São mais de 250 camas registadas, 200 anfitriões inscritos e cerca de 40 estudantes já alojados numa casa que nunca passa dos 361 euros mensais. Isto é, 20% abaixo do valor de mercado, considerando os valores estabelecidos pelo Programa de Arrendamento Acessível (PAA) do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU). Por trás disto está a Rede ¼ (Rede Um Quarto), a plataforma online que permite a estudantes deslocados da Universidade Nova de Lisboa encontrar quarto na casa de anfitriões registados, lançada oficialmente hoje.

Desde novembro do ano passado que esta rede começou a contribuir para o alojamento de estudantes deslocados na Área Metropolitana de Lisboa. O objetivo é a coabitação – estudantes a ocupar quartos na casa de anfitriões. Para isso, pagam uma renda acessível ou oferecem companhia e apoio.

Agora, há mais estudantes inscritos do que anfitriões, mas nem sempre foi assim. Nos primeiros meses da rede, havia, surpreendentemente, mais anfitriões inscritos do que estudantes, facto que agora se altera, com a aproximação do final do atual ano letivo e início do próximo – a altura em que os estudantes mais procuram por uma solução habitacional.

Para já, a Rede 1/4 destina-se aos estudantes das nove faculdades e institutos da Universidade Nova de Lisboa, que se distribuem pelos concelhos de Lisboa, Oeiras, Cascais e Almada. Cerca de metade dos cerca de 30 mil estudantes da universidade vêm de fora da Área Metropolitana de Lisboa e necessitam, por isso, de uma solução de alojamento. Para o futuro, a rede prevê o alargamento a outros territórios e instituições de ensino superior nacionais.

Atualmente, a rede pública de residências universitárias apenas supre as necessidades de cerca de 10% dos estudantes com necessidade de alojamento e, apesar de o Governo prever a disponibilização de 18 mil novas camas para estudantes, num investimento ao abrigo do PRR, apenas 9% do investimento previsto está atualmente executado, levantando dúvidas sobre a atempada exequibilidade dos projetos, que devem estar concluídos até ao final de 2026.

Na Rede ¼, as rendas têm teto

Em Almada, no Barreiro e no Seixal, o valor máximo é de 241 euros – o mesmo em Sintra, Amadora, Odivelas e Loures. Em Cascais e Oeiras, o valor pedido por quarto não pode ultrapassar os 316 euros, e em Setúbal e Vila Franca de Xira é mesmo inferior a 200 euros.

A Rede possibilita ainda a existência de quartos duplos – nesta tipologia, os valores máximos não devem exceder 75% do valor máximo admitido para cada concelho.

“Estabilidade e segurança”: encontrar quartos e combater os contratos informais

João Seixas é um dos rostos da Rede ¼. O Pró-Reitor da Universidade Nova de Lisboa, na área da Inovação Socio-Territorial, conta que uma das grandes motivações para a criação da rede é trazer “estabilidade e segurança” aos estudantes do ensino superior deslocados em Portugal – no ano letivo 2023/2024 eram 115 mil, cerca de 34% do total.

No ano letivo 2022/2023, cerca de 11% dos estudantes desistiram do ensino superior no primeiro ano de curso – com um dos principais fatores para a desistência a ser o custo excessivo do alojamento. Ao longo dos últimos anos, o custo mensal de um quarto em Lisboa não parou de subir. Para o último trimestre de 2024, a plataforma de imóveis Idealista aponta 599 euros como o valor mediano para um quarto em Lisboa – um aumento de 9% quando comparado com o mesmo período do ano anterior.

Enquanto professor e especialista em planeamento urbano, João Seixas diz que é objetivo da Rede ¼  combater a “precariedade e instabilidade” vividas pelos estudantes deslocados. Mas aponta também para “uma série de outros objetivos” – “isto é política educativa, é política urbana e social também”.

E propõe-se a enfrentar “muitos receios da sociedade portuguesa”, como “as pessoas receberem estudantes nas suas casas e a informalidade estabelecida no mercado” de alojamento estudantil. Quer isto dizer: viver debaixo de um teto e pagar renda sem nenhum contrato.

João Seixas, Pró-Reitor da Universidade Nova de Lisboa, na área da Inovação Socio-Territorial, e responsável pela criação da Rede 1/4. Foto: Frederico Raposo

Segundo a cartografia dos estudantes do ensino superior da Grande Lisboa e Grande Porto, publicada em novembro de 2024 pelo grupo de reflexão para a educação EDULOG, da Fundação Belmiro de Azevedo, 48% dos estudantes deslocados em Lisboa e Porto não possuem um contrato de arrendamento, encontrando-se grande parte destes em situações de arrendamento informal.

Era esta a situação de Carlos Bento, até 28 de janeiro.

É algarvio, tem 22 anos e está em vias de concluir o mestrado em Gestão na Nova SBE, em Carcavelos. Até ao início deste ano vivia num apartamento T6 na Rua da Junqueira, em Alcântara, que dividia com cinco outras pessoas.

Pagava 550 euros por mês pelo quarto – o que considerou “um achado”. A casa tinha três casas de banho, pelo que “só dividia casa de banho com outra pessoa”. “Dentro do possível, foi o melhor que consegui encontrar.”

Carlos Bento foi um dos primeiros estudantes a encontrar alojamento acessível através da Rede 1/4. Foto: Frederico Raposo

Foi a sua casa durante ano e meio, desde que veio de Coimbra, onde concluiu a licenciatura, para Lisboa. Está habituado à confusão que pode ser dividir casa com várias pessoas. Afinal, a instabilidade habitacional é ponto comum à história de muitos estudantes. Em Coimbra, viveu em três casas, dividindo espaços comuns. “É exigente”, diz.

“Ainda sou jovem, mas sinto que já não quero estar num ambiente tipo república. Incomodava-me, porque são muitas pessoas a frequentar a casa, sempre muito no entra e sai.”

Em Lisboa, esta sensação aumentou.

“Ao contrário de Coimbra, aqui há muita mobilidade: num dia está uma pessoa e no dia a seguir entram três novas.” Durante o ano e meio em que viveu na casa da Rua da Junqueira contou pelo menos 12 colegas de casa. No dia-a-dia, eram “seis pessoas a cozinhar ao mesmo tempo, seis pessoas a fazer máquinas de roupa, a estender a roupa, seis pessoas a querer utilizar a sala. Torna-se complicado a longo prazo”.

Queria sentir-se “em casa”.

Na Rede ¼, a responsabilidade da procura é partilhada entre estudantes e anfitriões

João Seixas reuniu uma equipa que tem vindo a ganhar elementos. Hoje, são seis, entre técnicos e especialistas.

A arquiteta e urbanista Rita Castel’ Branco é está na equipa. E diz que o modelo e a plataforma propostos não vêm substituir outras respostas necessárias à atual crise da habitação.

“É uma solução rápida que não põe em causa outras. É célere, porque são quartos que já existem, e é ecológica porque estamos a usar o que já existe e a permitir que esta geração nova consiga viver na cidade, ter direito à cidade e, portanto, viver plenamente esta experiência de ser estudante universitário.”

Rita Castel’ Branco, arquiteta, urbanista e parte da equipa da Rede 1/4. Foto: Frederico Raposo

Na Rede ¼, incentiva-se o arrendamento de quartos a estudantes por pessoas e famílias (ou instituições) que tenham quartos disponíveis nas suas casas. João Seixas explica que podem ser anunciadas camas de “qualquer tipo de família, qualquer tipo de indivíduo ou qualquer tipo de instituição que tenha camas e quartos disponíveis de acordo com as condições que consideramos fundamentais”.

Os anfitriões definem um valor de renda dentro dos valores tabelados para a renda acessível e definem, ainda, se necessitam de companhia ou de algum tipo de apoio por parte dos estudantes que ali venham a residir.

Ao contrário do que acontece em plataformas como o Idealista ou em grupos de anúncios de quartos no Facebook, o processo de procura promove uma proatividade mútua no processo de busca do match certo – isto é, do par formado entre estudante e pessoa anfitriã.

Na plataforma online que a rede estreia agora, cada estudante tem um perfil, mas o mesmo acontece para cada anfitrião. Assim, os estudantes procuram quartos, mas também os anfitriões podem procurar os estudantes que pretendem receber nas suas casas, podendo até ser estes a iniciar o contacto.

Os quartos são inscritos na plataforma, com detalhe, pelo anfitrião, que tem um perfil pessoal, e especifica: a localização, a área do quarto, se tem uma secretária, ligação à internet e até mesmo se oferece refeições. O estudante, por seu turno, também tem um perfil pessoal na plataforma e, durante a pesquisa, define os seus critérios de pesquisa – como a localização, a possibilidade de uso de máquina de lavar roupa ou serviço de limpeza do quarto.

Porque o manifesto da rede traça como objetivos o prolongamento da vida autónoma e o “reforço da coesão entre gerações e vitalidade social”, os estudantes também podem procurar quartos na casa de anfitriões que procurem ajuda na lida da casa ou em deslocações na rua. Também por isso, a Rede ¼ possibilita a disponibilização de quartos em regime de comodato.

A plataforma definitiva da rede, que agora é oficialmente apresentada e já se encontra disponível, possibilita a comunicação direta entre estudantes e anfitriões e permite o agendamento de visitas, facilitando ainda a formalização de contratos de forma “rápida, segura e transparente”.

A rede conta com uma equipa de técnicos que dá apoio ao processo de inscrição na plataforma e facilita o encontro entre senhorios e potenciais inquilinos. Sem a plataforma definitiva ativa, foi assim, e a partir do preenchimento de um formulário, que nos primeiros meses do ano se encontraram os primeiros pares. Ana Maria Valinho faz parte da equipa de gestão da rede e tem sido responsável por juntar estudantes que procuram quarto a anfitriões que disponibilizam quartos nas suas casas.

Foi com a sua ajuda que Carlos Bento encontrou um quarto, com renda acessível e um contrato, onde nunca esperara – em plena Baixa de Lisboa.

Carlos e Rui fizeram match à distância

Procurar casa causa ansiedade a um estudante. Carlos não era diferente dos demais. Quando veio de Coimbra para a Rua da Junqueira, em Lisboa, a procura de quarto em Lisboa tinha associada a data de saída do quarto em que vivia. Logo que soube que tinha entrado no mestrado na Nova SBE, começou a mexer-se. Procurava no Idealista e nos grupos de Facebook, “mas era complicado”. Estando longe, não podia visitar as casas e alguns desgostos em Coimbra tinham-no preparado para a “discrepância entre aquilo que são as fotografias e a realidade”.

Carlos Bento. Foto: Frederico Raposo

No primeiro quarto em que viveu em Coimbra, pagava 250 euros. Sabia que esse seria um valor impossível em Lisboa. “Ia ser pelo menos o dobro”. Assim foi.

No último ano do mestrado, apareceu a Rede ¼. Foi enviado um email geral aos alunos da Universidade Nova, explicando o funcionamento da rede. Como nestas coisas Carlos é “muito prático”, decidiu avançar logo para o preenchimento do formulário disponibilizado com as suas informações. “No pior dos cenários, fica tudo como está.”

Poucas semanas depois, conta, recebeu uma chamada de Ana Maria Valinho. O acompanhamento da equipa da rede foi próximo e procura garantir que o alojamento corresponde à expectativa do estudante e que existe uma boa relação entre estudante e anfitrião.

Carlos explicou o que procurava: “uma casa mais pequena, com menos pessoas”, e próxima da Linha de Cascais, onde pode apanhar o comboio para a universidade. E começaram a ser-lhe apresentadas várias possibilidades, a partir de anfitriões que entretanto se haviam juntado à rede e cujos quartos cumpriam os critérios do estudante.

Até que chegaram à casa em que está hoje, na Baixa. Foi agendada uma visita, seguida de uma conversa com o anfitrião, Rui Marques.

Ana Maria Valinho integra a equipa da Rede 1/4 e tem coordenado o processo de formação de matches – ou pares – entre estudantes e anfitriões. Foto: Frederico Raposo

“Vi a Ana Maria, tocámos à campainha, e lá dentro estava o meu atual senhorio – o Rui”.

Lá dentro, lembra-se das primeiras impressões. “Tetos altos, uma luz espetacular” – é assim que Carlos descreve o momento.  “Foi assim uma loucura – ‘isto não pode ser uma casa que está disponível para um programa de arrendamento acessível’”, pensou. A conversa correu bem e assegurou-se um dos primeiros matches da rede.

De habitação devoluta a alojamento estudantil

Rui Marques, o anfitrião de Carlos, “tropeçou” na Rede ¼. Atualmente expatriado, a trabalhar em Berlim, teve a casa “vazia há vários anos”, mas quando descobriu a rede ficou “sensibilizado” e decidiu inscrever-se. Lembrou-se: “‘’E por que não?’”.

Antes de dar de caras com a Rede ¼, Rui “estava mais retraído do que proativo”. Na hora de considerar hospedar um estudante, a existência da rede ofereceu-lhe segurança no processo e isso, não esconde, foi decisivo na hora de avançar. O facto da rede ter nascido “dentro do ambiente universitário dá alguma confiança, [facto] realçado por haver aqui uma abordagem sistematizada, por haver formulários e um template de contrato”. Tudo isto, diz, contribuiu para “a própria viabilização da ideia. Se não, como é que eu conseguiria chegar aos alunos?”

E acrescenta: “Se não fosse através da plataforma”, só consideraria receber na sua casa “filhos de amigos ou pessoas que conhecesse”.

A possibilidade de entrar na rede como anfitrião permitiu-lhe acrescentar um “rendimento justo”, “mas ajudando pessoas” e, diz, sobretudo estudantes – “um segmento que todos nós sabemos ter esta necessidade”.

Depois de mais de quatro meses de anfitrião na rede, não tem dúvidas de que tudo tem corrido “extraordinariamente bem”.

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A casa de Rui Marques, onde hoje Carlos está alojado, situa-se na Baixa de Lisboa. Na imagem, a Rua da Prata, na Baixa. Foto: Rita Ansone

Contente com os meses iniciais da experiência, Rui Marques assume estar agora a considerar receber mais um estudante na sua casa. “Estou à beira de ser anfitrião de dois estudantes através deste sistema.”

“Os quartos estavam vazios e agora vão estar ocupados por um estudante que precisava. Há aqui uma questão de alinhamento com uma missão que é, no fundo, valorizar e otimizar os recursos que existem.”

Sobre a crise da habitação, em particular as dificuldades no alojamento estudantil, Rui considera que “hoje, o cidadão não é ausente desse problema – todos temos consciência de que existe, mas somos cidadãos individuais, não somos operadores imobiliários nem decisores políticos. A dificuldade, quando se pode colaborar numa solução, mesmo pequenina que seja, é fazê-lo – e encontro nesta plataforma essa possibilidade”.

“Inovação social”? Rede junta câmaras municipais e Ikea como parceiros

João Seixas e Rita Castel’ Branco apontam poupanças económicas como outro potencial efeito benéfico da rede.

Para a futura construção de uma nova residência universitária com 240 quartos na Universidade Nova, prevê-se um investimento total de nove milhões de euros – o que representa, explicam João Seixas e Rita Castel’ Branco, um custo de cerca de 37.500 euros para cada quarto, a que depois se somam custos de manutenção. Se por um lado, as camas ocupadas por estudantes na Rede ¼ podem não estar lá permanentemente, ao contrário de quartos em residências universitárias, as primeiras podem ser disponibilizadas imediatamente e a custo zero, apontam.

Imaginando 100 estudantes alojados a partir da rede, João Seixas explica que esse seria um resultado idêntico a um investimento de “três milhões e 700 mil euros”.

Com um investimento que é “pequeno”, afirma Rita Castel’ Branco, a rede pegou no conceito de inovação social – “que visa juntar parceiros e criar soluções novas para problemas antigos” – e está a dar forma a “uma solução que é muitíssimo mais barata e poupa – a sociedade ganha”.

O trabalho da Rede ¼ é cofinanciado pelo programa Portugal 2030 e pela União Europeia, contando ainda com as fundações Ageas e Santander e as autarquias de Lisboa, Oeiras e Cascais enquanto investidores sociais. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a sociedade de advogados Vieira de Almeida – que ajuda a rede com a elaboração do regulamento e de contratos-tipo – e o Ikea são parceiros sociais. Ao todo, a Rede 1/4 recebeu financiamento num valor superior a 254 mil euros.

Na rede de parceiros, há apoios para além do financiamento direto. Também as casas de anfitriões podem receber um empurrão, na forma de mobília para os quartos dos estudantes. O Ikea apoia os anfitriões com carências comprovadas através da oferta de cartões de presente de 350 euros, tendo em vista a aquisição de mobiliário, sendo possível, noutros casos, a oferta de mobília para quartos completos.

Todos os estudantes alojados ao abrigo da rede recebem ainda cartões presente no valor de 50 euros.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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