O meu pai, que era um boémio e frequentava assiduamente casas de fado (na noite em que a terra tremeu em Lisboa em 1969 encontrava-se na Parreirinha de Alfama, o que foi uma preocupação, pois nessa altura os telemóveis não passavam de ficção científica), tornou-se amigo e confidente de umas quantas mulheres fadistas para quem escreveu letras e versos.
Foi ele quem me contou que, nesses anos, em que a gente do fado trabalhava em estabelecimentos que ficavam abertos noite dentro (ao contrário do que acontece hoje, que o fado é cantado em salas de concerto e as casas de fado se tornaram restaurantes caros para turistas e fecham à meia-noite), a maioria das fadistas eram solteiras, mesmo que algumas já tivessem filhos.
Não só – dizia ele – lhes era extremamente difícil arranjar um marido por trabalharem de noite e nunca terem horas para voltar para casa (qual era o homem que, nesses anos, se queria deitar sozinho na cama e viver desencontrado da sua cara-metade?); mas, por andarem na rua a desoras, tinham reputação de mulheres fáceis, fama que arrastavam injustamente consigo ao longo da vida e que afastava de forma irremediável os pretendentes.
A verdade é que vinha de trás essa pesada herança: o fado começara a ser cantado (e dançado!) na primeira metade do século XIX precisamente nos bairros de Lisboa onde a prostituição era autorizada (Alfama, Mouraria, Bairro Alto…), em tabernas e bordéis cheios de marginais e meretrizes, que ali se misturavam com fidalgos e tipos bem-pensantes apreciadores da má vida.
Aliás, segundo reza a lenda, a primeira fadista célebre – a belíssima Maria Severa Onofriana, a cujos atributos o conde de Vimioso não resistiu, a ponto de levar os amigos nobres em peso para a verem cantar e dançar –, era quase de certeza prostituta, embora, coisa rara numa “tolerada” dessa época, soubesse ler e escrever.
Porém, apesar de a Severa, ao morrer tuberculosa na flor da idade, ter sido chorada por centenas de populares e aristocratas, as “mulheres sérias” nunca a tinham ido ouvir cantar, pois as tabernas não eram lugar para senhoras; só mais tarde, quando apareceram as primeiras partituras e as melodias foram tocadas ao piano nos salões, puderam as damas sentir o primeiro cheirinho do fado, mas sem qualquer noção do que teria sido a sensual interpretação da amante do conde de Vimioso.
Embora, no século XX, muitas senhoras da alta sociedade se tenham apaixonado pelo fado, cantando-o em público (Maria Teresa de Noronha, por exemplo), a verdade é que, para as outras, o velho estigma resistiu até muito tarde – e eu ainda pude observar como, em certos estabelecimentos, os clientes que vinham sozinhos pagavam bebidas e convidavam as mulheres fadistas para a sua mesa ao fim da noite, partindo do princípio de que esse tipo de intimidade estava incluído na conta.
Felizmente, a partir dos anos noventa, o fado soube afirmar-se como uma arte maior e apareceram então mulheres livres, emancipadas e até licenciadas e doutoradas a cantá-lo, enchendo salas de espectáculo cá dentro e lá fora e fazendo cair finalmente o preconceito que tantas fadistas tiveram de enfrentar.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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