Desci as escadas do prédio, passei pelas senhoras que vendem salsa ao fundo da rua e meti-me na esplanada. Na minha rua, para além de cafés, há uma overdose de lavandarias e duas ou três lojas onde rapazes do Bangladesh vendem fruta e legumes. Nunca dão problemas, e até dá para lá ir safar um Mars quando a vontade de açúcar bate à porta às dez da noite.

Mas era manhã naquele dia. Meti-me a tomar o meu café com adoçante, bica para os nativos. E então chegou um gajo a fazer o mesmo que eu. Gordíssimo e careca, luzia como um porco, e também falava e suava como um. Pôs-se a beber um café ao meu lado, ele e um amigo que chegara entretanto. Assim que começaram a falar, tive vontade de lhes espetar com um ferro em brasa na cabeça. 

Estavam, pasme-se, muito preocupados com o estado do país. E também pareciam preocupados com o Estado do país, que “nos rouba impostos dia e noite”. Olhavam à volta e, ainda que só vissem brancos na esplanada, achavam que não havia brancos em Lisboa. Estavam escandalizados por haver mercearias geridas por estrangeiros, a quem chamavam “banglas”.

Daqui a pouco são eles a mandar nisto – dizia um.

Já são mais que as mães – respondia o outro.

E lá se foi por ali fora, de teoria da conspiração em teoria da conspiração.

Isto vai de mal a pior – atirava o gordo. – Importam monhés a torto e a direito, escumalha que vem do terceiro mundo para aqui meter as mãos nos bolsos. Nos bolsos deles e nos nossos, que somos nós quem lhes paga os subsídios. O Estado dá-lhes casas grátis, mete-lhes dinheiro na conta sem os obrigar a trabalhar. Não é à toa que não ficam nos países deles. Têm de vir para aqui sacar umas massas aos portugueses de bem.

Ora, um português de bem ninguém sabe bem o que é, mas sabe-se que não é isto. O outro continuava na mesma onda:

E vêm aos milhares de cada vez. O povo a trabalhar, os gajos a mamar. Se fosse para trabalhar, ficavam lá no Nepal ou no Bangladesh ou na Índia ou lá o que é. Eu nem sei onde isso fica, sinceramente. O mais longe que fui foi a Paris, e aquilo também é uma bela merda, ainda há lá mais pretos do que aqui. Aqui é o que é. É gozar com o povo. Diz que estão cá uns que fogem das guerras, que isto é gente que se dá toda muito mal uma com a outra. Falta-lhes civismo e falta-lhes uma cultura como a nossa. Se não fossem atrasados, não se metiam aos tiros porque uma tribo rouba uma cabra a outra.

Ya. Portugal até mete nojo hoje em dia. Um país que já foi o que sabemos, que conquistou o mundo, que andou aí metido em navios a mandar em tudo… E agora é o que se vê. Aquilo no Martim Moniz é um pandemónio. Um gajo anda pela rua e cheira a caril e a cominhos. E comem aquelas coisas com as mãos, cheia de molhos, nem sabem o que é uma faca. São de civilizações muito atrasadas. Os gajos até devem chorar quando vêem um computador, e a maior parte deles nem deve saber ler.

E nem é só isso. O pior nem é isso. Metem-se com as nossas mulheres e ninguém lhes faz nada. As gajas ali nem podem andar descansadas. Mas a extrema-esquerda obriga o povo a meter a cabeça entre as orelhas, e ainda acham que isso é que é respeitar outras culturas. Vão mas é para o raio que os parta com as outras culturas. Os gajos estão é habituados a fazer cenas dessas lá na terra deles, mas não temos de gramar essas merdas aqui.

Um dizia, o outro continuava. Parecia um monólogo a dividir por dois.

As mulheres dos gajos não lhes chegam, e isto é lá da religião deles, do Moamá ou lá o que é, que os deixa casar com seis ou sete.

O outro riu-se como um ogre.

Isso para nós nem era má ideia. – Parou de rir. – Mas o que mete mesmo nojo é andarem a querer meter-se com as de cá. Li nas notícias que um deles violou uma das nossas.

São como animais. É gente que devia ser deportada. Aliás, deviam ser presos assim que chegassem à fronteira. Mas estes gajos do PS meteram-se a mandá-los todos para cá, com a promessa de lhes darem subsídios. É disso que eles gostam, esta extrema-esquerda de merda, de paneleiragem e de pretos.

Qualquer dia é proibido ser branco em Portugal. Aliás, qualquer dia é proibido ser português. Eles já são mais do que nós. Anda-se pela baixa e não se vê um nosso.

Isso é um plano que o PS tem. Dar cabo dos portugueses em Portugal. Prometem subsídios, os gajos vêm, pouco depois metem-nos a votar, e em quem é que achas que os gajos que andaram na mama vão votar? No Chega não é de certeza absoluta.

Temos de ter cuidado com estes gajos, pá. Continuam a entrar e vem aí mais uma maioria absoluta do PS. São burros como asnos, parece que só têm palha na cabeça. E são gajos como nós que têm de lutar pela civilização. Não são eles. Querem castrar o homem português, meter-nos a todos de saia. Sabes quem é que os apoia sempre? São os homens – homens é como quem diz… – que andam para aí de maquilhagem. Eu até tinha vergonha de ter filhos assim. Imagina andar a criar um rapaz para sair um rapazola que nem rapazola é.

Mas pode ser que isto mude agora. O povo já anda a abrir os olhos. Já bem se vê que isto de mandarem vir estranjas nos vem ao bolso todos os dias. Daqui a pouco, já nem umas iscas se pode comer neste país.

Ou um polvo à lagareiro. 

Ou um bacalhau à Zé do Pipo.

Alguém vá perguntar ao António Costa se prefere um caril a uma pernil de porco.

O outro ria como se, sei lá, imaginar alguém a comer caril ou naan ou chamuças tivesse alguma graça. Enfim, no que toca a humor, há gente que se satisfaz com pouco. Por vezes, basta uma alarvidade para dar corda às gargalhadas.

Diz que o gajo mora aqui perto.Aqui, convém dizer, era o centrinho de Benfica.

Deviam era mandá-lo para a Damaia, onde há outros como ele.

É gente que nem devia andar entre nós. Somos diferentes, vemos o mundo de outra forma. Sobretudo, somos mais civilizados. Enfim… A ver se isto muda e se os homens deste país voltam a ser homens.

Isto realmente era preciso um Salazar em cada esquina.

O café ardia-me ao chegar à garganta, mas nem o deixei arrefecer para não aguentar mais daquilo. Deparava-me então com a triste realidade, que não se via só na fantochada em que se tornou S. Bento: com cinquenta alonsos no parlamento, até ir ao café passou a ser um problema.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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