Na Rua da Mouraria, há um edifício esquecido cujo letreiro ainda assinala o passado: “Salão Lisboa”, pode ler-se na fachada Art Déco. Nele, hoje funciona uma loja de roupa. Mas era ali que dantes acudiam as gentes da Mouraria, sedentas por ver os novos filmes que chegavam ao Salão Lisboa, um dos primeiros cinemas construídos na cidade. Fechou nos anos 70 e, por estes dias, a fachada tem estado diferente: nela surgiu um grande anúncio afixado no edifício onde se lê “Vende-se/For Sale“.

Os comerciantes da loja de roupa, da empresa Lendas & Canções, Lda., dizem desconhecer o futuro deste edifício, não tendo sido notificadas da venda. Mas, depois de contactar o e-mail no anúncio, a Mensagem acompanhou um encontro entre um dos proprietários do edifício e quatro potenciais compradores (na sua maioria ligados ao ramo imobiliário), para descobrir que futuro se espera para este lugar histórico na cidade que animava a Mouraria com westerns e filmes de ação no século XX.

O que descobrimos?

Em causa estará a venda do edifício e do logradouro anexo, propriedade de Eugénia Teles da Silva, Condessa de Tarouca, que morreu na década de 1940. Hoje, estes terrenos são partilhados por cerca de 100 herdeiros da família Teles da Silva. E, depois de um impasse de anos entre eles, com o edifício ocupado por lojas desde o fecho do cinema, a família decidiu pô-lo à venda, para lhe dar nova vida.

O escritório de advogados Varela de Matos & Associados, que está a acompanhar a família neste processo, conta que, perante o atraso no pagamento das rendas por parte das lojistas, está neste momento a decorrer um processo judicial de despejo para anular o atual contrato de arrendamento do edifício. A loja de roupa que lá existe terá que sair, garantem. Mas os comerciantes dizem ainda não saber de nada.

Já o terreno do logradouro encontra-se desonerado, tendo sido submetido um Pedido de Informação Prévia na Câmara Municipal para se avaliar a viabilidade construtiva do mesmo.

O objetivo final, avança a Varela de Matos & Associados, é vender os terrenos “ao melhor preço”, sendo possível vender edifício e logradouro separadamente.

Foto: Inês Leote

Mas pode este edifício histórico ser vendido sem critério de futuro? O Salão Lisboa não tem nenhuma proteção legal, apesar de já ter havido tentativas no passado de o classificar.

Está, sim, abrangido por algumas zonas de proteção (Zona Especial de Proteção do Palácio da Rosa, Zona de Proteção do Castelo de São Jorge e Resto das Cercas de Lisboa, Zona de Proteção da Capela de Nossa Senhora da Saúde/Capela de São Sebastião da Mouraria, Zona de Proteção do Antigo Colégio dos Meninos Orfãos, Recolhimento do Amparo).

Nestas zonas de proteção, não podem ser concedidas licenças para obras de construção que alterem a topografia, os alinhamentos, as cérceas, a distribuição de volumes e coberturas ou o revestimento exterior dos edifícios, sem o parecer da administração do património cultural. Quer isto dizer que, se seguida a lei, o que quer que ocupe o velho Salão Lisboa terá que manter o mesmo embrulho arquitetónico.

Como nasceu o primeiro “cinema piolho” de Lisboa

Para contar esta história, há que recuar ao início do século XX quando Eugénia Teles da Silva, Condessa de Tarouca, concedeu os direitos de construção dos terrenos de que é proprietária na Rua da Mouraria, entre as Escadinhas da Saúde, o Antigo Beco do Cascalho e a Rua das Fontainhas a S. Lourenço, para que ali se construísse um cinema. Uma espécie de mecenato cultural.

Nessa altura, o cinema já vibrava pela cidade de Lisboa.

No dia 18 de junho de 1896, às 20h45, as imagens em movimento chegavam pela primeira vez a Lisboa, projetadas no Real Coliseu de Lisboa, na rua da Palma. Na tela, surgiam bailes parisienses, a ponte nova em Paris, uma loja de barbeiro, um engraxador em Washington.

O fascínio fez-se sentir na capital: salas de espetáculo, como o São Luiz e o Teatro D. Amélia, muniram-se rapidamente de máquinas de projeção para que também ali se projetassem filmes.

O animatógrafo do Rossio, que abriu portas em 1907. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Mas, no início do século XX, este novo fenómeno estava ainda reservado à baixa lisboeta.

Foi por isso que, lentamente, começaram a surgir, nos bairros periféricos da cidade, os chamados “cinemas piolho”: salas precárias, nem sempre com as melhores condições de higiene e salubridade, onde chegavam as fitas dos filmes que tinham passado nas grandes salas.

O primeiro foi precisamente o Salão Lisboa – que muitas fontes históricas dizem também ter sido o primeiro recinto construído com o propósito único de passar filmes.

O Salão Lisboa abriu entre 1915 e 1916, pelas mãos de dois homens para quem o cinema já não era novidade nenhuma: Henrique O’Donnell, funcionário da Companhia dos Tabacos, e Victor Cunha Rosa, empresário da exploração cinematográfica.

Na Rua da Mouraria, nascia um cinema de cariz popular, com sessões às quintas-feiras, aos sábados e aos domingos, e que, apesar da sua construção modesta, era capaz de acolher 510 espectadores. Em 1932, ano em que sofria uma intervenção segundo um projeto do arquiteto António José Pedroso, a revista O Cinéfilo escrevia:

“O ‘Salão Lisboa’, o popular cinema da Rua da Mouraria, reputado, e com razão, um dos mais típicos e curiosos da capital, constitui a alegria das classes pobres do referido bairro. Todas as noites se esgota a sua pequena lotação, sobretudo quando nos seus programas figuram filmes de aventuras. Nesses espetáculos, quase disputados a murro, os seus frequentadores, na sua maioria gente miúda e vivaz, vivem momentos de indiscritível entusiasmo. Como nos gloriosos tempos do mundo, o sonoro, para eles, quase analfabetos, um lindo livro de histórias escrito numa linguagem diversa da sua, conquistou, apesar de tudo, a sua simpatia. Eles não sabem ler… Mas sabem quem é o Bancroft, o Polo, o Tom Mix… Isso basta para os deleitar.” 

O Salão Lisboa. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Quatro anos antes, Henrique O’Donnell e Victor Cunha Rosa tinham estado envolvidos na abertura de um outro cinema: o Olympia.

O Cinema Olympia, no número 27 da rua dos Condes (neste momento em obras para que ali nasça um hotel), foi aliás mandado construir pelo irmão de Henrique O’Donnell, Leopoldo O’Donnell, que, para além de empresário no ramo do cinema, chegou a ser chefe de repartição da Companhia dos Caminhos de Ferro de Portugal. 

Henrique e Leopoldo eram filhos de emigrantes irlandeses radicados em Portugal e, ao longo da vida, dedicaram-se à exploração de cinemas.

O Cinema Olympia. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Quando Leopoldo morreu, em 1941, a revista O Animatógrafo escrevia sobre ele: 

“A Leopoldo O’Donnell, há pouco falecido, ficaram os cinéfilos de ontem e de hoje a dever a intensificação do gosto pelo cinema, a popularidade do espetáculo cinematográfico e, muito principalmente, a visão das obras-primas saídas ao tempo dos estúdios mundiais.

(…) 

Filmes célebres e que ficaram como padrões na história do cinema, e que salões lisboetas de grande classe recusavam por temer o público, desfilaram na tela branca do Olímpia. Época memorável essa – e da qual os cinéfilos da velha guarda conservam gratas recordações – em que visionámos, entre outros, ‘Paraíso roubado’, de Lubitsch, ‘Kean’ com Mosjoukine, ‘Os mestres cantores de Nuremberga’, ‘Chapéu de palha de Itália’ e ‘Nas garras do vento’, de René Clair, ‘Sombras’ e outros, muitos outros que seria fastidioso recordar.

(…) 

Mas não se limitou ao cinema que fundara a atividade do singular animador dos espetáculos cinematográficos. As suas explorações estenderam-se igualmente ao Coliseu dos Recreios e ao Politeama. Foi neste último cinema que O’Donnell estreou o célebre filme ‘A moeda quebrada’ que muitos cinéfilos se recordam com saudade.” 

Mas de volta ao Salão Lisboa.

No livro Martim Moniz, o jornalista Ferreira Fernandes, um dos fundadores da Mensagem, recorda também este cinema, ao evocar o artigo “Uma entrevista com o Arco do Marquês de Alegrete”, assinado por Gustavo de Matos Sequeira com a colaboração de Luiz Pastor de Macedo, e que surgia em 1944 n’Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa.

E porque importa falar disto? É que o Arco do Marquês de Alegrete, um sobrevivente do terramoto de 1755 e assim chamado porque a ele se encostava o Palácio do Marquês de Alegrete, foi objeto de grandes discussões na cidade do século XX por ser considerando um obstáculo ao trânsito. O Palácio do Marquês de Alegrete foi demolido em 1946, já o arco resistiu até 1961… E, nessa “entrevista” de 1944 ao velho Arco, ele próprio desabafava:

Fonte: Olisipo

“Tenho amizade a tudo, às casas que vi nascer, à gente que passa, aos vendedores de elixires que têm tanta graça, ao gentio miúdo do bairro que se encosta a mim e que anda a pairar à minha volta. Gente pobre, alguma ruim, mas tudo amigos velhos. Até tenho amizade ao Salão Lisboa. É novinho, mas traz-me gente; anima-me. E eu gosto de ver muito povo”. 

No mesmo livro, Ferreira Fernandes conta ainda a história de Belarmino Fragoso, o boxeur que seria protagonista do filme “Belarmino”, realizado por Fernando Lopes em 1964.

Foi no Salão Lisboa que um jovem Belarmino tomou a decisão de ir pela primeira vez ao boxe: “Então, numa matiné, no Salão Lisboa, ou melhor, no Piolho, na esquina das escadinhas da Saúde, um compincha desafiou Belarmino a irem aprender a apanhar porrada, ali ao lado, no Grupo Desportivo da Mouraria (GDM). Estudar boxe é um curso útil para quem passou a vida a fugir”, escreve Ferreira Fernandes.  

Um só edifício com tanta vida.

O fim do Salão Lisboa

O Salão Lisboa acabaria por sofrer o mesmo destino que todos os outros cinemas piolho da cidade: com o surgimento da televisão e das videocassetes, as salas de cinema foram perdendo força, vendo-se obrigadas a encerrar.

Então, algures entre os anos 70 e os anos 80 – a CML aponta para o ano de 1971, embora haja quem se lembre de visitar o cinema depois – o Salão Lisboa fechou portas, ainda sob a direção da família O’Donnell, que ainda terá descendentes em Portugal – Pedro Toscano Rico, bisneto de Henrique O’Donnell, diz que é um de sete bisnetos do fundador do Salão Lisboa.

Também o antigo Cine-Estrela, na Charneca do Lumiar, é hoje uma ruína sem destino traçado. O Cinema Popular, em Marvila, foi demolido nos anos 80. O Max Cine, no Alto do Pina, foi vendido em 1968 à Paróquia de São Evangelista. Em 1977, fechou o Cine Oriente, na Penha de França, que seria posteriormente demolido e transformado num conjunto habitacional. E o Cine Texas, nas Galinheiras, está hoje também abandonado.

O blog “Restos de Colecção” conta que o último filme exibido no Salão Lisboa foi o “100 Armas ao Sol”, um western de 1969 com Jim Brown, Burt Reynolds e Raquel Welch. No ano seguinte ao fecho, em 1971, o edifício abria como armazém de revenda, mantendo na fachada o nome “Salão Lisboa”.

Entretanto, seria então transformado numa loja de decoração de tecidos e, mais tarde, na loja de roupa que ainda se encontra em funcionamento.

Numa publicação da Câmara Municipal de Lisboa sobre este antigo cinema, encontram-se comentários de saudade deixados pelos fregueses que o frequentavam: 

“Fui muitas vezes ao ‘Piolho’, ao ‘Sá da Bandeira’, ao ‘Olympia’ e ao cinema ‘Condes’, realmente são saudades desse tempo, que nunca mais volta!”

“No meu tempo chamava-se Piolho, 25 tostões para ver as sessões contínuas, passavam 2 filmes das 15h até às 24h, só havia intervalos entre filmes, como não havia lugares marcados reservávamos a cadeira que era de madeira com o bilhete colado com cuspo, ou um lenço atado. Quando a sessão era interrompida porque a fita partia, ou por qualquer outra anomalia, toda gente gritava: ‘Ó marreco, olha o sono”, batiam os pés e lá se voltava à normalidade da sessão. No meu tempo, o ator principal era o “rapaz” e a atriz “rapariga”, e havia os bandidos. Eram filmes de cowboys e romanos, etc. Que saudades!”. 

Tantos anos depois, os herdeiros dos terrenos do Salão Lisboa decidiram que é altura de dar um outro fim a este espaço. Fica por saber qual será.

Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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