“Eu cá sou de Alcântara”, proclamavam operários e estivadores, gente da ganga, ciosa dessa naturalidade e pertença. Diziam-no no tom de quem prometia dar valente réplica aos que ousassem desafiá-los, por mais poderosos que fossem. Afinal, foi também aqui que o povo lisboeta se bateu, primeiro pela República, e depois pela justiça laboral e social. Perante a dura constatação de que o novo regime, com que tanto tinha sonhado, não contava com ele, esse povo desencadeou uma onda de  movimentos grevistas, sufocados à força de bastonadas da guarda que se chamava republicana, mas tão cruel, na repressão, como fora a sua antecessora, monárquica. A história repetir-se-ia mais tarde, em pleno Estado Novo.

Hoje, Alcântara continua a alimentar essa memória da antiga rebeldia. Nas mudanças profundas que Lisboa conheceu nas últimas décadas, o bairro convive com turistas, espaços de vanguarda, ou com essa pretensão, e condomínios de luxo. É um bairro envelhecido, que perdeu perto de 10 mil habitantes nos últimos 50 anos.

Esta é a realidade encontrada pelo novo vizinho: a Galp, que se mudou há pouco, das Torres de Lisboa, em São Domingos de Benfica, para os ALLO – Alcantara Lisbon Offices, bem perto da frente ribeirinha. E é com essa realidade que, através da Fundação Galp, a empresa quer estabelecer uma relação de boa vizinhança.

Quem o diz é Sandra Aparício, gestora de impacto social: “Sempre tivemos preocupações sociais e procurámos deixar uma marca nas comunidades com que nos envolvemos. Aqui, em Alcântara, pelas características do bairro, temos uma vivência de maior proximidade.  Mas mesmo quando estávamos nas Torres de Lisboa, já fazíamos voluntariado no banco de bens doados e já éramos parceiros dos bancos alimentares”.

Com a mudança de local, houve que afinar a estratégia de atuação, reconhece. “Quando viemos para cá, identificámos áreas mais vulneráveis e estruturámos a nossa abordagem.”

Desse trabalho de campo surgiu a constatação de que o grupo prioritário teriam de ser as pessoas com adições, ou que estão em processo de reabilitação, mas também depararam com uma população sénior muito numerosa, em risco de isolamento e carência. Por outro lado, acrescenta Sandra Aparício, “não queremos descurar a atenção preventiva junto de uma população jovem, que precisa de reforçar o seu percurso académico e de ter mais oportunidades”.

Entre estas, há que considerar a prática desportiva e é, por isso, que o Boa-Hora Futebol Clube, com sede na Calçada da Boa-Hora, foi identificado como parceiro. Como explica Margarida Queiroz, responsável pela estratégia de investimento nas comunidades locais: “Para além de ser um clube cheio de tradição no bairro, houve uma confluência de vontades. Eles estavam à procura de quem os ajudasse no aproveitamento da energia solar e nós procurávamos quem o quisesse fazer”.

Assim, a central ali instalada foi maximizada e foi criado um grupo de vizinhos que recebe o excedente de energia que o Boa-Hora não utiliza. Como nos conta Margarida: “o passo seguinte foi identificar os parceiros sociais que estão numa área de 2 kms, que recebem energia de forma gratuita”.

Entre elas, estão a CRESCER, a Associação Vida Autónoma, o centro social e paroquial de Alcântara, o CCR (escola de 1º ciclo, com papel muito importante porque, para além das suas funções pedagógicas, tem a responsabilidade de fazer comida para  o apoio domiciliário de toda a região de Alcântara) e o balneário público.

Em estudo, está a possibilidade de replicar este modelo com outro clube histórico do bairro, o Atlético, e a sua envolvente. Em poucos meses de trabalho, garante-nos Margarida Queiroz, “já vemos alguns resultados dessa dinâmica”. “O Boa Hora já deu emprego a uma pessoa que esteve na CRESCER e que foi considerada reabilitada. Como sabemos, não é fácil arranjar trabalho a estas pessoas.”

Como a Galp quer combater o isolamento dos mais velhos

No Centro Paroquial e Social, somos recebidos com grande curiosidade pelos mais velhos, que ali passam boa parte da manhã. São parte da população sénior aqui recebida diariamente pela equipa dirigida por Isabel de Almeida Brito, diretora técnica do Centro, e Anabela Raposo, responsável pela comunicação do Centro (mas que dá também um apoio noutras áreas porque numa equipa de doze pessoas tem de haver muita entre-ajuda).

As duas são unânimes em dizerem-nos que o apoio desta nova vizinha, que é a Galp, tem sido muito importante. “O facto de terem vindo ter connosco e proposto esta participação fez logo muita diferença. É fundamental que empresas com esta dimensão tenham esta preocupação com a economia social, o que nem sempre acontece.” 

No terreno, a ajuda da Galp permitiu requalificar o espaço, criando, por exemplo, um bom espaço exterior. “Temos agora um espaço agradável, o que é bom para os nossos utentes e também para nós, que trabalhamos aqui todos os dias. A verdade é que estas instalações são muito antigas e passávamos a vida a tapar buracos, a fazer remendos aqui e ali”, diz Isabel. E acrescenta que ao lado prático há que somar a vertente emocional: “Estes idosos sentem-se um bocadinho cartas fora do baralho, muitos deles vivem sozinhos. Quando vêem que uma empresa como a Galp se empenha em proporcionar-lhe condições, isso assume grande valor”.

Mas as atividades não se esgotam na função de centro de dia e no estímulo à continuidade da vida ativa. Também é prestado apoio domiciliário, incluindo refeições a idosos que já não saem de casa, e há uma cantina social que serve uma refeição por dia a cerca de 110 utentes. Este apoio a famílias carenciadas passa pela despensa de São Pedro, também a funcionar no Centro. Como nos conta a diretora da instituição, é distribuído um cabaz alimentar, com o apoio do Banco Alimentar.

“Mas não chega para produtos mais caros, o que acontece é que muitas vezes compramos à nossa custa bens como leite, salsichas, atum. Sem esses apoios externos, não conseguimos. Estamos a sensibilizar empresas locais e até escolas para nos ajudarem, até porque é desde pequeno que se aprende o papel da cidadania”, diz.

Com o apoio da Galp, a direção deste Centro começa a encarar com otimismo a ideia de abraçar novos projetos. “Queremos desenvolver outras valências para Alcântara e para a cidade . Contemplamos a possibilidade de termos uma residência para idosos e uma residência universitária. Estamos em fase de negociações com o Estado, andamos nisto já há muitos anos, mas com estas instabilidades todas não tem sido fácil”, admite Isabel.

Uma casa para reconstruir vidas

A dois passos dali, na Quinta do Cabrinha, está a CRESCER, associação que oferece apoio comunitário a pessoas em situação de vulnerabilidade em meio urbano, com predomínio da toxicodependência. Como nos explica Florencia Salva, responsável pela gestão de parcerias, “o apoio da Galp tem sido decisivo”.

Antes de mais, a nível financeiro: “Graças a ele conseguimos, no ano passado, fazer um congresso especializado, com uma componente científica muito forte”.

Mas também a nível prático e logístico, coisas tão importantes como a energia gratuita, fornecida a partir da central montada no Boa-Hora Futebol Clube. Ou outras missões, que só na aparência parecem simples, como arranjar uma equipa capaz de montar móveis em casas que recebem famílias carenciadas.

Esta é, de resto, a principal vocação da CRESCER, que começou a trabalhar ainda na década passada com arrumadores de carros na cidade de Lisboa, muitos dos quais eram, na verdade, sem abrigo. “Temos equipas multidisciplinares no terreno que vão ter com essas pessoas, a quem procuramos dar casas. Começámos com sete, hoje são 140.” Em 2015, a CRESCER foi convidada pela Câmara Municipal de Lisboa para se tornar parceiro num programa de acolhimento a refugiados.

Foto: Inês Leote

Mas a estrutura capaz de se multiplicar por um horizonte hoje composto por 20 projetos e cerca de 2500 beneficiários não pode crescer sem ajudas. “O apoio de uma empresa como a Galp é fundamental para a continuidade”, assegura Florencia.  “As nossas equipas estão sempre na rua para identificar as pessoas que precisam de ajuda. Há uma relação de confiança que se estabelece, por muito complicados que possam ser os problemas.” E são-no muitas vezes porque às adições somam-se a falta de emprego e e de uma estrutura mínima, como uma casa. “Mas, mesmo quando esta aparece, é muito complicado porque muitos deles já não sabem viver numa casa,  usar uma casa de banho, estabelecer uma relação de vizinhança ou fazer uma lista de supermercado.”

Ainda que os casos de insucesso sejam muitos, Florencia e os que com ela trabalham, na CRESCER, não baixam os braços, estimuladas pelo que corre bem. “Até já houve antigos toxicodependentes que se apaixonaram aqui na Crescer e escolheram reconstruir uma vida juntos. São casos como este que nos incentivam.”

Mas é possível prevenir a queda na espiral de marginalização ditada pelo consumo de drogas e pela perda de emprego e casa? A Fundação Galp acredita que sim e também a chave está na educação, cujo pelouro está a cargo de Inês Bonnet Sequeira. “Associámo-nos ao Hub do Beato, para que possamos ter jovens de Alcântara a frequentar os cursos de computação da Escola 42, hoje internacionalmente reconhecidos pela sua qualidade. São formações gratuitas de excelência, que começam nos 12 anos e não têm limite de idade. Estão a despertar muito interesse entre os nossos vizinhos.”

Para além disso, a Galp está ainda a conceder bolsas universitárias de licenciatura e mestrado a jovens do bairro. 

Em Alcântara, como no resto da cidade, a Galp continuará a colaborar com a Proteção Civil, para fornecer hotspots de aquecimento e garrafas de gás gratuitas a famílias carenciadas, como nos recorda Sandra Aparício. Mas, em breve, das hortas comunitárias plantadas pelos trabalhadores da empresa no terraço do edifício-sede de Alcântara, nascerão os produtos hortícolas que enriquecerão os cabazes solidários distribuídos aos mais necessitados. Esta é uma experiência já testada na estação agronómica de Oeiras desde 2022 e que veio para ficar.


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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