Quando António Paulo, o Toy Kool, acordou de um coma de 13 dias ao som de reggae, a música à qual dedicou a sua vida, parecia estar a despertar de um sonho estranho. “Até me ri: como é que estou no hospital e está a dar reggae? Só via luzes e ouvia a música. Que viagem é esta, meu?”
Era um desfecho feliz para alguém que tinha estado tão próximo da morte. Mas a sua situação mantinha-se precária: a casa onde vivia no Barreiro tinha sido demolida enquanto estava internado no Hospital Amadora-Sintra.
Em Portugal, Selecta Toy Kool foi um dos fundadores do primeiro soundsystem, o Fankambareggae, além de ter sido uma peça fundamental nas atuações dos Kussondulola, a mais popular banda do género no país. Representante do coletivo Ras Tata Kongo, o seu grande companheiro musical era Ras Damula, amigo de longa data e a razão para ter ido parar ao Barreiro.
Esta não é só a história do Toy Kool. É tmbém a história do último residente do Bico do Mexilhoeiro, a ponta oeste do Barreiro, que se tornou conhecida pelo surf no Tejo. Os surfistas aproveitam as movimentações dos catamarãs que fazem a travessia entre a Margem Sul e Lisboa para apanharem as ondas artificiais – chamadas Gasoline. Até Garrett McNamara já lá foi experimentar o fenómeno.
Para António Paulo, pioneiro da cultura reggae em Portugal, que na música é conhecido como Selecta Toy Kool, aquele era o único sítio que tinha para viver.
A situação é complexa. O Bico do Mexilhoeiro é, historicamente, uma zona de pescadores. Muitas famílias viveram ali em habitações mais ou menos precárias. Com o passar dos anos, muitos deixaram a zona, mas mantiveram os barracões para guardar materiais e para servirem de apoio à pesca.
Os terrenos pertencem ao Porto de Lisboa, os ocupantes pagavam rendas, mas ao longo do tempo tornou-se cada vez mais óbvio que aquela era uma área particularmente frágil do ponto de vista ambiental – desde 2009 que foi lançado um alerta pela Aministração do Porto de Lisboa (APL), com a revogação das licenças automáticas. Com a força das marés e a erosão dos solos, muitas das estruturas ficaram em risco à medida que os anos passavam. E a casa de Toy também.

De Angola ao Barreiro, um pioneiro do reggae
Toy Kool morou na zona da Tapada das Mercês, na Linha de Sintra, e, depois de regressar de Angola, em 2017, fixou-se no Barreiro.
António Paulo nasceu em 1969 em M’Banza Kongo, cidade histórica angolana próxima da fronteira com a República Democrática do Congo. Viera para Portugal na adolescência, no pós-25 de Abril – passou por Madrid e Londres, onde ganhou mundo.
A paixão pelo reggae já vinha de longe. Conta que o avô, tripulante de navios, ficara fascinado com aquela música e trouxera cassetes para Angola. O seu companheiro musical era Ras Damula, que tinha um estúdio, um bar e tinha ficado com o trespasse de um espaço no Bico do Mexilhoeiro para desenvolver um projeto aberto ao público.
“Ele é que me foi buscar ao aeroporto e trouxe-me para o Barreiro, que eu nem conhecia. E apresentou-me este espaço. Ele já tinha um bar no centro comercial do Barreiro, ia tomar conta daquele, e eu ficaria com este, que também seria um centro cultural”, explica Toy Kool.
Ras Damula já ocupava aquele espaço desde 2014. Mas o projeto estava atrasado por processos burocráticos. Os dois recebiam amigos e serviam refeições de maneira informal, e faziam eventos ocasionais.
Isto até à morte do amigo, em 2019. Toy Kool conta que ficou profundamente abatido. E que a sua vida começou a desmoronar-se a partir daí. Passou a viver no Bico do Mexlhoeiro, enquanto o processo de concessão oficial estava na Administração do Porto de Lisboa.
“De vez em quando apareciam os fiscais a perguntar e eu explicava-lhes que o processo estava a ser feito. Mantive o espaço, consegui torná-lo num espaço cultural, com pessoal do hip hop e do reggae”



Saúde frágil e uma tempestade
Por essa altura Toy Kool começa a sentir-se doente, e a deterioração da sua saúde foi rápida. Começou a sentir falta de ar e cansaço. No Hospital do Montijo, começou a ser acompanhado quando “já estava muito debilitado, estava muito magro, com 55 quilos.”
Fez análises, mas antes de receber os resultados veio a pandemia. “Fiquei muito tempo sem saber o que tinha”, conta. Quando recebeu os exames percebeu que só tinha o pulmão direito. “Eu próprio fiquei admirado… Nunca tinha tido problemas pulmonares. Como é que de um momento para o outro vais fazer um raio-X e estás sem um pulmão? Disseram-me que é um caso raro, eles próprios não sabem explicar como é que o pulmão desapareceu. E tinha uma infeção no outro pulmão.”

Durante o tratamento, ficou no Bico do Mexilhoeiro enquanto ia, dentro do possível, dinamizando o espaço, batizado entretanto de Ras Damula M’Banza Kongo, em homenagem ao amigo e à cidade natal de ambos. Era, no fundo uma casa com vista para o rio Tejo – num lugar mítico.
Mas logo nesse ano de 2020 uma tempestade abalou a estrutura e a casa ficou inabitável. “Ficou aberta ao meio, o chão já estava a cair, a minha cama até ficou de lado. Mas não tinha outro sítio para onde ir.”
A irmandade com o DJ ErryG e os embates
Um amigo, Rogério Dias, que na música se apresenta como o DJ ErryG, convenceu Toy Kool a ficar temporariamente na sua casa no Barreiro. “Tive que o tirar e dizer-lhe que ele tinha de sair dali. Ele não queria sair, não queria incomodar, mas ele tinha que sair e veio para minha casa”, explica o brasileiro, em Portugal desde 2018.
Com o apoio de outros amigos que entretanto se voluntariaram, foram reconstruindo a casa. Usaram madeiras, telhas e esferovites, entre outros materiais encontrados na rua.

Mas além da casa, o muro que separava as águas das estruturas começou a ruir.
Não foi feita nenhuma intervenção – nem pelo Porto nem pela Câmara. Havia um processo já iniciado pela Câmara Municipal do Barreiro de vender os 21 hectares de terrenos abandonados da Quinta Braamcamp, ali mesmo ao lado. O processo chegou a avançar, para a construção de um hotel com 178 camas e de um empreendimento com 125 fogos, após a empresa Saint-Germain ter ganho o concurso público, adquirindo o espaço por pouco mais de cinco milhões de euros.

Mais tarde, o projeto seria suspenso. A Agência Portuguesa do Ambiente não aprovou o projeto para a Quinta do Brancaamp da Saint-Germain, e houve uma declaração de ineficácia por ordem do Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada. Isto seguiu-se à apresentação de uma providência cautelar pela plataforma cívica “Braamcamp é de Todos” e diversas críticas da Associação Barreiro Património Memória e Futuro.
E Toy viu-se envolvido num processo que era bem maior que ele e o seu bar e espaço cultural.
Mais uma vez, houve um esforço comunitário para reconstruir o muro. “A água entrou e estava a comer a estrada. E fechámos o muro para resistir mais tempo.” Na Gasoline, a associação que promove o surf no rio – e é assim que se chama a onda – organizou-se um primeiro evento solidário para ajudar Toy Kool. Outras festas foram promovidas com esse intuito ao longo do tempo.
Toy Kool tornou-se o último residente do Bico do Mexilhoeiro, e o único que vivia ali de forma permanente. Conta que de 2023 para 2024 sentiu-se cada vez mais “pressionado” a deixar o local. Não só pelas autoridades mas também pelas forças da natureza: uma nova tempestade causou mais danos sobre aquela área.
“Três ou quatro casas começaram a ceder, a câmara veio e derrubou oito de uma só vez” conta o amigo. “O que estava protegido ficou desprotegido, o muro veio mesmo abaixo, e a água chegou à estrada. Depois, bloquearam o acesso aos carros. Nessa altura, estava o Toy a viver aqui sem água, sem luz, doente, e puseram blocos de cimento para ninguém ter acesso. Se ele estivesse mal, nem uma ambulância poderia chegar aqui.”
Ao longo deste tempo, foram feitas várias intervenções e manifestações junto da câmara, para tentar sensibilizar para o problema. Uma assistente social foi designada para acompanhar o caso, mas Toy Kool e ErryG criticam a alegada falta de apoio prestado.
“Eles diziam que estavam a ajudar e que o Toy é que não queria os apoios. Deram-lhe umas latas de atum, massa, deram-lhe acesso ao balneário para tomar banho e poder lavar a roupa… Mas ele tem uma alimentação diferente. É vegan, é naturalista, é rasta. A ajuda para ele deveria estar relacionada com habitação.”
Toy Kool anui: “Era só o que eu queria, mais nada”.
Houve uma tentativa para que pudesse ir para uma casa partilhada. Mas o amigo – a quem, provavelmente, Toy deve o facto de ainda estar vivo – garante que lhe puseram demasiadas regras, regras que um homem do raggae não podia aceitar.
“Não podia receber visitas, não podia estar fora o dia todo, para ir ao médico tinham de o levar. Era como ir para dentro de uma gaiola, partilhar uma casa tendo em conta a sua situação de saúde…”
“Eram capazes de me ter encontrado morto”
Com uma saúde cada vez mais debilitada, e sem a possibilidade de continuar no Bico do Mexilhoeiro, Toy Kool recorreuà boa vontade de uma outra amiga que tinha um terreno na freguesia de Rio de Mouro, em Sintra, e o instalou numa caravana, nos primeiros meses deste ano.
Foi quando a saúde o atraiçoou. Tinha um concerto marcado, em Cascais, passou música na festa, cumpriu com o acordado, mas quando regressou a casa sentia-se ainda pior. “Tive uma paragem cardíaca. Acordei 13 dias depois.”

Esteve um mês internado, entre março e abril, num coma induzido. ErryG não o abandonou. “Deixei o link de um set que tínhamos feito os dois para ficar a tocar no iPad da enfermaria, na cama dele. E ele começou a reagir. E todos os enfermeiros começaram a conhecer a história dele e havia pessoas que até já conheciam o que ele tinha feito com os Kussondulola e o seu percurso no reggae.”
Enquanto Toy Kool estava internado, a lutar pela vida, ErryG e outros amigos promoveram residências artísticas e eventos solidários que pudessem reverter para o ajudar, com o título Tukina Solidária. Mas também foi nesse momento que a autarquia avançou com as demolições das casas, com o apoio da Polícia Marítima e da Proteção Civil.
Um dos artistas residentes, que estava no local, ainda tentou travar a demolição, conta
ErryG.
“Ele disse: ‘Não a derrubem, o meu amigo está internado e a única casa que ele tem é esta!’ Mas disseram que ele tinha de sair e algemaram-no. Eu cheguei na sequência, já apavorado, e disse para tirarem o meu amigo dali, mas nada. E ainda havia coisas dentro da casa. A polícia lá me autorizou a tirar as coisas. Eu tinha a chave e o gajo quis partir a porta com uma marreta. Foi muito forte.”
Razões de segurança para as demolições
Vêm de 2009 os avisos da perigosidade daquela área. Foi nesta altura que a Administração do Porto de Lisboa (APL) publicou pela primeira vez um edital que revogava as licenças de utilização dos barracões instalados. A APL fala em questões de “segurança, face à probabilidade iminente de ocorrência de desmoronamento das referidas estruturas, podendo provocar danos materiais e pessoais”, mas também em “questões de caráter operacional, designadamente, pela urgência de intervenção na reparação da muralha de retenção; e pela impossibilidade de a APL continuar a renovar os títulos de forma automática”.
Nessa altura, todos os ocupantes terão sido notificados. A primeira demolição, de três “edificados abarracados parcialmente ruídos”, aconteceu logo em 2010. Em outubro de 2023, quando aconteceu mais uma tempestade na região, a APL decidiu proceder com as restantes demolições. “Todos os ocupantes de terrenos afetos a esta autoridade portuária na Ponta do Mexilhoeiro ficaram notificados da ação a ser tomada a breve prazo.”
Além disso, o Porto de Lisboa assegura que “repôs a proteção do acesso” ao local, através de uma “obra que consistiu na colocação de enrocamento num troço de 30 metros, onde tinha ocorrido a derrocada do muro de contenção antigo e onde a proteção civil já havia efetuado a demolição de algumas construções por razões de segurança”. Foi também feito “o enchimento do aterro de forma a garantir a circulação de acesso ao Bico do Mexilhoeiro.”
Já em abril, foi afixado um novo edital que ditava que, no prazo de 30 dias úteis, as demolições iriam acontecer. E segundo a APL, “foi definido e articulada a execução das demolições pela Câmara Municipal do Barreiro.”
A APL sublinha o facto de “não terem sido demolidos, em momento algum, quaisquer edifícios privados, habitacionais ou outros, que ainda se mantêm no local” — os barracões não eram considerados habitacionais.
O fim do Bico do Mexilhoeiro
Quase todas as estruturas que existiam no Bico do Mexilhoeiro foram destruídas.
Este era um lugar mágico entre as ruínas e a natureza, com uma comunidade própria. Também por tudo isso, a moradora Vanessa Matias criou o movimento cívico Não Deixem o Bico Morrer, tentando consciencializar as diferentes entidades envolvidas para a memória histórica daquele lugar que outrora foi a casa de tantos.
A APL diz que “está agora prevista a assinatura de um protocolo com o município do Barreiro para a gestão partilhada deste local (…) assumida como fator estruturante do bem-estar das comunidades locais e, numa visão integrada, da própria Área Metropolitana de Lisboa”.
No meio de todos estes elementos – burocracia, natureza, interesses – Toy Kool é apenas um peão. Por enquanto, continua a viver numa caravana num terreno em Rio de Mouro. Do Barreiro, não teve apoios da autarquia, embora garanta que no ano passado se candidatou a uma habitação social.
Para sobreviver, gravou uma mixtape que o próprio vende para conseguir angariar fundos. E continua a passar música esporadicamente, agora que está ligeiramente melhor.


Até à data de publicação deste artigo, a Câmara Municipal do Barreiro não respondeu a nenhuma pergunta após múltiplos contactos que se prolongaram durante várias semanas.

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Que história tão linda e tão bem floreada…para quem não conhece o espaço e não sabe o que se passava nesse espaço e noutros contíguos…boa reportagem,pode fazer o capítulo 2 mas com toda a verdade dos factos ❤️
Que história tão linda e tão bem floreada, agora pode conta o capítulo 2 mas com toda a verdade,do que se passava nesse espaço e nos contíguos, o Antro que aí existia,o bar ilegal e os restos de negócios…..
Uma história rica mas muito triste pelo final das pessoas envolvidas.
A que haver mudanças na lentidão e burocracia que há quando vidas estão em risco.