Talvez pelo seu potencial dramático, talvez porque muitos fadistas eram também actores de teatro de Revista, talvez ainda pelas vidas incríveis de tantos dos seus protagonistas, o fado deu a mão ao cinema logo desde o princípio do século XX, fosse integrando bandas sonoras, fosse compondo cenas «decorativas», fosse como tema propriamente dito.

Em 1909, por exemplo, a vida de Maria Vitória, «a rainha do fado» – atriz que popularizou êxitos como o Fado do 31 e que seria celebrada com um teatro no Parque Mayer – inspiraria um dos nossos primeiros filmes, infelizmente perdido; e a biografia trágica da Severa, escrita pelo punho de Júlio Dantas inicialmente como peça de teatro, transformar-se-ia, já em 1930, num filme que seria sonorizado em Paris e realizado por Leitão de Barros.

É de 1933 o absolutamente inesquecível A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo, no qual o sempre magnífico Vasco Santana encarna um estudante da Faculdade de Medicina

Em Portugal, os filmes só começariam a ser sonorizados uns anos mais tarde – e é de 1933 o absolutamente inesquecível A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo, no qual o sempre magnífico Vasco Santana encarna um estudante da Faculdade de Medicina, sustentado por umas tias da província, que estuda realmente muito pouco porque passa as noites a cantar fado, a sua verdadeira paixão.

Outros actores sobejamente conhecidos – António Silva, Estêvão Amarante, Virgílio Teixeira… – aceitaram igualmente interpretar papéis de fadistas ou guitarristas em vários filmes; mas foram também muitos os fadistas e instrumentistas reais que apareceram no cinema, ora a fazer de si próprios, cantando e tocando (Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Fernando Farinha, Berta Cardoso…), ora desempenhando o papel de uma personagem do enredo, como é o caso da jovem Hermínia Silva, que contracena esplendidamente com o «guitarrista» António Silva no divertidíssimo O Costa do Castelo, de 1943, realizado por Artur Duarte.

O “guitarrista” António Silva no divertidíssimo O Costa do Castelo, de 1943, realizado por Artur Duarte.

Claro que Amália Rodrigues não podia deixar de marcar presença no cinema. Ela inspira, de resto, tanto documentários como filmes de ficção, desde Capas Negras (1947),de Armando Miranda, Fado, História de Uma Cantadeira (1947), de Perdigão Queiroga, Os Amantes do Tejo (1954), uma produção francesa de Henri Verneuil, até Sangue de Toureiro (1958), de Augusto Fraga, o primeiro filme português a cores, ou mesmo (como agora se diz) o biopic de Bruno de Almeida (2000) The Art of Amália.

O cartaz de Princesa Prometida, de Manuel Mozos

Na época dos DVD, são muitos os fadistas que têm direito a ser retratados por Diogo Varela Silva em filme: Beatriz da Conceição, Celeste Rodrigues, Argentina Santos ou Fernando Maurício; e não esqueçamos documentários baseados em longas entrevistas, como o excelente Princesa Prometida, de Manuel Mozos, em que Maria João Seixas interpela de forma exemplar Aldina Duarte.

Fora de Portugal, o fado também constituiu, de certa forma, uma fonte de inspiração para uma mão-cheia de cineastas. Carlos Saura dedicou-lhe um filme notável (Fados, de 2007, uma obra-prima para ver e ouvir); e prestaram-lhe merecida atenção realizadores como Raoul Ruiz (Fado Maior e Menor) e Alain Tanner (A Cidade Branca), entre outros, já para não falar do furor que fez a interpretação de Canção do Mar por Dulce Pontes no filme A Raiz do Medo, protagonizado pelo actor norte-americano Richard Gere, ou, mais recentemente (2023), a cena em que Carminho, supostamente tocando guitarra portuguesa, canta O Quarto no filme Pobre Criaturas, protagonizado por Emma Stone.

O fado e o cinema juntos, antes como agora.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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