
Olá, vizinho/a
O que seria do repórter, se não fosse o seu vizinho, ele mesmo, o vizinho de porta, o vizinho da pastelaria, o vizinho do quiosque, da tasca, cotovelo com cotovelo no balcão, a imperial já pela metade como testemunha, o vizinho sabe-de-tudo-antes-de-todos, o vizinho não se esquece de nada, a memória do vizinho uma preciosidade, vale o peso do vizinho em ouro.
O valor do vizinho no jornalismo não se ensina na faculdade. Eu que a frequentei no Brasil – quem vos fala hoje é Álvaro Filho – nunca vi a disciplina de “introdução à conversa com o vizinho”. O valor do vizinho no jornalismo aprende-se no batente, quando atrás da notícia o repórter esbarra numa porta intransponível e o vizinho, apenas o vizinho, é quem tem a chave para abri-la.
Foi assim na matéria sobre a Avenida da Igreja na Mensagem:
O repórter que vos tecla, vindo de longe, estava perdido, tateando atrás dos rastros do passado da Avenida da Igreja, feito arqueólogo sem registos fiáveis, um ou dois hieróglifos num site, atrás do fóssil de um antigo comércio tradicional escondido por trás de uma parede.
Mas aí surge o santo vizinho que tudo sabe, que tudo vê, que de tudo se recorda, o meu vizinho querido.
Queridas vizinhas como Dona Ermelinda e as suas duas filhas, Paula e Manuela, as três por trás do balcão da papelaria com nome de santo, a paciência de monge, o pobre repórter a puxar-lhes pela memória – “antes dessa loja funcionava o quê?” e “aquela antes era o quê?“. As três a queimarem as sinapses, as respostas resgatadas pela boa e velha inteligência natural.
Qual Google, qual quê? Quem sabe das coisas é o vizinho.
Aos poucos a verdade foi surgindo, escavada pelos vizinhos, o cliente de longa data da pastelaria encaixando uma peça no puzzle, o senhor no café, cabelo prateado e chávena na mão, ajustando outra peça, a senhora saindo do salão também disposta a ajudar na construção do mosaico, laca no cabelo, a memória aquecida pela moderna escova progressiva.
A informação vem de boleia no táxi do senhor Mário, filho de Alvalade, pai porteiro, mãe mulher de limpeza, que Deus os tenha em bom lugar, gente valente, Patos Bravos de Tomar, pás, músculos, o suor misturado ao betão, fazendo erguer Alvalade do nada. E, se houvesse justiça nesta vida, a rotunda em Alvalade exibiria a estátua de um bravio pato, não de um santo.
Ainda assim, apesar do esforço, da dedicação e generosidade dos vizinhos, ainda assim faltava uma peça. Pois eis que surge o senhor Eloy, o simpático senhor Eloy e o seu inseparável sorriso, um sempre ao lado do outro há quase 90 anos, a longevidade garantida pela sopa diária na mesa do Jacaré Paguá.
O senhor Eloy tira o ás da manga:
— Tenho um livrinho com os nomes dos comércios da Avenida da Igreja — disse, falando pela boca de um anjo.
Dois dias depois, o Celestino ligou: o senhor Eloy havia deixado um presente no Jacaré Paguá… e que presente!
O passado surgiu na forma do tal livrinho (na verdade, um livrão, um calhamaço), para lá de mil páginas, enumerando um por um não só os comércios da Avenida da Igreja, mas de toda Lisboa, de uma Lisboa de há mais 50 anos. O livrinho-livrão uma Pedra de Roseta do comércio lisboeta, a Lisboa de antes de Abril abrindo-se diante dos meus olhos.
Eu não mereço os vizinhos que tenho.
E foi assim que a matéria nasceu, parida à fórceps, não pela perspicácia do repórter nem por outra qualidade profissional, mas por obra e graça dos vizinhos. E se o pobre repórter tem algum mérito nessa história foi de saber ouvir quem realmente sabe das coisas, o vizinho.
Vizinho como é o vizinho ou vizinha que nos lê, desde já convidado a colaborar com uma informação que falta no texto, bem-vindo a corrigir uma eventual imprecisão, sem cerimónias. Fique à vontade, vizinho. É de casa, pode entrar e ajudar a construir a história da Avenida da Igreja, a história de Alvalade.
A história de Lisboa.
Até já, vizinho ou vizinha!
—Álvaro Filho
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