Ilustração: Nicolle Velcro/LSD Lisboa - Lisbon School of Design

Era domingo. Dia de missa xamânica. Esperávamos, nós crentes e em busca da salvação, pela chegada do pontífice australiano: Nick Cave e as suas sementes tocariam dentro de horas no antigo Pavilhão da Utopia. E de que salvação precisava eu, que neste tempo de espera acabara de receber uma mensagem do senhorio: “A renda para o próximo ano vai aumentar em pelo menos 400 euros”.

Nos supermercados, encontram-se invólucros anti-roubo nos champôs, nas latas de atum e lâminas de barbear. Sinal de que a pobreza anda à espreita. Os insalubres campistas que por aqui residem são barrados por cercas cor de esperança do adro da Nossa Senhora dos Anjos e da Ermida da Nossa Senhora do Resgate das Almas e Senhor dos Perdidos. Amén.

As cidades são para se ver belas, não queremos imundície nas nossas ruas. Nenhum turista quererá deparar com bestas que vivem em tendas e têm dois empregos para conseguir comprar um sabonete para o sovaco, um peixe para afagar a barriga… e uma lâmina para cortar os pulsos.

Nesta nova Lisboa, que como está, pior fica, amedrontam-me estas politiquices que trilham percursos precários, dando aos donos desta merda ainda mais poder.

Vivo, com a minha mulher e duas gatas, há quatro anos na Rua de Arroios numa casa arrendada em tempo de covid-19. Uma época em que senhorios se voltaram para o arrendamento habitacional. Falta de turismo, parece-me. Os preços das habitações também diminuem durante o fim do mundo.

Com um contrato de um ano, renovável, o preço manteve-se durante dois anos. O ajuste, seguindo o coeficiente de arrendamento estipulado pelo Governo, chegou no início do terceiro ano. Aceitámos a nova renda e assinámos um novo contrato de um ano, renovável.

O contrato assinado para o quarto ano foi feito de forma diferente. Requisitada a nossa presença perante um solicitador, lá nos enfiámos num carro e fomos até ao gabinete para cair no que me parece ter sido uma cilada. O novo contrato trazia uma renda actualizada segundo o coeficiente daquele ano, era um acordo de um ano, mas a negrito assinalava ser não renovável. Quando recebemos a minuta, inquiri o senhorio sobre esta cláusula. Disse-me que teria de perguntar ao advogado no dia da assinatura. Na sala, voltei a perguntar o que fazia ali o não renovável. Mas não havia nenhum advogado na câmara das traições, só um solicitador, dois inquilinos e um senhorio. Quem respondeu foi o próprio senhorio: «Não se preocupem, isso é só para me precaver dos governos de esquerda que não nos deixam fazer o que queremos. Eu para o ano volto a renovar-vos o contrato. Podem estar descansados.»

Sem outra hipótese — estávamos sem apoio jurídico e com fé na boa-fé de todos —assinámos a papelada. Iniciou-se o quarto ano com medo de não ter o contrato renovado para o ano seguinte. Comecámos a nossa busca por uma casa para comprar. Com simulações de crédito feitas em diversos bancos, uma casa em vista e a poucos passos de ficarmos livres das amarras de senhorios, um infortúnio surge. Sou despedido da empresa para a qual trabalhava, no quarto mês do ano. Pus de imediato um travão no processo.

Durante meses a fio, procurei emprego, uma estória para outros textos. No fim de Outubro, num desempregado domingo, fui procurar a redenção ao Meo Arena. Tocava Nick Cave. O concerto foi ouvido com o novo valor da renda na cabeça. Demorei uns dias a responder ao senhorio. Procurei ajuda na Associação dos Inquilinos Lisbonenses, da qual sou sócio. Formulei uma contraproposta de mais 150 euros, em que lhe expliquei que me encontrava desempregado. Que mesmo nesta situação não houve falha alguma nos pagamentos. Fiz um somatório de coisas que se dizem quando se quer convencer um senhorio. Somos um casal de bons vizinhos. A casa está impecável. Prezamos a nossa boa relação inquilino-senhorio. Criámos laços na comunidade que aqui reside. Estamos há quatro anos a viver aqui e participamos nas assembleias da junta.

Tudo coisas bonitas e nada importantes para quem conversa a língua dos cifrões. Disse que pensaria sobre o assunto, mas para procurarmos outra solução, uma vez que não tínhamos forma de comportar os valores actuais do mercado imobiliário. Acrescentou que faria uma visita ao imóvel com um consultor para saber o valor real deste. Questionei-o sobre a data da visita, mas demorou mais de 15 dias a definir uma data. Comportamento crítico para quem tem de procurar inesperadamente uma casa em menos de mês e meio.

Uma das mensagens enviadas, uma mensagem de voz de dez minutos, o senhorio começa por comentar que a mãe foi enganada pelos antigos agentes imobiliários sobre o valor da casa, no ano de 2021, em plena pandemia de covid-19. Que precisa de aproveitar este Governo para fazer o que quer, uma vez que os de esquerda não o permitem. Que tem muita pena da nossa situação, mas precisa de pensar em si e na sua empresa, que está a dar frutos. Que se eu não tenho dinheiro, que vá viver para a Amadora. Que se estou desempregado, é culpa minha, porque o mercado em Portugal está óptimo. E os profissionais, realmente bons, vão para fora do país. Já cantava o Rui Veloso que o rapaz que trabalha nos computadores, dizem que é um emprego com saída. Com um bocadinho mais de esforço, o Miguel arranja emprego. Que tem de subir a renda, porque as leis deste país são muito viradas à esquerda e, se deixa o ano fugir, não conseguirá corrigir os valores. Por mais empatia que tenha com a nossa situação, nós temos de pensar na situação dele. Ou procuramos noutro lado ou pagamos os valores reais do mercado, é a desgraça de termos o Governo que temos.

Foi-me dito tudo isto na mensagem. Ouvi-a incrédulo. Entretanto, vieram duas consultoras imobiliárias avaliar o apartamento. Depois de dias à espera sem nenhum sinal de vida da parte do senhorio, perguntei-lhe qual era o valor real pelo qual fora avaliado o apartamento. Obtive a resposta no dia 9 de Dezembro. Afinal, o valor real é de pelo menos 1500 euros. É um acréscimo de 58% da renda que actualmente pagamos. E com este aumento, nem nós nem os três vizinhos de baixo, que vivem num outro apartamento deste mesmo senhorio, conseguimos pagar este valor. Sentimos que caímos numa cilada e estamos a ser expulsos.

Parece-me que os dois apartamentos vão ser transformados em alojamento local, uma vez que este governo, de quem o senhorio nada parece gostar, voltou a permitir as licenças para a criação de novos Alojamentos Locais. O senhorio deixou de responder a mensagens.

E por aqui andamos, a partilhar cidades com os gulosos de cifrões. Numa Lisboalândia de turisteiros, nómadas digitais e com uma imensa falta de leis habitacionais, que vão gentrificando as nossas cidades. Sem esquecer os sem-abrigo — sim, sim, sem-abrigo, porque dizer “Pessoas em Situação de Sem-Abrigo” é bonito mas nada resolve — expulsos violentamente das ruas, para outras ruas escondidas do olhar estrangeiro. As cidades deixaram de ser nossas.

Talvez, em vez de manifestações que acabam em convívio, se por um mês se deixassem de pagar rendas a gulosos e os tribunais ficassem cheios de queixas, a especulação imobiliária se finasse. Quem sabe?


Mguel Antunes

Miguel Antunes

No ano da fénix, apanhou o comboio da linha de Sintra para se instalar em Lisboa. Reside entre o mundo informático e o mundo poético. Rabisca letras de canções em esplanadas, na companhia do cálice da duplicação e de bandas que aos ouvidos lhe tocam.

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