Numa quarta-feira à noite, quando o rebuliço da Estrada de Benfica abranda, o Palácio Baldaya ganha vida através das vozes dos fregueses, vizinhos nas horas vagas. O Salão Nobre enche-se com cerca de 30 pessoas que não se conhecem entre si, ainda que vivam no mesmo bairro. Ali, no palácio, o que as une é a vontade de cantar em coletivo. Quem as juntou foi Tiago Pereira, de 52 anos, um homem com uma profissão singular.

Há mais de uma década que o realizador e radialista percorre o país, à procura de “manifestações da cultura popular”. Em cafés, coletividades, no campo ou dentro de casas, grava pessoas que continuam a cantar reportórios transmitidos de geração em geração — ou que criam as suas próprias músicas longe do circuito comercial. Desse trabalho nasceu a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP), um dos maiores arquivos de música do país.

Ao abrigo de um protocolo com a Junta de Freguesia, o projeto vai agora andar por Benfica, durante quatro anos, a “gravar os músicos da freguesia, dar voz às suas histórias, formar coros com a comunidade e criar um registo vivo do nosso tempo”, indica a instituição. Sob o nome Benfica à Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, a iniciativa vai culminar num cancioneiro que reúna as práticas musicais do bairro.

As vidas destes músicos – e o contexto que dá sentido às suas canções – estão a ser contados na Mensagem de Lisboa, numa colaboração que quer desafiar Lisboa a Voltar a Gostar Dela Própria.

Porquê Benfica?

Para o fundador do projeto, Benfica foi uma escolha natural. Além da ligação pessoal que sente ao bairro, onde passou alguns anos da sua juventude, Tiago Pereira destaca que Benfica tem características históricas e sociais que a tornam muito rica em património musical.

“É um bairro que alberga muitas pessoas que vêm dos fluxos migratórios no fim dos anos 30 e 40 e também nos anos 50 e 60, de todo o país. Em Benfica pode-se encontrar pessoas de Trás-os-Montes, do Algarve, do Alentejo, das Beiras, do Litoral Norte. E estas pessoas vieram para cá, essencialmente, criar negócios: casas de pasto, mercearias, drogarias…”

As influências musicais também ultrapassam fronteiras. Ou não estivéssemos na multicultural Lisboa. Tiago lembra, por exemplo, que este foi “um dos lugares da cidade de Lisboa que mais recebeu os retornados das ex-colónias após o 25 de Abril”. Por essa razão, muitas pessoas que viviam em Angola, Moçambique ou Cabo Verde fizeram desta freguesia sua morada.

Tiago Pereira utiliza o arquivo da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria como inspiração para o reportório do coro. Foto: Margarida Filipe

O resultado é um “caldeirão gigante de culturas, que está a fervilhar”. A partir das raízes de diferentes territórios e dos encontros que daí surgem, Tiago Pereira acredita que em Benfica se vai criando “uma espécie de tradição musical do futuro”.

Face à descaracterização que se faz sentir em tantos bairros lisboetas, Benfica é também um exemplo de resistência. Para Tiago Pereira, a freguesia preserva uma essência que parece estar a desaparecer no resto da capital: “Benfica tem uma entidade muito forte, misturada com tantas outras. É um bairro com a sua própria cultura, que deixou de ser dormitório e que ainda não tem turismo.”

Aos seus olhos, Benfica é “um dos últimos bairros sobreviventes desta Lisboa que se está a transformar”.

Os detetives de artistas e canções. Como se descobre música num bairro?

Mas, afinal, como se encontram os protagonistas deste cancioneiro?

Por um lado, há quem já conheça o trabalho da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e manifeste vontade de participar. Foi o caso de Migs o Bardo, que acompanhava o projeto e, ao saber que estavam a fazer gravações na freguesia onde nasceu e cresceu, decidiu entrar em contacto por e-mail. Pouco tempo depois, encontrava-se com a equipa na Mata de Benfica para contar a sua história e apresentar músicas que o próprio escreveu.

À medida que o projeto ganha presença na freguesia, cresce também o número de vozes que querem fazer-se ouvir. No dia 28 de fevereiro, a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, em parceria com a Mensagem de Lisboa, reuniu compositores e cantores num evento de apresentação do projeto, que já antecipava a multiculturalidade do bairro de Benfica. A iniciativa funcionou como ponto de partida para novas gravações: à saída do Cine-Teatro Turim, a produtora Francisca Almeida recolhia contactos de moradores interessados em integrar o futuro cancioneiro do bairro.

Mas há outra forma de conhecer os talentos que habitam em Benfica e, segundo Tiago Pereira, a mais importante: o trabalho de terreno. Numa lógica de proximidade, os membros da equipa da MPAGDP trabalham como detetives, à procura do que não está à vista de qualquer um.

“É crucial estar no terreno, para conhecer as pessoas e perder dias a falar com elas. Aquilo que nos interessa gravar é sempre o mais escondido. Vamos gravar as pessoas que não têm palcos, as músicas que não têm outra forma de sair cá para fora”, explica o diretor artístico do projeto.

O objetivo final é uma cartografia sonora de Benfica, como explica Tiago Pereira: “Nós não queremos dar visibilidade, mas sim apontar, mapear. E indicar: ‘Esta pessoa está aqui, tem esta prática, tem isto para dizer.'”

Um projeto que recupera vozes anónimas

Emanuel Matos, de 23 anos, é um dos rostos deste arquivo vivo. Canta música cigana desde os 7 anos, acompanhado pela guitarra do irmão António, mais conhecido por Toy. Os irmãos cruzaram-se com o projeto logo no início do seu percurso musical. Foi na Barragem de Magos, em Salvaterra de Magos, que a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria gravou a música “Alba”, interpretada por Emanuel e Toy – e captada pela lente de Tiago Pereira.

A partir daí, nasceu uma grande amizade e os jovens músicos continuaram a gravar diferentes temas com Tiago, pelo país fora.

Em 2021, através dos vídeos publicados, surgiu um convite para apresentarem uma música no Got Talent Portugal. A participação de Emanuel e Toy valeu-lhes a chegada às semi-finais e uma agenda preenchida com festivais e concertos.

Emanuel reconhece que o projeto de Tiago Pereira é mais do que um arquivo, é também uma ferramenta de inclusão: “O Tiago consegue integrar toda a gente. Ele pega em músicas que são invisíveis e puxa por elas.”

Emanuel Matos, 23 anos, cantor. Vídeo: MPAGDP

É uma missão que a MPAGDP carrega há mais de uma década: mostrar que qualquer pessoa, independentemente da sua formação, é um guardião legítimo da identidade sonora do país.

O percurso, iniciado em 2011, teve paragens em cerca de 230 concelhos de Portugal até chegar a Benfica. O projeto prepara-se agora para fazer o caminho inverso: a partir de Benfica, a intenção é levar este cancioneiro a muitos outros lugares.

Ensinar a escutar

O trabalho por detrás da câmara não é solitário nem tão pouco monótono. Quando o desafio é encontrar a riqueza musical de uma freguesia, não basta uma equipa – é preciso envolver toda a comunidade. 

E a Música Portuguesa a Gostar dela Própria quis começar pelos mais novos, numa lógica de “eixo vertical”, refere Tiago Pereira. O projeto tem estado na Escola Básica Quinta de Marrocos a ensinar os alunos do 4º ao 6º ano a reconhecer a música em cada canto do seu bairro.

“Eles aprendem música na escola, mas a música que eles aprendem não é a que nós gravamos e que existe em Benfica. Ao ensinarmos a gravar com câmaras e microfones de qualidade, estamos a ensiná-los a escutar. Porque a aprender a gravar, também se aprende a escutar”, explica Tiago.

Tiago Pereira, 52 anos, diretor artístico do projeto Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. Vídeo: MPAGDP

Numa tarde de inverno em que o sol já se esconde e as crianças brincam no recreio à espera dos pais, os alunos seguem a professora e entram na sala. Só que, desta vez, a aula é diferente – as mesas estão dispostas em semicírculo e as câmaras, os tripés e as luzes ocupam grande parte do espaço.

Num misto de desconfiança e de curiosidade, os alunos tomam os seus lugares. Escutam, atentos, Tiago Pereira, que lhes revela os princípios da captação de imagem e de som. Mas, rapidamente, a teoria passa à prática: mãos à obra, exploram ângulos, testam enquadramentos e ajustam a luz em busca do melhor resultado.

Emanuel e Toy são os protagonistas da primeira gravação destes pequenos videógrafos. A convite de Tiago, vieram conhecer as crianças, falar da sua relação com a música cigana e, claro, cantar.

Depois das explicações e das experiências dentro da sala de aula, os alunos já sabem a importância do silêncio e de esperar alguns segundos antes de gritar “Corta!”.

Os próximos trabalhos decorrem fora de portas, pelas ruas de Benfica, a gravar os protagonistas do cancioneiro do bairro.

Do arquivo para o coletivo

Mas o trabalho de terreno não termina na recolha. Aos poucos, regressa à própria comunidade sob outra forma: num coro comunitário, onde as músicas encontradas no bairro são reaprendidas e cantadas em conjunto. Como explica Beatriz Nande, ensaiadora do projeto:

Este coro canta a recolha da MPAGDP dentro de Benfica. Cantamos músicas de pessoas que cá vivem, sejam músicas de autoria ou músicas que as pessoas aprenderam e ainda cantam. Por exemplo, As Saias, que é uma música do Alentejo, cantada por uma senhora de 80 anos que está aqui no lar de Benfica e que nós estamos a aprender.

A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria também já tinha gravado Beatriz Nande, por ser integrante do Coro dos Anjos e do Coro dos Comuns. Foi dessa relação que surgiu o convite para assumir a direção do coro comunitário em Benfica – uma função que nunca tinha desempenhado antes.

Beatriz, de 29 anos, reconhece que o maior desafio está em transformar um grupo muito diverso de pessoas num conjunto coeso, mas sublinha que é precisamente nessa diversidade que reside a beleza do trabalho.

Beatriz Nande canta em vários projetos, mas está a estrear-se como ensaiadora no coro comunitário. Foto: Margarida Filipe

Neste momento, o coro está a ensaiar a música “O Poeta”, gravada pela MPAGDP em março, à porta da Pastelaria Nilo, em Benfica. A canção foi ensinada aos coralistas pelo músico de rua angolano José Varela, que a compôs a partir de um poema escrito por Manuel Rui Monteiro, autor da letra do Hino Nacional de Angola.

Entre música angolana, tradição alentejana e canções recolhidas nas ruas de Lisboa, o reportório do projeto cruza diferentes influências e geografias musicais.

Esse é um dos aspetos que Bruna Guerreiro, de 44 anos, mais valoriza no projeto. Apesar de ter nascido no Brasil, vê no coro uma forma de recuperar as suas raízes: “A minha mãe é portuguesa e o meu pai é português. Por isso, é muito importante que a minha filha aprenda a música tradicional portuguesa. A música, quando é verdadeira, vem de um lugar de verdade, vem do coração”, afirma.

Admiradora da MPAGDP, soube através das redes sociais que os coros iam arrancar e quis juntar-se. O ponto de partida acabou por ser a filha, Amália, de 5 anos, que sempre gostou de cantar. Hoje, mãe e filha integram os coros da freguesia: Bruna participa no coro comunitário e Amália no coro infanto-juvenil.

Bruna não tinha qualquer experiência de canto antes de entrar no coro comunitário. Foto: Margarida Filipe

Não são caso único nos ensaios de quarta-feira. Francisco e Paula Ferro são casados e integram o coro comunitário desde o seu início. Ambos são professores na Escola Básica Quinta de Marrocos, onde testemunham de perto o impacto do projeto. No final do dia de trabalho, veem alguns alunos a reunir-se para os ensaios do coro infanto-juvenil, enquanto outros aprendem a recolher registos das músicas do bairro.

Com um percurso ligado à música e uma passagem pela banda Ena Pá 2002, onde tocou percussão, Francisco descobriu, aos 65 anos, um espaço para voltar a desfrutar da música de forma descontraída, sem a pressão do contexto profissional. Para ele, este coro é um “regresso à música como ela devia ser” – algo comunitário e prazeroso.

Paula e Francisco vivem e trabalham na freguesia de Benfica há vários anos. Foto: Margarida Filipe

Já Paula, de 62 anos, não tinha qualquer experiência musical e garante que “não tem jeito nenhum” para cantar. Ainda assim, reconhece que, neste coro, não é só o talento que importa: “Aqui sinto-me completamente à vontade, porque estamos em conjunto. Algumas pessoas têm uma grande voz e sabem música e outras não sabem, mas vão atrás e o ambiente é ótimo”.

O casal chegou ao coro comunitário através do evento de apresentação no Cine-Teatro Turim. Desde logo, uma coisa chamou a atenção de Francisco: a inclusão do bairro vizinho, considerado o primeiro bairro municipal ibérico. “Este projeto está a integrar o Bairro da Boavista, que as pessoas de Benfica tendem a considerar uma coisa à parte. Mas lá existe uma presença musical muito forte, que eu nem sequer desconfiava.”

Enquanto professores, ambos reconhecem a importância de fazer com que as gerações mais novas não se afastem da música portuguesa. “Somos bombardeados com coisas que vêm de outros países e que, por lógicas financeiras, nos são impostas. É interessante manter a música portuguesa viva e renová-la”, reflete Francisco.

Os ensaios do coro comunitário começaram em março, no Palácio Baldaya. Foto: Margarida Filipe

Têm sido muitas as oportunidades de levar estas músicas a novos públicos, envolvendo miúdos e graúdos. No mês passado, o coro infanto-juvenil atuou nos Prémios Play, ao lado da banda madeirense NAPA, e o coro comunitário prepara-se para subir ao palco do Festival Bons Sons, em agosto.

Em Benfica, a música deixou de estar guardada em casas de pasto ou adormecida em memórias de infância para passar a ser um património vivo, que percorre a freguesia e que fica no ouvido de todos.

O cancioneiro de Benfica é uma obra em permanente construção. Se conhece alguém que canta ou que toca – ou se não quer deixar a sua própria música de fora desta memória coletiva, faça chegar um e-mail à equipa da MPAGDP: amusicaportuguesa@gmail.com.


Maria Maia

Nasceu em Lisboa, em 2002, e cresceu entre a cidade e a periferia. Na universidade, ganhou o gosto e o ofício do jornalismo. Apaixonada por ouvir, interessada em conhecer e destinada a escrever sobre isso. É jornalista e produtora na Mensagem de Lisboa.

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