
Quando Beto di Ghetto morreu, a 19 de março de 2017, a família preparou um tacho de feijoada para o seu velório. Era um dos pratos favoritos dele, sobretudo feito com feijão congo, à moda de Cabo Verde, de onde vieram os pais, antes de fazerem de Lisboa casa. Mas era um momento duro, de luto profundo, e quase ninguém tocou na comida. Magda Miranda, uma das irmãs, pensou naquilo que Beto desejaria e pôs mãos à obra: juntaram-se e foram distribuir a feijoada pelas pessoas em situação de sem-abrigo nas redondezas.
Beto era essa pessoa.
“Era de se descalçar e oferecer os seus sapatos se encontrasse alguém na rua sem eles”, conta Magda. “Era capaz de vir para casa sem t-shirt porque tinha oferecido a não sei quem. Muitas vezes estávamos em casa, a dormir, e acordávamos a ouvir tachos e panelas. Quando íamos à cozinha, estava ele com um monte de gente para lhes dar de comer. Sempre foi assim. Andávamos na rua e ele tinha que parar, sentar-se e dar de comer a um sem-abrigo, falar com ele para conhecer a sua história de vida”, remata.

Mas estas são as histórias que a família, os amigos próximos e o bairro conheciam. O legado dele ficou sobretudo marcado nas gerações seguintes através de álbuns e listas de música. É que Beto foi um rapper influente, em palco um performer nato, conhecido pelo seu carisma e à vontade.
Subia a palco sempre preocupado com a transmissão de uma mensagem e a reforçar o papel transformador que a palavra poderia ter no hip hop. Ambicionava a união — no seu bairro, Chelas, mas também no conjunto das periferias, ou no seio da comunidade negra. Para onde quer que fosse, levava o nome do bairro com ele e isso marcou Chelas até hoje.
Eterno sonhador, deu a mão a todos quanto pôde, sempre em busca de potenciar talentos, e no fim era ele quem mais precisava de salvação. Esta é a sua história.
Entre a Zona J e França
Filho de cabo-verdianos, nasceu em Portugal a 11 de janeiro de 1982. Beto é o diminutivo de Felisberto. Pereira Tavares eram os seus apelidos. Cresceu na Zona J, em Chelas, numa família com muitos irmãos, tanto do lado do pai como da mãe.
“O Beto era o mentor de todas as nossas brincadeiras”, recorda Magda, três anos mais nova do que o seu irmão “reguila”. “Sempre teve o dom da liderança. E o que ele decidisse… Íamos todos atrás.” Dava-se bem com toda a gente. “Não havia ninguém que não o conhecesse, a casa da minha mãe tinha porta aberta. Havia sempre um grupo de amigos a entrar e a sair, de todos os bairros.”
Levou tudo isso que ele era para o rap, que conheceu muito cedo.



Tinha uns oito anos quando começou a rimar com um amigo da catequese, Valentim. Partilhavam um rádio a pilhas, e mesmo sem compreenderem as letras em inglês das canções norte-americanas, gostavam dos instrumentais e da atitude dos rappers. Começaram a imitá-los como conseguiam.
A música já lhe corria no sangue. Afinal, Beto é sobrinho de Mário Lúcio, músico e poeta que foi Ministro da Cultura de Cabo Verde entre 2011 e 2016; e do seu irmão Princezito, um dos mais aclamados músicos tradicionais do arquipélago africano.
Por volta dos 13 anos, Beto muda-se para França, onde tinha família do lado do pai.
Passou lá a sua adolescência e foi quando descobriu de facto a cultura hip hop, que na década de 1990 borbulhava em força no país. Aos poucos, foi aprofundando os conhecimentos. “Já estava lá o nosso irmão mais velho e a vida deles era a música, o hip hop”, conta José Tavares, outro irmão de Beto, 10 meses mais novo, que na música assina como DaGuida.
O início da jornada com Sam The Kid
Quando Beto volta a Portugal, algures entre 1999 e 2000, uma das primeiras pessoas que conhece é Sam The Kid. Também de Chelas, morador na Zona I, Samuel Mira era três anos mais velho e já tinha lançado o seu álbum de estreia, Entre(tanto). Os dois foram apresentados por um amigo em comum, João Guerra.
“Lembro-me perfeitamente de quando o conheci”, recorda Sam The Kid. “Estávamos debaixo do meu prédio e conheci logo uma pessoa que me parecia muito experiente no rap. Parece que nunca testemunhei a fase inicial do Beto.” Embora, naquela altura, nunca tivesse gravado qualquer música ou dado qualquer concerto.
SAM THE KID
“Ele rappou logo ali na rua, e eu adorei. Decidimos logo fazer música juntos. Fiquei muito surpreendido porque, durante anos, eu era a pessoa que tentava encontrar grandes talentos em Chelas e, infelizmente, por uma razão ou outra, era muito difícil. As pessoas não estavam muito para aí viradas. Os hustlers, o pessoal da rua, achavam que era um caminho que não traria dinheiro. Então tinhas de ser mesmo um apaixonado pela cultura ou pela arte de fazer rap. Às vezes há aquelas pessoas de que nós dizemos: ‘isto nasceu contigo’. O Beto era essa pessoa”, conta.
Foi também nessa fase que conheceu aquele que se tornaria num dos seus maiores companheiros no hip hop, Syer. “Devo tê-lo conhecido no Bairro Alto, naqueles momentos de improviso na rua”, relembra Ricardo Guerreiro. “Naquele tempo a malta juntava-se toda e tínhamos muito amigos em comum. E nós tivemos uma ligação muito rápida, uma química muito grande.”
A primeira vez que Beto di Ghetto grava um tema é no famoso “quarto mágico” de Sam The Kid. Os dois rappers uniram esforços numa faixa que levantava diversas questões. “Talvez”, assim se chamava a canção, entrou no segundo álbum de Samuel Mira, “Sobre(tudo)”, editado em 2002.
Ainda antes de o álbum sair, Sam The Kid levou Beto enquanto convidado para um concerto que deu em 2001 no Palco 6, no Parque das Nações. Estrearam a canção ao vivo, numa altura em que não fazia grande diferença se os temas interpretados nos espetáculos já tinham saído ou não, pois nenhum deles era conhecido nem existiam grandes êxitos.
“Quis mostrar um talento. Tirando as pessoas do bairro, ninguém conhecia o Beto na altura”, recorda Sam The Kid, assumindo-se “extremamente orgulhoso” por ter apresentado Beto di Ghetto ao movimento hip hop. “E, na primeira vez que ele se dá a conhecer às pessoas, ele conquista-as de uma maneira incrível. É de uma forma gradual, em que o verso está a ser cada vez mais interessante, até ele acabar e as pessoas estarem em êxtase e a saltarem e a celebrarem uma pessoa que acabaram de conhecer. Conquistou o público de uma forma genuína.”

Beto era um habitual nas sessões de rap no quarto de Sam The Kid. O rapper e produtor costumava receber em sua casa uma série de amigos que iam usando os seus beats — alguns resultavam mesmo em temas editados em disco; noutros casos era quase como ir aos treinos de rimas.
“Eu punha beats e depois gravava em cassete os improvisos que eles davam, ou as letras que eles tinham. Também era uma forma para eles praticarem certas letras, e o Beto fazia muito isso.” Alguns versos de “Nasci na Ghetto”, que se tornaria o seu grande hino, já estavam presentes nestes momentos informais de convívio com os instrumentais produzidos por Sam. “O Beto tinha bastantes beats meus e por uma razão ou outra nunca gravou em muitos.”




O EP que nunca foi lançado a sério
Na altura, o DJ que acompanhava (e continua a acompanhar) Sam The Kid nos concertos, Cruzfader, tinha uma editora independente, a Encruzilhada. Editou discos de Regula, Kacetado e Tekilla. Quem também trabalhava num projeto para ser lançado por esta editora era Beto di Ghetto. Mas o disco acabou por não se concretizar.
“O Beto tinha essa vontade, mas talvez lhe faltasse alguma disciplina, ou talvez a vida não lhe permitia estar focado a 100% para que isso acontecesse. Porque, realmente, o DJ Cruz deu-lhe essa oportunidade e as condições para as coisas acontecerem”, lembra Sam The Kid.
Por essa altura, Syer já acompanhava Beto e estava presente nas sessões de estúdio que aconteciam no Konpasso, no Carregado. “Ele tinha uma cadência muito diferente dos outros: ele rima onde não era suposto estar a rimar. Mas isso era o estilo dele, era isso que lhe dava a identidade.”
Sam The Kid comenta no mesmo sentido: “Ele gravava vários takes e encaixava a sua letra em momentos diferentes do beat. Ainda hoje não sei se isso era ingenuidade ou uma genialidade consciente, de alguém que estava a experimentar”.
Syer e Beto tinham-se aproximado quando apanhavam o mesmo autocarro de Lisboa para a Póvoa de Santo Adrião. Beto ia visitar a mãe do seu primeiro filho, Sandro; Syer tinha uma namorada que por coincidência morava na mesma rua. Ricardo Guerreiro fazia parte de um grupo chamado Dominus Família e, onde fossem atuar, tentavam levar Beto. O mesmo acontecia em sentido contrário.
Embora o EP de Beto di Ghetto nunca se tenha concretizado à séria, Beto acabou por lançar os temas gravados de maneira informal. Ele e Syer gravaram as canções em cassetes e CD-R e distribuíram-nos, eventualmente chegando à internet. O disco tinha como título “Inspiração Interna”, mas o nome nunca chegou à grande maioria das pessoas que ouviram as faixas. Houve uma, em particular, que se destacou — e logo a que os juntava aos dois: Dois Homens Duas Vidas foi um pequeno êxito.
“Lembro-me de ir a Chelas nessa altura, e o Beto dizer: olha, este é o Syer, o gajo que cantou comigo naquele som. E havia gajos nos carros, nos cafés, em todo o lado, a fazerem uma grande festa”, recorda Syer, tendo ficado muito surpreendido com o impacto do tema na época. “Rodámos o país todo com aquele som.”
Durante alguns anos, atuaram juntos quase todas as semanas. Iam a escolas, a pequenas associações de bairros, por vezes a discotecas. Com eles também ia Tchapo, rapper da Zona J que havia crescido com Beto e com quem partilhava o tema “Idade dos Sonhos”, curiosamente com um instrumental produzido por Sam The Kid. Acima de tudo, estes jovens artistas queriam divertir-se e faziam hip hop pelo amor à camisola.

“Nós queríamos era tocar ao vivo. Às vezes pagavam-nos o transporte, outras vezes não. Algumas vezes houve cachet, mas na maior parte não houve e nós íamos na mesma! Foi muito fixe, andámos anos assim. Não tínhamos carta, costumávamos ir de comboio ou de autocarro e as viagens era só rir e contar histórias”, lembra Syer.
Eram momentos de celebração. Costumavam beber nas viagens e antes dos concertos, embora isso nunca se refletisse em cima do palco, salienta Syer. Mas, ao contrário de si, que por vezes falava dessa vida de alguns excessos nas músicas, Beto tinha o impulso contrário.
“Ele falava sempre no poder da palavra. Para ele, aquilo que nós dizíamos era importante. E nos Dominus eu transmitia muita coisa e ele era o primeiro crítico. ‘Estás maluco, estás a dizer isto? Isso está a incentivar’. E aquilo foi mexendo comigo e percebi que ele tinha razão: o que tu dizes pode mudar uma vida, seja para o bem ou para o mal. Aprendi com ele. Durante muito tempo não compreendia… Estamos aqui os dois a beber, porque é que não posso falar sobre isso na música? Ele nunca falava sobre isso nas músicas dele.”
Ligado à família, Beto tinha o hábito invulgar para um rapper de partilhar as letras deles com os irmãos para que pudessem de algum modo ser aprovadas — ou aprimoradas — antes de serem apresentadas ao mundo.
“Ele escrevia e depois chamava os irmãos para avaliarmos todos”, conta a irmã Magda. “Depois ficava com um ar de ‘o que é que vai sair daqui?’. Cada um de nós tinha uma maneira diferente de reagir. Eu sou a irmã que procura sempre não ferir ninguém, então tento sempre usar uma maneira de falar para que… Digamos que temos irmãs mais críticas”, ri-se.
“E não era fácil agradar a todos, cada um com o seu feitio”, diz DaGuida.

A segunda colaboração com Sam The Kid
Depois de ter participado em “Sobre(tudo)”, Beto di Ghetto viria também a entrar no terceiro álbum de Sam The Kid. “Quantidades” era a faixa que acabou relegada para a reedição de “Pratica(mente)”, que só viu a luz do dia em 2008, embora estivesse inicialmente planeada para o álbum original. “Lembro-me de ele estar mesmo feliz por estarmos a gravar num estúdio a sério, com ele ainda a escrever algumas coisas no momento”, conta Samuel Mira.
Chegaram a gravar imagens para o videoclip do tema, numa noite de contornos épicos que Sam The Kid tem em conta como um dos melhores dias da sua vida, mas o vídeo nunca se chegou a materializar.
“Uma das melhores noites da minha vida foi com o Beto. Foi quando o Super Shor decide ir com a câmara seguir-me durante um dia. Começou num concerto de 1-Uik Project na Gulbenkian, fui lá dar uma perninha. Depois voltamos a minha casa. Eu já tinha combinado com o Beto, porque nesse dia estava a acontecer o campeonato do mundo de fogo de artifício na Expo e via-se perfeitamente do meu telhado. ‘Beto, aparece na minha casa às tantas horas para irmos ao meu telhado e termos como background o campeonato do mundo de fogo de artifício’.”
Gravaram as imagens, mas de algum modo acabaram perdidas e “Quantidades” nunca teve o seu ambicionado videoclip. “Ainda nessa noite, decidimos ir para o Bairro Alto. E eu levo um gravador com um CD com uns 40 beats meus. Foi incrível. Eu levava os beats e foi rimar a noite toda. Mal entramos no Bairro Alto, começamos a fazer uma cypher e éramos três ou quatro. Depois íamos para outro sítio e a multidão ia ficando cada vez maior. Era tanta gente já a seguir aquele rádio que tinha os beats. Lembro-me de estarmos a rimar a noite toda, numa comunhão espetacular”, recorda um nostálgico Sam The Kid.
O aguardado álbum de estreia
A democratização dos meios fez com que muitos artistas e estruturas independentes pudessem começar a gravar e a editar os seus próprios projetos de forma mais acessível. Depois de muitos anos sem um espaço fixo, Beto di Ghetto encontrou no estúdio da Headstart Records uma casa para gravar o seu primeiro álbum, “[Alfa]Beto di Ghetto”, que seria editado em 2012.
O disco continha o seu mais célebre tema, “Nasci na Ghetto”, mas também faixas como “Pai Dedicado”, onde falava da sua relação com os filhos, e “Undi Nha Chelas”, onde apelava à união do seu bairro, esmagando as rivalidades que poderiam existir entre as diferentes zonas de letras distintas.

“Chelas é dividida por zonas e sempre houve alguma rivalidade”, explica Syer. “Mas com ele não. Onde ele andasse era sempre recebido com o mesmo carinho, via-se que as pessoas gostavam dele, era uma pessoa mega carismática.”
O facto de nem sempre o seu apelo de união ter sido considerado fez com que Beto deixasse inclusive de interpretar aquele tema nos concertos. “O objetivo dele era unir e como existiam essas pequenas rivalidades… Ele também era esse gajo: OK, agora vou-vos castigar, não vou cantar este som porque vocês não estão unidos”, explica Syer. Beto costumava ler a sala e redefinir o alinhamento antes de cada concerto consoante o público, conta o rapper amigo.
Para Sam The Kid, ouvir o primeiro álbum de Beto di Ghetto soube a um “finalmente” dito com alívio. Afinal, logo em “Talvez”, editada uma década antes, Samuel Mira rimava: “porquê, porque é que o Beto não tem um CD?” “E ver acontecer foi algo que me deixou muito feliz.”
Um momento especial aconteceu quando foi apresentar o álbum a Cabo Verde, o país de origem dos pais. “Ele voltou de boca aberta. Não tinha noção que o nome dele já era bastante reconhecido lá. Ficou incrédulo”, recorda Magda Miranda.
“Quando ele voltou disse mesmo: eu vim, mas vou arrumar as minhas coisas e vou para África. Ficou encantado. Ele nunca tinha cantado para tanta gente como na ilha de Santiago. Ele falava com os olhos a brilhar, estava a viver o sonho.”

Um monstro de palco
Beto di Ghetto tornou-se conhecido como performer nato. “Ele no palco estava em casa”, recorda Sam The Kid. “Até podia não ter grande experiência, mas parecia que já tinha anos daquilo. De olhar as pessoas nos olhos e não se enganar em nenhum momento. Não se sentia intimidado nem nervoso, apenas uma grande fome e uma vontade de passar uma mensagem. Tu conseguias sentir a intenção dele só com o olhar. E isso para mim é a definição de alguém que nasceu para isto.”
Syer lembra-se de atuar com Beto, “olhos nos olhos”, da mesma maneira como o companheiro encarava o público. “Há artistas que olham para o vazio, mas ele olhava mesmo nos olhos de cada pessoa.”
DaGuida acrescenta: “O Beto era daqueles MCs que viviam o que escrevia. Ele em cima do palco cantava e ria-se, porque eram coisas por que ele passou. Estava a cantar e começava-se a rir, porque se lembrava. E ele transformava-se. O Beto não era tímido, sempre foi muito alegre, mas em cima do palco era um monstro total”.
Sam The Kid conta como nunca conseguiu decifrar de onde Beto bebia, de qual era a sua escola. “Ele batia no peito; ou seja, em vez de procurar um beatbox, fazia o seu próprio beatbox no corpo enquanto rimava. Isso é uma coisa que nunca vi ninguém fazer, não sei onde é que ele foi buscar isso. Ele tinha ad-libs diferentes, fazia onomatopeias diferentes. Não consigo identificar onde é que ele foi beber para criar o seu estilo. Ele é um líder nesse sentido, uma pessoa super original em tudo.”

Uma influência para todos aqueles com quem se cruzou
Outra característica que todos apontam a Beto é o facto de ter sido uma influência positiva para tantos. Sempre que descobria alguém em quem reconhecia talento, fazia de tudo para incentivar essa pessoa a seguir a música.
“O sonho dele era ter toda a gente unida. Claro que a certa altura percebes que isso não é possível, mas ele foi resgatando — que era uma palavra que ele usava muito — as pessoas que estavam perdidas, muitos deles rappers… ‘bora, Syer, vamos levar este ou aquele ao concerto. E muitas vezes fizemos isso”, recorda Ricardo Guerreiro.
G Fema, outra rapper da Zona J, criada com Beto e Tchapo, começou a fazer música por volta de 2004, aos 23 anos, graças à influência direta de Beto, seu primo distante. “Cada vez que ele tinha um concerto chamava-me para participar. Apoiou-me muito, foi uma inspiração para mim. Sempre me motivou e me deu mais alento para continuar na área da música.”
Além disso, sublinha, sempre que dá um concerto pensa na sua figura. “Em palco sinto que me transformo um pouco nele. A maneira de ele se expressar em cima do palco… Hoje também o faço. Era aquilo de que mais gostava nele enquanto músico, a presença dele.” Nunca chegaram a gravar uma faixa, mas falaram sobre fazerem um projeto juntos.

Aos 21 anos, Dezinho é um dos rappers da nova geração de Chelas. Também ele da Zona J, conheceu Beto muito cedo uma vez que o tio, João Guerra, era um bom amigo do rapper. “Acabou por se tornar conhecido da minha família. A minha mãe sempre se deu muito com a mãe do filho dele, então o Beto sempre esteve presente”, explica.
O primeiro CD de rap que teve foi precisamente “[Alfa]Beto di Ghetto”. “Ele autografou e tudo”, recorda Dezinho. “Teve sempre uma grande influência no meu percurso, não só por ser o nome que é no hip hop, mas também por representar a mesma zona que eu e partilharmos de algumas ideias. Sobretudo por lutar pela ideia de não haver zonas divididas em Chelas. Chelas é Chelas. Eu também partilho desse pensamento. Toda a luta pelo nosso bairro, que tivemos contra a discriminação, para sermos vistos de uma melhor forma e mais bem apresentados nos media, não sermos só aquele bairro associado a roubos e a tráfico, ele sempre lutou para que o bairro fosse bem visto.”
Hoje, continua a ouvir os seus temas quase diariamente. “O Beto era uma pessoa muito sorridente, muito pés na terra, e transmitia muito uma mensagem para acreditares em ti. Lembro-me de que, na altura, ele já dizia para eu acreditar em mim — e eu nem tinha ainda nenhuma repercussão da música e da cultura hip hop.”
Homem de fé, algo notório nos seus temas e nas mensagens de esperança e superação que sempre transmitiu, Beto teve durante o seu percurso uma postura humanista, promovendo um espírito constante de entreajuda. Daí, lá está, ajudar todos aqueles com quem se cruzava.
“Ele vivenciou a rua, então sabia o que era. Foi isso que ele me ensinou sempre. Ele não se interessava muito pelo teu status, se és um gajo famoso ou não, isso não interessa. Ele via energias. Se a tua energia lhe passasse alguma coisa, ele estava contigo. Ele não ignorava alguém que estivesse a pedir na rua, alguém que viesse pedir um cigarro. Ele teve sempre esse lado social”, relata Syer.
Além disso, era muito procurado para dar conselhos, pois parecia ter sempre as palavras certas. “Mesmo quando já vivia com a mulher, as pessoas iam a casa dele só pedir conselhos. Assisti muitas vezes a isso. E eu perguntava-lhe: mas sabes dar um conselho? E ele dizia: às vezes sei, outras vezes não, mas tento sempre ajudar. Tenho a certeza de que, com quem ele se cruzou, nem que seja só para ter uma conversa, nunca mais se esqueceu. Ele marcava-te logo.”
Sam The Kid chegava a gravar conversas com Beto para captar frases marcantes que pudessem mais tarde ser usadas em disco. “Tinha words of wisdom, com muita sabedoria. A sabedoria de um profeta mesmo. Tenho muitas saudades dessas conversas.”
Um Beto de todos os guetos
Na fase derradeira da carreira, Beto estava mais profissional do que nunca.
Depois de tirar um curso de produção de eventos, uma área que pretendia seguir, arranjou material de som e costumava ensaiar em casa com Syer. “Nunca tivemos nenhum agente, mas tentávamos procurar as melhores condições. E, se os convidados quisessem participar no concerto, também tinham de vir aos ensaios. Era uma forma de o Beto puxar pelas pessoas e trazê-las para a música.”
Foi em 2014 que encetou a colaboração mais inesperada da sua trajetória. Beto di Ghetto entrou no EP “O Meu Mundo”, o disco de estreia do célebre ator Ricardo Carriço, com quem travou uma forte amizade, tendo chegado a atuar juntos.
Era mesmo por se dar bem com todos e de ter a união como grande objetivo que se tornou Beto di Ghetto de nome artístico, sublinha a irmã Magda. “Ele entrava em todo o lado, desde Cascais ao bairro mais reles. Nós sabemos que existem rivalidades entre bairros, mas com ele não. Ele queria que existisse sempre uma união, até entre nós, imigrantes africanos. Que não fosse como hoje em dia é.” E “muitas das conversas que tínhamos era sobre nós, enquanto pessoas pobres, não fazermos algo para sairmos dali. Ele tentava sempre unir”.
Syer lembra ainda “um grande respeito que ele tinha nas ruas”. “Cada vez que entrava num bairro sentias o respeito e a música dele foi passando assim. Onde eu senti aquilo a mexer foi nas ruas, no boca a boca, de ele chegar sempre com a sua mochila com os CD, e muitas vezes oferecia-os. Claro que não era fixe para a parte do negócio, mas ele era esta pessoa.”
Por tanto rimar em português como em crioulo — também na língua representava essa união — inspirou muitos, de diferentes estilos e gerações. “Para a comunidade de bairros pobres, acho que o Beto é e sempre será uma influência no hip hop e para toda a luta do dia a dia dos bairros sociais. Acho que é intemporal”, diz Dezinho.
“O Beto deixa um legado muito forte. Quem o conheceu, quem ouviu a música dele, ficou marcado. Quem presenciou um show dele, ainda mais marcado ficou e será um momento que não irá esquecer de certeza”, defende Sam The Kid. “Será sempre uma referência no rap lusófono.”

Deixou quatro filhos, que a família tenta apoiar através da venda de merchandising de Beto di Ghetto. Um deles tornar-se-ia mesmo rapper. Na música, assina como RealBoss Criminel. Atualmente vive em França, com a família do pai, onde pretende seguir a área da música. Mas, claro, começou a rimar em Chelas, sobretudo no circuito do drill, um subgénero contemporâneo do rap mais ligado a uma vida de rua.
“Os meus amigos começaram a incentivar-me, porque diziam que eu era bom”, conta. “E, até agora, acho que, da minha idade, nenhum tem assim a capacidade que tenho para fazer música. Muitos estão só na ilusão do drill, não têm a mente aberta. Nós de Chelas temos a mente mais aberta para o real rap, porque já há muitas pessoas que vêm antes de nós: o Tchapo, o meu pai, o Sam The Kid”, aponta.
Durante anos, não ouviu as músicas do pai. Era demasiado duro. “Não conseguia.” E foi precisamente quando Beto faleceu que começou a fazer música. “Muita gente dizia: segue a cena do teu pai, tu és bom. Às vezes tu ouves mas pensas que não te está a entrar, mas depois vês que entrou e que faz sentido o que as pessoas estavam a dizer. Agora estou mais focado no rap, estou a desviar-me do drill. Já nem estou com a cabeça nisso. E sei que vai dar certo”, diz.
“A maior homenagem que qualquer pessoa pode fazer por ele é não deixá-lo esquecer”
Quando Beto di Ghetto tirou a própria vida, foi um choque para todos.
A família sabia que lidava com pensamentos suicidas e que as coisas não estavam bem, mas nunca poderiam esperar aquele desfecho. No seu álbum, editado alguns anos antes, Beto tinha abordado muito diretamente o assunto no tema “Será Que Já Pensaste”, tentando deixar uma mensagem de esperança a todos aqueles que lidavam com pensamentos suicidas. Talvez estivesse também a escrever para si próprio. No passado, já perdera uma antiga namorada e dois tios desta forma. Beto tinha os seus fantasmas.
“Ele fazia muitas coisas, não via logo o resultado e isso mexia muito com ele, ficava revoltado”, recorda DaGuida. “Eu dizia-lhe muitas vezes: Beto, uma pessoa não muda o mundo. Vai com calma.”
Pelo caminho ficaram diversas músicas nunca lançadas, versos nunca gravados e um caderno com inúmeros escritos. Para a família, ainda é demasiado cedo para mergulhar a fundo naquilo que Beto deixou.
“O Beto tinha muito trabalho que infelizmente não saiu, e que ia fazer uma grande mudança, uma revolução na música”, acredita DaGuida. “O álbum que ele lançou era apenas o início, era só abrir a porta com calma. Ele tem uma que ia sair que era ‘Deus Ku Din’. Quando ele acabou a letra, ligou-me, eram duas ou três da manhã, e disse-me: o ‘Nasci na Ghetto’ já era, tenho aqui uma música que vai mudar tudo. E ele cantou-ma. Estava brutal. Depois de o Beto morrer, aquela música não me saía da cabeça. E ‘Deus Ku Din’ é ‘Deus Me Acuda’. Ele estava a pedir ajuda. Mas como é música, muitas vezes passa-nos ao lado.”
Os dois estavam também a trabalhar num álbum, algo que DaGuida deseja ainda concretizar. “Estou a tentar fazer o álbum que nunca chegámos a fazer. Tenho duas músicas já mais ou menos estruturadas, mas dá bastante trabalhinho. Não por causa das questões técnicas: o trabalho é a fasquia que ele deixou.”
Syer partilha uma ambição idêntica. “O que eu gostava mesmo de fazer, e é um plano que eu e o Tchapo temos, é fazer um álbum com o Beto. Porque sempre quisemos fazer um álbum os três, foi sempre a ideia do Beto. Era o que eu gostava mesmo de fazer, um álbum em que ele estivesse presente, pelas coisas que o DaGuida tem, os arquivos que existem. Nem precisa de ser tudo cantado, pode ser uma gravação dele a falar, o que for. Mas para isso tenho de me sentar com o DaGuida, absorver o arquivo, e acredito que ninguém tenha feito esse processo ainda, porque é difícil rever isto. O meu pensamento sempre foi: vou deixar a família absorver. Quando sentirmos que estamos preparados para esse momento, fazemos.”
Syer continua a gravar e a editar música, mantendo Beto presente nas suas canções, nem que seja com uma frase inspiradora das muitas que o seu amigo lhe dizia. “Nos meus projetos tento sempre envolver o Beto de alguma forma. Sinto que está presente comigo. O que eu sinto mais pena é obviamente de ele não estar aqui comigo. Mas também é o facto de hoje ter as condições que tenho, de ter o meu próprio estúdio, e se ele estivesse aqui agora, eu e ele com um estúdio, o que é que poderíamos fazer? Íamos fazer muito mais do que aquilo que já tínhamos feito.”
Após a morte de Beto di Ghetto, um dos mais importantes rappers portugueses, Allen Halloween, promoveu um concerto de homenagem no Titanic Sur Mer, em Lisboa, com uma série de atuações. Com a presença de inúmeros artistas, de todos os bairros da capital e arredores, aquela noite acabou por simbolizar a união que Beto tanto almejava.
“Por vezes há atritos ou confusões, mas não houve nada. Eles consciencializaram-se. Havia pessoas de toda a parte de Lisboa e arredores. Juntou todos os bairros”, recorda Magda Miranda, mencionando outros tributos que entretanto também se realizaram, como canções que lhe foram dedicadas.
“Qualquer homenagem é válida, que ele nunca seja esquecido. Os nossos filhos que vieram a nascer depois de ele já não estar aqui… Falamos constantemente sobre ele. Tenho o meu pequenino de dois anos a cantar o ‘Hardcore’ do tio Beto. Ponho no carro e ele está a dar à cabeça. Só o conhece por foto, mas fala dele. Tentamos que saibam sempre quem foi. Essa é a maior homenagem que qualquer pessoa pode fazer por ele: não o deixar esquecer.”
Este trabalho foi realizado em conjunto com Gonçalo Moreira, correspondente de Chelas durante a semana em que a Mensagem mudou a redação para este bairro, com o Projeto Narrativas.
Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui


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