Ilustração: Cláudia Ferreira / Lisbon School of Design

Quando subimos a bordo do autocarro 737, somos os últimos a entrar. O autocarro vai cheio de turistas. As crianças estão ansiosas por ver “um castelo que é mesmo velho”, o de São Jorge, “no topo de Lisboa”. Da Praça da Figueira até ao Largo de Santo António da Sé, o autocarro não para uma única vez. E, lá dentro, o motorista depara-se há várias horas com um drama alheio a todos os viajantes, mas muito familiar para os motoristas da Carris: durante mais de sete horas de turno ao volante, é difícil encontrar uma casa de banho que possa usar.

A carreira 737 é o que a Carris diz ser “uma situação particular, por não dispor de instalações sanitárias dedicadas em nenhum dos seus terminais”. A empresa reconhece a gravidade e urgência do assunto. Este que é um problema que viaja bem além desta carreira.

Sete horas e meia – é quanto dura, na maior parte das vezes, o turno seguido de um motorista da Carris. “Pelo menos uma vez, já não digo mais, mas pelo menos uma vez temos de ir à casa de banho”, diz Luís Marreiros, que conduz autocarros, de outras carreiras, em Lisboa, desde 2000. O problema é saber onde. “Muitas vezes, é complicado conseguirmos arranjar uma casa de banho que esteja a funcionar e que podemos utilizar”, desabafa.

Nem sempre foi assim.

Luís recorda que os motoristas iam aos quiosques onde se vendiam os passes, que tinham sempre uma casa de banho exclusiva para eles. “Quem fazia a manutenção dessas casas de banho era a própria empresa, portanto, funcionava.” Hoje, o Campo Pequeno é um dos poucos sítios onde o sistema ainda funciona assim.

Sem quiosques, Luís e muitos colegas dependem de acordos com restaurantes, pastelarias e cafés ao longo dos percursos. A identificação para entrar é só a farda. Os acordos funcionam, garante, e os motoristas podem usar as casas de banho sem consumir, mas o que sente é outra coisa. “Eu falo por mim: muitas vezes, o que acontece é que eu acabo por consumir porque eu não me sinto bem em lá ir sem o fazer. Passar pelo balcão e ir diretamente à casa de banho, sem consumir nada, parece-me mal.” Além de que nem sempre os horários dos estabelecimentos compadece com o das carreiras, tantas a iniciar de madrugada.

E engane-se quem pensa que este é um problema exclusivo dos motoristas. O efeito é dominó. “Às vezes, estes espaços ficam longe, desviados dos terminais. Só aí, nesse espaço de tempo de deslocação, acabamos por perder bastante tempo e por atrasar a carreira. As pessoas que estavam à espera de apanhar um autocarro dentro de 20 minutos, acabam por apanhar dentro de 40, por causa dessa situação da falta das casas de banho.”

Luís pensa sobretudo em colegas para quem esta é uma questão de saúde, como aqueles com problemas de próstata. Lembra “um colega que não conseguiu aguentar e foi a casa mudar de farda”. Quando um acidente destes acontece, o autocarro deixa de trabalhar e recolhe à estação central.

Ilustração: Patrícia Camacho / Lisbon School of Design

Sete Rios: ir ao Zoo para ir à casa de banho

É em Sete Rios que se vê até onde chega o improviso.

Luís elogia uma iniciativa da Câmara de Lisboa e gostava de a ver alargada. “A Câmara de Lisboa, há uns três anos, começou a colocar estas casas de banho espalhadas pela cidade, que é uma ótima ideia, pois nós temos muitas carreiras que passam por estas casas de banho, e o condutor encosta ali, vai à casa de banho e é uma coisa muito rápida.”

O problema é que a maior parte está constantemente fora de serviço.

De cabeça, Luís lembra-se das de Benfica, junto à igreja, e das da Alameda, avariadas há bastante tempo. As de Sete Rios: “Estas duas foram inauguradas há dois anos atrás, mas ainda estavam fora de serviço um ano depois da inauguração. Depois, quando abriram, uma delas está sempre fora de serviço. E agora, neste momento, as duas já estão fora de serviço desde junho.”

Em Sete Rios terminam cinco carreiras. E a solução que os motoristas encontraram é inesperada: vão ao Jardim Zoológico.

“Mas só ir daqui, lá dentro, à casa de banho e voltar é uma distância considerável e perde-se à volta de uns 10 minutos. Os horários das carreiras já não nos dão muito tempo, pois as viagens são muito rígidas em termos de horário. Se vamos ainda perder mais 10 minutos para ir à casa de banho, o passageiro acaba depois por ver que o carro atrasa e não apanha aquele”, diz Luís.

E o Metro, mesmo ali ao lado? A Carris garante que 20 estações do Metropolitano têm casas de banho disponíveis para os seus motoristas. Luís diz que o Metro não deixa os motoristas dos autocarros usá-las. Confrontado pela Mensagem, o Metro de Lisboa “esclarece que a utilização das suas instalações sanitárias pelos trabalhadores da Carris está expressamente autorizada nas estações identificadas, nos termos acima descritos, não correspondendo, por isso, à prática instituída entre as duas empresas uma eventual indicação de que esse acesso não é permitido”.

Ilustração: Inês Oliveira / Lisbon School of Design

Quem paga é quem está na paragem

Para Luís, as consequências não ficam dentro do autocarro. A primeira são os atrasos. “Os passageiros acabam por pagar diretamente, pois o carro tem de ficar como ‘Reservado’ e as pessoas ficam na paragem à espera.”

A segunda é mais desconfortável e pode acabar em confronto. Luís lembra-se bem de uma carreira longa, de cerca de hora e meia, com muito trânsito, em que o café com acordo ficava numa paragem sempre cheia por servir o Hospital dos Capuchos.

“Agora imagine… As pessoas estão ali, sabem as horas em que o autocarro arranca, pois diz no terminal, o autocarro chega, e já chega com alguns minutos de atraso, e veem o motorista a pegar nos seus pertences e ir para o café. É meio caminho andado para começar uma discussão, pois as pessoas não veem como o motorista tem de ir à casa de banho.”

Quando não há casa de banho nem café por perto, resta pedir à sede para seguir até uma estação central, o único sítio onde há a certeza de encontrar uma. A Carris nunca o proibiu, e os motoristas têm livre acesso para o fazer. “Mas está a ver o que é estar a pedir para desviar um autocarro da carreira para ir até à central mais próxima só para poder ir à casa de banho…”

Ilustração: Cláudia Ferreira / Lisbon School of Design

143 locais no papel, nem sempre na prática

Na última paragem, na Rua do Chão da Feira, falámos finalmente com o motorista da carreira 737. Tem pouco tempo e não quer falar muito do assunto, mas explica como se arranja: no início da carreira, pode usar a casa de banho da Pastelaria Suíça sem consumir, num acordo informal; no fim da linha, a relação com o “Restavrante: O Conqvistador” é “mais complicada” – para usar a casa de banho, os motoristas são obrigados a consumir.

Contactada pela Mensagem, a Carris garante que “nos últimos anos, a empresa tem procurado alargar as soluções disponíveis, quer através de instalações próprias, quer através de protocolos com entidades públicas e estabelecimentos comerciais”.

Os números: os motoristas têm hoje 143 locais com acesso a casa de banho. Só 13 são instalações da própria Carris, “distribuídos por vários locais na cidade”. Outros são espaços comerciais “com os quais a Carris estabeleceu acordos, (…) assegurando, em muitos casos, uma contrapartida financeira pela utilização das respetivas instalações pelos trabalhadores”.

Desde 2020, diz a empresa, “investiu cerca de 1,5 milhões de euros” na “reabilitação e beneficiação de instalações sanitárias e balneários”, e tem um programa de 96 mil euros para os próximos anos.

Mas é a própria Carris quem admite que os números não contam tudo: “Apesar destes progressos, reconhecemos que a existência de uma instalação sanitária ou de uma alternativa nas proximidades não significa que o acesso esteja assegurado nas condições mais adequadas.”

E, quando a solução funciona, a diferença nota-se.

Num vídeo publicado no TikTok, o motorista William Dissena, que a Mensagem não conseguiu contactar, mostra as casas de banho da Carris no Cais do Sodré: em funcionamento, de fácil acesso e sem lhe roubarem muito tempo.

É o outro lado da mesma moeda. Quando as instalações estão em bom estado e bem localizadas, o impacto no turno é mínimo e a dignidade de quem trabalha fica protegida. O contraste entre os dois relatos mostra que a Carris consegue garantir as condições necessárias, mas não da mesma forma em toda a cidade.

O tema está longe de ser esquecido. Segundo Luís, os sindicatos “trazem-no sempre para cima da mesa, em todas as reuniões com a administração”. A Mensagem tentou ouvir dois deles, a ASPTC e o SITRA, mas não obteve resposta.

Luís acredita que a Carris prefere os acordos com o comércio, por terem sido uma das soluções mais recentes da administração e uma das que deu bons frutos. Mas tem outra ideia: casas de banho portáteis ao longo das carreiras. Não as das obras, “que são enormes”, mas “casas de banho menores, mais simples”, que “seriam mais funcionais e de manutenção mais rápida”.

Ilustração: Sónia Leal / Lisbon School of Design

No Reino Unido, por exemplo, a Transport for London (TfL) lançou um grande programa de instalação e remodelação de casas de banho, com um plano de 150 terminais e pontos estratégicos ao longo das rotas. Com financiamento público, garantiu aos seus motoristas acesso fácil a instalações completas e exclusivas.

Por aqui, a Carris diz que a dignidade dos seus trabalhadores é uma das “prioridades que exigem atenção permanente e respostas concretas”, e escreve: “Para quem passa grande parte do seu dia ao volante, poder aceder a instalações sanitárias adequadas não é um detalhe operacional: é uma necessidade básica e um direito.”

Até esse direito chegar a toda a cidade, há quem continue a contar os minutos até ao Zoo. E, lá em cima, junto ao Castelo, o motorista da 737 continua a ter de pagar um café para poder ir à casa de banho.


Bruna Alves

Nascida em 2002 em Lisboa, criada na freguesia de Olivais. Aluna do Mestrado em Ciências da Comunicação, decidiu estagiar na Mensagem de Lisboa em 2026. Gosta de passar tempo com os seus animais de estimação (Benny e Mike), a ler (principalmente, sobre o 25 de Abril de 1974), a capturar (com a sua Canon) e a contar histórias sobre os tempos que correm, sem parar, por Lisboa.

Editado por Catarina Reis

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2 Comments

  1. Grande colega Luís… completamente apoiado… uma vergonha o caso de 7rios, uma pessoa perde quase 15m para fazer o percurso ate ao zoo e wc, tendo 2 IS mesmo ao lado! O caso de descer ao metro é igual, porque a IS deles tambem esta avariada e tem de se percorrer a linha ate ao lado da entrada dos comboios (acaba quase por ser uma ida ao Zoo igualmente)!
    A 737 vergonha também, pois como nao bebo café nem consumo nada do mesmo, tenho que descer ao parque de estacionamento da Praça da Fig para usar wc… Castelo – 0.
    731 em sacavém é igual… tem de se atravessar a estrada e descer a um parque para usar wc igualmente ( porque o 1o acordo era com um cafe que ficava tambem quase a 10m de ida)!
    Em tempo de chuva é so horrível para ambos (passageiros e motoristas).
    Parece muito bonito o motorista apenas passar o dia sentado, “atrasa porque nao quer trabalhar”, “1hora a espera”, mas esquecem que somos humanos, que 7h30 na mesma posicao c a pressao de cumprir horarios , mesmo em muitas carreiras ser impossivel, só faz mal! Bexiga, prostata, rins, costas, joelhos… A vida nao e assim tao facilitada e, a prioridade nao somos nos e as necessidades basicas, infelizmente!!
    As IS sao para todos por apenas 10centimos e, posso referir que maioritariamente estao completamente sujas, seringas, coco e urina fora das sanitas e, muitas vezes nem da para usar devido a isto.
    Agradeço a Mensagem por mostrar um pouco da nossa situacao diária,
    Obrigada!

  2. Acontecia também com os condutores que accionavam o Elevador da Glória. Não tinham outra solução. Paravam o elevador, a meio do trajeto, para irem a um café que os recebia para irem à casa de banho. Comprovo. Estava dentro do elevador.

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