Cineteatro Monumental
Cineteatro Monumental Fotografia: DR

Nos anos da pandemia, durante as minhas caminhadas matinais, fui acompanhando de perto a renovação do icónico edifício espelhado do Saldanha. Nesse difícil período, à semelhança de muitos outros lisboetas pré-gen-Z, desejei intimamente o regresso do cinema com o letreiro Monumental e do seu mítico bar de apoio, o Movies. E, até meados do ano passado, quando ainda eram visíveis as bilheteiras e os posters alusivos às espumosas blanches belgas ou às franziskaners alemãs, fui mantendo uma réstia de esperança. Apesar de notícias já deste ano assegurarem que o cinema vai memso manter-se no Monumental, os acessos ao antigo centro comercial e aos andares do cinema e do bar parecem sugerir o oposto.

Na sua primeira vida, terminada de forma demolidora em 1984, o velho Cine Teatro Monumental foi palco de espetáculos e exibições memoráveis. Dessa “sala de cinema, com lotação de 1967 lugares, e uma de teatro, com 1086 lugares”, apenas me lembro vagamente de uma imponente escadaria que existia no foyer. Já do edifício transformado recentemente em sedeou sucursal de um banco, guardo muitas e boas memórias. Na segunda metade dos anos noventa do século passado e na primeira década deste milénio, fui presença assídua tanto no cinema como no Movies. De forma intermitente durante unsquinze anos, o efervescente bar no início da Grã Via lisboeta, frequentado por artistas, jornalistas, políticos e por tanta, tanta gente diferente, foi praticamente a minha cantina.

Ao contrário dos meus pais, baby boomers que viram as suas primeiras películas de celulóide no Monumental e no Tivoli (a minha mãe) ou no Paris e no Chiado Terrasse (o meu pai), a sala do desaparecido Apolo 70 (que fechou portas em 2021) é o Cinema Paraíso da minha infância. E o Berna, projetado pelo mesmo Raúl Lima do Monumental e hoje um anexo da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (que possui uns magníficos vitrais e mosaicos assinados por Almada Negreiros), e oEstúdio 444, num dos lados do quarteirão da minha infância, são as duas salas que se seguem no meu trailer cinematográfico.

Todos desaparecidos, os cinemas Alfa, Condes, Éden, Império ou Mundial marcaram a cinefilia do início da minha adolescência. No Alfa, a meio dos anos oitenta, maravilhei-me com um estiloso DeLorean no primeiro Regresso ao Futuro e assustei-me com umas lagostas alienígenas escuras e viscosas no Aliens – O Resgate; no Condes, pouco antes de fechar portas, assisti a uma versão masterizada de um dos filmes da saga Guerra das Estrelas; e no magnífico Éden do Cassiano Branco, se não fosse a separação entre a plateia e o balcão, eu e um amigo teríamos sido assaltados em pleno cinema enquanto assistíamos ao filme Em Busca da Esmeralda Perdida.

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Antes das grandes distribuidoras e das salas hiper-mega-multiplex terem invadido a cidade branca das sete colinas, ver cinema em Lisboa obrigava-nos a andar muito. Havia zonas ou freguesias do burgo com mais salas de projeção por metro quadrado do que no resto da cidade, como Alvalade, a Avenida de Roma ou o Saldanha. Porém, para vermos as estreias da semana, os blockbusters da altura ou os clássicos do cinema, não bastava uma app e meia dúzia de cliques num smartphone. Na época, este não era sequer um gadget imaginado pelos guionistas das películas de ficção científica.

Hoje, apesar dos vários exemplos de resistência da sétima arte local ou de bairro (City Alvalade, Ideal, Nimas ou São Jorge), a ideia de cinema de culto parece mais uma memória de um tempo que passou. É pena. Para os nascidos até aos anos noventa do século passado, como é possível esquecer os pequenos bilhetes em cartolina que eram autênticas obras de arte gráfica, as maratonas do Quarteto a preços de 1975, as maravilhosas poltronas do Londres, com o seu curioso e cadenciado mecanismo hidráulico de descida e reclinação (que me faz sempre lembrar um outro, mas de subida, que existia nos Citröen ‘boca de sapo’), ou duas das salas do King, em que víamos uma película, mas ouvíamos os diálogos de duas.

Mas vejamos: será que o streaming está a matar o cinema em sala? Depois do multiplex ter praticamente exterminado o triplex e o de bairro, estaremos condenados a ficar confinados ao modo #vamos-todos-ver-cinema-apenas-em-casa, em que cada um vê o que quer no seu ecrã? Quero acreditar que não e números recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) indicam uma subida acentuada no número de espetadores em sala: em 2023, até setembro, os cinemas portugueses tinham registado 9,5 milhões de espetadores e 57,2 milhões de euros de bilheteira. Sem dúvida, há que navegar a película. 

Cineteatro Monumental Fotografia: DR

A responsabilidade pelo fecho massivo de salas de cinema nos últimos anos é mais do público – eu, tu, nós lisboetas – do que das distribuidoras, dos locatários ou dos “eles” do sistema. É o mercado, dizem. Mesmo assim, fica o apelo a quem de direito – freguesias, autarquia, Governo – para a resolução do problema “Monumental” que temos entre mãos. 

No eixo entre o Saldanha e o Marquês de Pombal, a que chamo convenientemente Grã Via lisboeta (sublinho que a sua congénere madrilena também esteve muitos anos ao abandono e, tal como a fénix, renasceu cheia de luz e cor nas últimas décadas), uma zona de particular centralidade e vitalidade, creio que está na hora de pormos de lado a resignação e a habitual cultura de (recuperação da) fachada de edifícios históricos ou emblemáticos e pensarmos antes na vida para além das paredes desses espaços, naquilo que acontece no seu interior e que os tornou grandiosos ou incontornáveis. Cinema, teatro, arte urbana, néones e ecrãs gigantes em LED a anunciar novas estreias: será que o Monumental não merece uma glamorosa terceira vida? Não é isso melhor do que a diversidade de anúncios a créditos bancários ou cartazes políticos que vomitam ódio e ressentimento e poluem visualmente uma praça que homenageia uma figura maior da nossa História?


Pedro Salazar

Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.

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2 Comments

  1. Mt pequena ainda vi ,pela mão do meu pai várias comédias da Laura Alves, imparável correndo o palco de uma ponta a outra.
    Cálculo que não entendesse o enredo ,mas a sua vitalidade num cine teatro que considerava a sua casa,ficou me na memória até hj.
    E tal como o Pedro,o Apollo 70 tb era ,em criança e adolescente,o meu Cinema Paraiso.
    😊♥️

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