Maputo
Ilustração: Nuno Saraiva.

No rescaldo pós-eleitoral, com acusações de fraude por parte da oposição, e a convocatória de uma greve geral durante uma semana e de uma manifestação nacional em Maputo, para onde moçambicanos marcham e para quem a polícia atira gás lacrimogéneo, impedindo-os de entrar na capital do país, todos os dias foram sábado. Estava tudo a um décimo de gás, Maputo sabia a indolência, e tudo era estranho por se saber que a calma escondia a confusão. As lojas fechadas, o povo em casa, os carros escassos. Parecia que só a vida infame tinha lugar nas ruas. Era essa vida e eu.

Farta de estar fechada em casa, ainda que a vista sobre a baía de Maputo fosse uma coisa bela, tive de ir dar de beber às pernas e à cabeça. Ignorei todas as recomendações de segurança do Consulado-Geral de Portugal em Maputo e fui passear pela zona, já com a noite a fazer uma forcinha até ao chão. Branca, dei nas vistas, e mais nas vistas dei por passear a sós, sem saber para onde ir, meio devagar, mas como quem sabe que para a frente é o destino. Durante o tempo que ali passei, fui descobrindo algumas coisas: umas, porque me contaram; a maior parte, porque as inventei. Às seis da tarde, já era noite cerrada, e na rua quase só havia homens, e quase todos a sós: uns agarravam qualquer coisa a ver se a vendiam, outros eram mesmo uns agarrados. Mudavam de língua a cada duas frases, e queriam falar inglês mesmo que não falassem. Misturavam zulu, xitsonga, xichangana e o tal inglês esfarrapado da África do Sul. Volta e meia, um português arrastado da Zambézia. Alguns vieram de lá. Outros vieram de Inhambane, eram ainda crianças.

Ilustração: Nuno Saraiva.

Havia um que saltava à vista. Cabelo comprido e preto, demasiado vestido para o calor de Moçambique, roupa que eram pedaços de tecidos amontoados uns nos outros. E sempre a falar, e até alto, “my man” para trás e para diante, com os outros à volta a chamarem-lhe o mesmo. Era um “my man” que nunca é homem de ninguém. Sempre de chuinga na boca, mesmo que lá tivesse um cigarro, o Joy teve daquelas vidas que tinham de dar rua: alcoólico desde os 12, fumador desde os 9, começou a tomar restos de droga era ainda criança, apanhou HIV era ainda adolescente, ganhou uma gangrena ainda não era adulto. Aos 13, já matava o vício com beatas mortas que encontrava no chão e catava o lixo em busca das últimas pingas agarradas a garrafas já vazias. Era restos de vida a farejar sobras, e depois viveu sempre de assaltos, aparecendo à noite, quase sempre de casaco, apesar dos 30 graus, munido de desespero na cabeça e uma catana na mão. Tudo contrastava com a beleza da água calmíssima da baía de Maputo, com os frangipani que iam crescendo entre outras plantas, com uma vegetação que dava 10-0 à de Lisboa. Mas o maior contraste era mesmo o da vida dele, que roubava, fugia e vivia mais um dia. Talvez, no meio disto, se desse ao trabalho de sonhar, mas duvido. Em criança, já tinha de ser homem – e logo daqueles homens que são perigo. A mãe tinha morrido, o pai sabe-se lá quem foi, e nisto o Joy vivia de lavagens de carros por chantagem. Circulava na Avenida 24 de Julho, em frente ao Piri Piri, e volta e meia na Julius Nyerere, e mandava água para cima dos carros. Depois virava-se para quem os conduzia. Sorria, mas era uma ameaça: “Broda, agora tens de pagar.”

E o broda dava conversa, mas sabia que ia acabar por pagar. A partir do momento em que tinha água no capot, já não dava para evitar. Por isso, negociava.
– São cem meticais, my man.
– Cem meticais? Nem pensar, ’tá muito alto.

E muitos fechavam nos 80 só para não haver mais confusão, e o capot entretanto secara e nem tinha visto detergente.

Eu, que não tinha carro, não tinha problemas destes, e concentrei-me em ver o Joy só à distância, sabendo que gente assim não se quer na vida, mas nas crónicas. Famoso por ter assassinado uma mulher à porrada, e lhe ter escondido o corpo em vários caixotes de Maputo, o Joy não era gajo que eu quisesse a jantar na minha casa. A sina era sempre a mesma: ela – e ela era Lúcia, e imagino-a doce por estar morta – nem sequer merecia a atenção que ele lhe dera, e ainda se dera ao luxo de um dia dizer que não. Ele espancou-a como quis, imagino que para gastar a cólera, indo buscar ao cansaço a vingança de um corpo rejeitado. Ou nunca houve provas ou nunca ninguém quis saber, o facto é que o Joy nunca soube o que há do outro lado do arame farpado da Eduardo Mondlane, onde fica a Cadeia Central da Machava.

Ilustração: Nuno Saraiva.

Mas não sei se alguma coisa disto interessa. Interessa que saí, era já noite, meio chateada com a vida, e fui a pé até à Patrice Lumumba, onde fica o Jardim dos Professores, com uma vista plácida sobre a água, e um prédio que sabe a edifício descascado. Também dali se vê uma rua a ser engolida pelo escuro, ou um sussurro de Maputo que só é belo quando sabe a perigo e desespero. Mas isto são coisas de quem gosta de ver mar em frente ou que acha graça, porque escreve, a vultos atrás de sombras numa cidade engolida pela noite.

Não pus os phones, mas pouco ouvi. Àquela hora, em plena greve, quase só havia silêncio. E, claro, sempre muitos homens a catar vida do lixo. Virei pela Tomás Nduda para chegar ao jardim, intuindo o que sabia, sabendo o que intuía: talvez não devesse andar por ali sozinha, de tal forma despreocupada, com o telemóvel no bolso, dois cartões do multibanco e cerca de três mil meticais. Quando cheguei à Patrice Lumumba, reparei que o Joy vinha atrás. É que ele teve o desplante de me tocar no ombro – uma mão que tocava um corpo no escuro –, dizendo assim: “Tamujuntu, prima?”

Olhei para trás, vi-lhe a cara. Olhos pedrados de qualquer coisa, já fugidos para outra realidade. Deu vontade de fugir, mas eu estava de chinelos, uns chinelos tão cansados que nem davam para andar depressa. Quantas vezes teria a roupa dele estado encharcada em suor e secado ao sol? O resto conto a seguir.

*Esta crónica, como as próximas nove, resulta de uma residência literária feita em Moçambique, organizada e financiada por uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Centro Camões de Maputo.


Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Na mesma casa, pôs a cabeça em Vizela e escreveu Amor Estragado. Algumas voltas pelo mundo culminaram em Viagens com o Mehdi. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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