
Olá vizinha/o,
Oiço Bairro nas notícias e arrepio-me. Bairro devia ser palavra de proximidade, de vizinhos. Mas em Lisboa tornou-se pejorativo. Bairro era algo nobre, e ser bairrista uma qualidade. Agora é sinal de “nós” e “eles”. Por estes dias é mesmo violência, morte. E distância.
Bairro é Cova da Moura, Zambujal, Portela. É deles que se fala, destes Bairros, no caso na Amadora, na fronteira de Lisboa. Tão Lisboa como a Av. da Liberdade, como bem sabemos, nesta cidade feita de conexões, de circuitos de trabalho, de vidas.
A distância é sobretudo social, resultado de anos e anos de mau planeamento urbano, boas intenções com consequências infernais – como os alojamentos PER das anteriores barracas – das coisas a acontecerem mais depressa do que conseguimos planear – como a vinda de imigração para construir as obras grandes, vide Expo 98. Ou das coisas que se planeiam mesmo quando não são planeadas – olhe o jeito que dá ter às portas da cidade um contingente de gente pobre para limpar os nossos escritórios às cinco da manhã, construir as nossas casas, ou cozinhar nos nossos restaurantes?
Por estes dias tenho ouvido falar destes Bairros em vários tons nos media. Na boca dos que, com boas intenções, descrevem a pobreza, exclusão e racismo, carência de muita coisa, falta de acessos, problemas de educação e saúde. Na boca dos que, com intenções de causar a divisão, falam deles com asco e desprezo. Em ambos os casos, há algo que preocupa: a desumanização.
É contra isso que trabalhamos na Mensagem. Se se tem perguntado porque não tem encontra aqui reportagem no ferro e fogo, é precisamente por causa dessa palavra: Bairro.
Bairro, aqui na Mensagem, é sítio de vizinhos, de empatia, de gente que trabalha e luta pela vida. E é isso que esta cobertura mediática apaga, oblitera e subtrai. É triste, mas infelizmente diz mais sobre a bolha mediática do que sobre estes lugares.
Na Cova da Moura, o Nuno Mota Gomes conheceu o Vítor da Bazofo e a sua loja de T Shirts e serigrafias, logo no início da Mensagem.
A Catarina Reis fez uma reportagem sobre as amas, as mulheres que cuidam dos filhos das outras mulheres quando elas trabalham vários turnos, saindo de casa antes de nascer o sol e chegando já ele se pôs.
Com os músicos do Estúdio Kova M fizemos um rap sobre as agruras da imigração europeia.
Aqui entrevistámos os jovens que não conseguem ter uma vida normal porque o estado lhes nega a nacionalidade do país onde viveram toda a vida.
E, coincidência, estamos neste momento a trabalhar numa reportagem no Zambujal sobre um projeto de arte urbana que conta as histórias do bairro com artistas e gente local – ouvimos a história linda da Tita que foi acolhida em casa da Amélia, e que se tornou irmã dos seus irmãos brancos e está desenhada à porta do bairro agora em chamas. Posso também garantir-vos que o café Tágide do Oceano tem as melhores torradas de Lisboa.

Lembrei-me por estes dias do discurso do Dino d’Santiago, na conversa que tivemos com a Whoopi Goldberg no sábado no Festival Tribeca – que agora parece tão longínquo.
“Ainda me lembro do cheiro do esgoto, um odor que não vinha do ar, mas das feridas que o mundo nos inflige. Nasci pobre, não apenas de dinheiro, mas de oportunidades, e vivi rodeado por uma miséria que não se lavava com água e sabão. A minha infância foi um acto de sobrevivência nas entranhas de uma sociedade que me cuspia para fora, como se eu fosse o erro, a falha no seu projeto perfeito. E o meu pai, pedreiro, construtor de muros e casas, não tinha as ferramentas certas para me ensinar a erguer a minha própria fundação espiritual. Talvez porque ele também estava ocupado a levantar as paredes que o protegiam da humilhação de existir.”
É isto. Nem este discurso, nem esta newsletter servem para explicar ou desculpar quem pratica crimes. No caso mais recente, há muito a esclarecer – depois da poeira assentar. Mas seria um enorme paternalismo achar que a pobreza, a discriminação ou a distância social os justifica. Que não há outros caminhos para quem escolhe deliberadamente – e sobretudo reiteradamente e de forma consciente – o mau caminho.
Não é disso que aqui se fala. Nem disso nem desta relação difícil com a polícia – que tem muitíssimo a explicar neste caso, e a fazer mea culpa se for preciso. Nem tudo corre bem em lugares que são de pobreza, exclusão, dificuldades, óbvio. Mas a proporção obedecerá mais a uma normal curva de gauss do que parece nas notícias (como mostrámos neste projeto Narrativas).
Aliás, o que acontece nestes lugares é pior. É que os que trilham uma vida normal, caminho honesto, são banais trabalhadores, mães de família, ou empreendedores, donos de cafés, são os que mais sofrem. Porque têm mais a perder, no pouco que têm. Porque, como dizia o Dino estão sempre a ver acrescentada “a miséria que não se lava com água e sabão”.
E quanto mais se falar de Bairros como Bairros, mais assim será. E é por isso que não ajuda nada que os jornalistas só visitem estes lugares quando o mal vem ao de cima. Isso contribui para que o mal se espalhe, como um infernal ciclo.
É contra esse ciclo que a Mensagem se coloca. E colocará.
O mal não é a verdade absoluta nestes lugares – ao contrário do que parece. Aqui mostrámos, e mostraremos, o poder da obra feita. De gente que trabalha de sol a sol, mas ainda consegue ser criativa e transformar lata em história de ouro. Com isso pode contar. Pode sempre contar.
Diretora

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