Já não sei a que propósito, fui ter com o Hélio ao Oriente às duas da manhã. Sei que não foi a esse propósito. Ele é que trabalhava até tarde, e eu era leitora noite dentro. Nenhuns lençóis me viam antes das quatro. Nessa fase da minha vida, que foi tão boa, acordava finda a manhã e passava a tarde a trabalhar na Biblioteca Nacional.
Àquela hora, fora as bombas de gasolina, estava tudo fechado. Como as achávamos deprimentes, escolhemos um caminho mais deprimente ainda, e lá demos por nós no Casino às tantas. Lembro-me bem do frio e do vento a bater-nos contra a pele.
“Deve ser animado”, disse o Hélio. Eu discordei mas entrei com ele. E, contra o escuro da noite a fechar-se sobre nós, abriu-se um lugar onde havia vida, o que não queria dizer que não houvesse morte. E os autómatos que lá estavam, sendo mortos-vivos, mexiam-se devagar em busca de qualquer coisa que matasse a compulsão.
Ora, eu nunca tinha estado num casino. Causa-me ansiedade gastar dinheiro a mais, quanto mais deitá-lo fora, e mais ainda não conseguir deixar de o deitar fora. Quem lá estava parecia comido por uma ilusão ou por movimentos robóticos que não deixavam parar. Em frente à manivela, o caminho era sempre o mesmo: perder uma moeda, usar o braço, perder outra moeda. O dinheiro fluía, sempre para o mesmo lado, mas quem o perdia nem aflito parecia. Recebida a derrota, fazia a mesma coisa só para perder outra vez. Os olhos eram os de quem já tinha partido há muito para outra coisa muito longe. Estavam vidrados na sua compulsão.
O ambiente era outro, claro, mas achei-o demasiado parecido com certas madrugadas no Cais do Sodré. Das primeira vezes que lá fui, andava eu pelos 19, nunca tinha visto tanta gente embriagada junta, e nunca tinha visto tantos olhos quase sem gente lá dentro. Isto para um abstémio custa mais. E então o sol chegava e os vivos, já comidos pelo álcool, também ali me sabiam a vivos que já estavam mortos. Para quê viver uma noite, se o álcool rouba a memória, se o estômago fica pesado, se o dia seguinte custa mais a passar? A ideia de que é bom o que entorpece os sentidos ou os solta ou eu sei lá foi uma patranha que a literatura inventou, seja pelo absinto de Fernando Pessoa, seja por sei lá o que é que o Burroughs metia para o corpo. Comigo, a vida sempre funcionou ao contrário – sempre gostei de olhos claros que vissem com clareza.
Ora, chegada ao casino, claro que aquilo tinha o seu quê de literário, só por ter vida lá dentro – ainda que essa vida seja o que já escrevi que era. Há qualquer coisa na perdição que atrai quem quer escrever, mesmo que cause repulsa no mesmo movimento. Por vezes, é a própria repulsa que leva à escrita, e é frequentemente permeada pelo medo. Nasci em 1990, sou da geração que leu “A lua de Joana” vez após vez. Esse livro de Maria Teresa Maia González é o maior antídoto que vi para as drogas e os olhares perdidos: um miúdo fuma um charro e acabam todos mortos. Também ali, se bem me lembro, a Joana descrevia o que acontece a um olhar consumido pelo vício. Criança, deixei-me impressionar, e décadas depois continuei impressionada.
Lá dei por lá umas voltas com o Hélio. Não me saiu nada do bolso, mas vi-o a lançar umas notas de vinte euros. No fim, gastou 80 paus: nota atrás de nota atrás de nota atrás de nota. Isto demorou uns segundos, acho que nem chegou a minutos, e nem serviu para se divertir. Pelo contrário, a vida ainda lhe doía por causa da mulher que não o queria. Foi mesmo só despejar dinheiro. Entrámos e saímos e quem estava à nossa chegada continuou à nossa saída. O vício era mesmo assim e, pelos vistos, também ninguém se divertia. Em frente às máquinas, os corpos pareciam mais magros de ânimo ou esperança ou eu sei lá. A única coisa que engordava ali eram os bolsos do casino.
Já em casa, custou-me a adormecer. Sempre me causou medo o que me pudesse tirar de mim, e não é que ser eu seja grande coisa, embora sempre seja melhor do que não ser. Os olhares vítreos tinham-me chocado. E, no meio disto, admito que o mais chocante nem foi o vício a comer a vida, mas uma senhora que passou por nós pelas quatro da manhã. Também ela parecia levada por aquilo, mas o pior era o que levava na mão: um capacete de mota com orelhas de gato. Talvez seja a maior prova de que alguém já desistiu da vida e do bom gosto.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
