Há alguns anos, vivíamos todos o entra e sai de casa que marcou os difíceis dois anos da pandemia, quando um recém-chegado a Lisboa e uma das grandes aquisições no mercado de transferências culturais da cidade, Alberto Manguel, assinou uma curiosa análise no Expresso sobre o nome na placa do largo defronte da janela do seu escritório: Doutor António de Sousa Macedo. Ainda que desconhecido atualmente, conforme adiantava a publicação, foi uma figura ilustre no século XVII, que, entre outros feitos, publicou o poema ‘Ulissipo’, recebido “com enfado” pela crítica da época.
Tendo essa confluência de ruas em jeito de largo feito parte da minha vida de todos os dias, pelo menos na meia dúzia de anos em que vivi no antigo bairro de Santa Catarina, duas questões tornaram-se, desde logo, óbvias após terminar esta reflexão do antigo leitor de Jorge Luís Borges: (i) porque é que precisamos sempre do olhar externo para valorizarmos o rico património que temos; e (ii) como é possível ignorarmos coletivamente as figuras e as histórias por trás dos nomes ou datas que constam em todos os nossos documentos de identificação, na escritura da casa, na ficha do centro de saúde e no portal das Finanças? Invocamo-las todos os dias e nas mais diversas situações, mas não sabemos o que significam.
É um facto que a moderna toponímia da cidade tende a facilitar-nos a vida. Quando as principais avenidas se chamam, hoje, da Liberdade (antigo Passeio Público) ou da República (antiga Ressano Garcia) e as principais praças do Rossio (ou D. Pedro IV) ou do Marquês Pombal (antiga Rotunda), este até parece um exercício fácil. Porém, basta pensarmos em mais algumas dessas artérias, como a Fontes Pereira de Melo, estadista e uma das grandes figuras da monarquia constitucional, ou a Almirante Reis, membro da Carbonária e o herói trágico da revolução republicana, para a coisa já se complicar.
Nos tempos que correm e com os preços das casas a subir em flecha, as ruas, becos, travessas e largos que temos por domicílio acabam por ter nomes mais banais e menos épicos, mas nem por isso menos importantes.
No meu caso particular, radicado em Alvalade desde 2010, já morei na rua Guilherme de Faria, poeta vimaranense de vida curta e um quase homónimo do meu melhor padrasto, na rua Acácio de Paiva, um leiriense que se formou em Farmácia no Porto e que acabou por ganhar a vida como poeta, escritor, jornalista e crítico. Mais recentemente, depois de largar essas duas ruas perpendiculares entre as muitas no bairro com nomes de poetas, calhou-me na rifa a fava: avenida da Igreja.
Anteriormente, a partir da entrada neste milénio e tirando o ano que estive expatriado na Eslovénia e um outro em que morei na Rua Conde de Nova Goa, em Campolide, uma discreta rua que glorifica o político e advogado oitocentista, D. Luís Caetano de Castro e Almeida Pimentel de Sequeira e Abreu, tive por domicílio uma pequena rua de Campo de Ourique que celebra (Joaquim José Caetano) Pereira e Sousa, notável jurisconsulto que nasceu no ano a seguir ao terramoto.
Enquanto feminista que sou, não posso deixar de referir a alvaladense rua Marquesa de Alorna, dedicada a Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, poetisa, pintora e pedagoga nascida em Arroios (como eu próprio) em meados do século XVIII e descendente direta dos malogrados Távora, a rua nos Anjos que celebra a singular republicana viseense oitocentista, a jornalista e olissipógrafa, Angelina Vidal, ou o exíguo Jardim Maria de Lourdes Pintassilgo (também da Paz), contíguo ao Hospital dos Capuchos e que exalta, entre parêntesis, a única primeira-ministra que o nosso país teve.
Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.
Pois bem. Emprestando e reformulando a epígrafe do romance ‘Todos os Nomes’ de José Saramago, citação que, por questões íntimas e familiares, ressoa na minha cabeça há muitos, muitos anos, deixo para reflexão: repetimos ad nauseam os nomes e as efemérides gravados nos locais que nos abrigam, onde vivemos, mas será que conhecemos a sua história e o porquê de serem aí celebrados? E, já agora, porque não exaltar mais nomes de mulheres da nossa história coletiva, já que apenas 5% das ruas de Lisboa têm nomes femininos?

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