Há muitas coisas que os filhos herdam dos pais, mas não estou certa de que o talento e os dons sejam hereditários. Quando, aliás, por razões ligadas ao meu trabalho de editora, procurei num site da Internet escritores filhos de escritores, a verdade é que a lista, mesmo sem balizas temporais, era bastante curta.
À cabeça encontravam-se, evidentemente, os dois Alexandres Dumas (a minha avó até costumava dizer a brincar «Dumas pai e doutras filho»); e, após uma série de nomes que, na geração mais nova, eram pouco conhecidos (talvez escritores menores nunca cá traduzidos), lá estavam os britânicos Kinglsley e Martin Amis, pai e filho, ambos escritores de grande nível.
Mas a excepcionalidade em gerações sucessivas é difícil de encontrar, seja na literatura, seja noutras artes; e é seguramente por isso que nunca ouvimos falar dos filhos de Mahler, Picasso, Frank Lloyd Wright ou Woody Allen como génios da música, da pintura, da arquitectura ou do cinema, embora possamos achar filhos tão talentosos como os pais em áreas diferentes, como é o caso do pintor Pierre Auguste Renoir e do célebre cineasta Jean Renoir.
Porém, no fado, as coisas parece que se colam a todos os membros da família – pais, filhos, irmãos, sobrinhos, netos… –, como se o sangue da canção de Lisboa circulasse nas veias de todos e de repente brotasse quer em intérpretes, quer em instrumentistas.
No caso de Amália, por exemplo, o pai tocava, a mãe e uma tia cantavam e, além de uma irmã da diva que não chegou a tornar-se conhecida (mas também tinha jeito), a mana Celeste Rodrigues seguiu a tradição familiar de que hoje o seu bisneto Gaspar Varela é o herdeiro: um ilustríssimo guitarrista, diga-se de passagem.
E, por falar de guitarristas, desde os dois Jaime Santos (pai e filho homónimos) até ao trio Parreira (o pai António e os filhos Paulo e Ricardo), os casos abundam: o genial Alcino Frazão, prematuramente desaparecido, era irmão do fadista Carlos Zel, o superdotado José Manuel Neto é filho da fadista Deolinda Rodrigues, e o brilhantíssimo mas discreto Carlos Manuel Proença tem por mãe a fadista Maria Amélia Proença.
São estes dois últimos músicos que acompanham regularmente a maior estrela actual do fado, Camané, que, não por acaso, é irmão de Hélder Moutinho e Pedro Moutinho, ambos… fadistas, claro, arte que aprenderam em crianças com o pai.
Os exemplos em intérpretes são, de resto, muitos: Carlos do Carmo era filho de Lucília do Carmo; Carminho é filha de Teresa Siqueira (e tem irmãos que também cantam o fado); António Noronha é primo de Maria Teresa Noronha, e não há quem não saiba que na família de Vicente da Câmara (sim, o das Tranças Pretas) há muita gente fadista.
Poderemos falar de dinastias? Não sei… Mas lá que o fado se herda é uma verdade indesmentível.

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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