro, são unânimes sobre as memórias que guardam dele. “Todas boas”, apressa-se Carla a dizer. “Costumo dizer que eu só fui feliz na minha infância, porque foi aqui neste bairro”. Quando era nova, era habitual ver “muitos miúdos a brincar na rua” e essas ruas cheias de comércio. O cheiro era outro também.

“E o cheiro, o cheiro… é pá… que nunca me vou esquecer. E já não existe”, conta Rosário, forçando a memória para caracterizar um odor ausente e forte na lembrança. Ao fim de uns minutos, chegamos à conclusão: é a combinação do cheiro da chegada da peixeira com a canastra do peixe na cabeça – às vezes também uma cesta de figos na mão – e o aglomerado de pessoas nas ruas. Um cheiro “a bairro mexido, um cheiro a gente”.

Entretanto, essa gente desapareceu, as casas foram ficando vazias, as esquinas do bairro deixaram de ter comércio e estas duas mulheres são hoje uma das poucas memórias da Mouraria que em tempos habitou Lisboa. “Agora é nada. Somos nós”, conclui Alessandra. Foi o crescimento do turismo, dizem, que se traduziu na venda de vários prédios do bairro para deixarem de ser casas e passarem a ser alojamento local.

E, em agosto de 2016, a tempestade chegou às casas delas.

Vizinhas no mesmo prédio, as três receberam uma carta onde o senhorio lhes comunicava que o prédio seria vendido e, por isso, não iria haver renovação do contrato com nenhuma das 16 famílias – 40 pessoas, entre as quais crianças – que ali residiam. Uns terminavam o contrato logo em setembro, outros em janeiro do ano seguinte, mas para todos aquela carta caiu como uma bomba que prometia virar as suas vidas do avesso.

Ainda procuraram um novo lar, mas “alugar uma casa em Lisboa já era impossível” para elas, com as rendas a subir drasticamente – mais uma vez, insufladas pelo negócio que se conseguia fazer das casas alugando-as a turistas por alugueres de curta duração. De acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, Lisboa é a cidade mais cara do país para arrendar casa.

Amigas na rua e na vida, aquelas três mulheres perceberam que era melhor lutarem juntas do que separadas.

Os números não deixam margem para dúvidas: uma renda em Lisboa custa, em média, 11,71 euros por metro quadrado – o dobro da média nacional. Ainda que a pandemia tenha invertido a maré: os efeitos fizeram-se sentir imediatamente e, no segundo trimestre do ano passado, as rendas caíram mais de 6%, cumprindo a maior quebra dos últimos dez anos na capital.

Amigas na rua e na vida, aquelas três mulheres perceberam que era melhor lutarem juntas do que separadas. “Então, fomos bater a todas as capelinhas. Fomos à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, à Assembleia Municipal, tudo”, conta Alessandra. A italiana lembra que o tema reuniu unanimidade na Assembleia para ser resolvido, tendo seguido para a vereação da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa, “que compreendeu a urgência e a necessidade de agir”.

“Mas não foi assim tão fácil”, alerta Carla, ao recordar anos de luta sintetizados em poucas palavras. Até o problema ter solução, seguiram-se várias intervenções. E os rostos da luta eram sempre os destas três mulheres que se reuniam no átrio do prédio para debater o próximo passo. Sentavam-se ali, horas seguidas, recordam, entre cadeiras antigas – umas no chão, outras de pernas para o ar -, resquícios das festas de bairro, de cigarro na boca, noite dentro. Ao final do dia, alinhavam as agendas – a de Carla como funcionária de limpezas num hotel; a de Rosário, como empregada de balcão de uma papelaria; e Alessandra, dedicada às suas peças de mobiliário urbano – para um bem comum.

“A cada reunião que íamos, vínhamos pior do que tínhamos ido”, conta Carla, que não compreendia a falta de soluções. Tornaram-se ativistas e elevaram a voz. “O que é que fizemos? Enchemos o prédio de faixas” e gritos de guerra nelas inscritos. A cidade acordou para a luta que ali germinava, abrindo caminho para mais discussão junto de quem detinha a pasta da Habitação na autarquia, para o caso delas e para o de tantos lisboetas em risco de despejo. “É da nossa intervenção que partem as 100 casas oferecidas no concurso [de casas do centro] histórico a pessoas em risco.” Um concurso no qual poderiam ter entrado, não fosse a solução para o prédio delas ter chegado mais cedo.

Quando o argumento que lembrava as dezenas de pessoas que estavam na iminência de perder casa não foi suficiente, Alessandra percorreu arquivos à procura do valor histórico do prédio. Acabaria por descobrir que, durante anos, este tinha tido várias utilidades e marcas na histórica cidade. “Ali por volta de 1700 foi um hospital de freiras. Antes disso, tinha outro valor: cá em baixo, temos um túnel que liga todas as catacumbas romanas até ao Castelo”, conta.

Durante meses, Carla, Rosário e Alessandra fizeram-se presentes em todo o lado onde poderia ser discutido o problema da habitação em Lisboa. Inclusive nas redes sociais, onde ganharam força, com vídeos onde até turistas suplicavam por mais apoio para estas mulheres. Até que a solução, embora temporária, chegou: a Câmara conseguiu chegar ao senhorio do prédio que aceitou realizar um contrato por mais cinco anos com os moradores e sem alterar a renda.

Recentemente, Marisa Matias, na campanha presidencial, passou pela Mouraria e esteve com estas três mulheres de luta.

A ação que desempenham neste canto de Lisboa valeu-lhes um nome que já corre vários cantos da cidade. Foi num comício político, há cerca de três anos, quando o antigo vereador Ricardo Robles, do Bloco de Esquerda – que acabou por sair do cargo precisamente sob um escândalo urbanístico – anunciou a presença das três mulheres e lhes deu o nome.

“Ele, do nada, diz que gostava de ver ali ‘as Gaulesas da Rua dos Lagares’”. O nome assentava-lhes bem, recorria ao imaginário das personagens de banda desenhada Astérix e Obélix que viviam a resistir às invasões romanas numa aldeia da Gália. Também Carla, Rosário e Alessandra lutam pela sobrevivência da sua Gália, a Mouraria, também com aquilo que muitos consideram ser superpoderes, e contra uma invasão (dos turistas). Robles explicou isso, logo a seguir: ‘É que estas mulheres fazem magia com tudo o que tocam, fazem do impossível possível’.”

“Às vezes basta dizer onde ir buscar o documento”

Já lá vão mais de três anos desde a celebração desta renovação de contrato. Mas nem por isso as três mulheres arrumaram as armas. A luta que começou por ser de um pequeno prédio na Mouraria acabou por se tornar na luta de todos, no bairro e um pouco por toda a cidade, que estavam a perder as suas casas para o alojamento local. “É o bichinho que entra na gente”, justifica Rosário.

Carla diz que a presença que foram marcando “em vários programas televisivos” e no bairro espalhou a mensagem de que estas três mulheres estavam dispostas a lutar pelo direito à habitação, o delas e dos outros.

Começaram a chegar os pedidos de auxílio. Alessandra lembra a história particular de uma vizinha que “estava a sofrer de bullying do senhorio”, sendo-lhe cortada a luz e a água, enquanto a renda aumentava drasticamente num curto espaço de tempo. Por isso, ajudou-a a inscrever-se na primeira edição do programa ‘Habitar o Centro Histórico.

“Às vezes, é só dizer ‘é ali que tens de ir’, ‘vai buscar o documento ali’. Sabemos que a burocracia mata. E quando agarras alguém pela mão e dizes ‘vamos’, juntos, é sempre mais fácil. O teu coração deixa de estar em sobressalto.” Para Alessandra, vale sempre mais “uma voz unida”. Porque “habitação é um problema, mas também um direito consagrado na Constituição, no artigo 65.º”.

Desde o início da pandemia de covid-19 em Portugal, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu suspender as ações de despejo de famílias, bem como a ocupação fogos municipais em Lisboa de modo ilegal. Mas o trio que luta pela Mouraria acredita que esta fase é apenas a suspensão do fado a que o seu bairro está sujeito. Por isso, mantêm as faixas em riste e os gritos de guerra elevados.

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Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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