“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Sexta-feira à noite. Das escadas que dão para a cave do Com Calma, vão descendo pessoas, casais, grupos de amigos, mais velhos, mais novos. De Benfica, do resto de Lisboa e até de bem longe, a Norte e a Sul.
O espaço vai-se enchendo devagar e as cadeiras frente ao palco vão sendo ocupadas. O ambiente é descontraído, quase caseiro. Enquanto não começa o espetáculo, bar está concorrido. Não há distância entre palco e público. Há um microfone, luz baixa e uma espécie de expetativa cúmplice: sem estrelas no cartaz, tudo pode acontecer e é por isso que vale a pena.
É noite de Com Calma Comedy Club, um formato de stand-up comedy criado há três anos, que começou como evento mensal, tornou-se quinzenal e ambiciona vir a ser semanal.




“Trazemos sempre entre seis e oito comediantes por noite, muitos deles emergentes, que têm aqui oportunidade de divulgar o seu trabalho”, explica Inês, produtora do projeto. Para uns, é um primeiro palco. Para outros, um espaço de experimentação. Para Inês Miranda Pereira é uma “win-win night”.
“O Com Calma cede-nos o espaço, nós ficamos com a bilheteira e eles com a receita do bar. Trazemos outros públicos à associação, ideias novas e estilos de comédia diferentes. Fica toda a gente a ganhar”, diz.
Apresentados pela atriz e humorista Liliana Marques, que abre as “hostilidades”, sucedem-se comediantes, mulheres e homens, a maioria jovens. Sexo, saúde mental, trabalho, a crise da habitação em Lisboa, os turistas, o preço das casas, o preço de tudo, pela hora da morte, Epstein, Trump, a guerra, as redes sociais, e, claro, as mães e as infâncias, essas fontes inesgotáveis de amor e de humor.
A assistência é chamada a participar. Há gargalhadas e, de vez em quando, silêncios incómodos, provavelmente o maior pesadelo de um humorista, resolvidos com a velha técnica de rir de si próprio. Desconstrução é o fio condutor numa noite terapêutica, sem rede nem divã, mas com a coragem das primeiras vezes.
Dar a Benfica Lisboa toda
Catarina Alonso, 31 anos, e Sebastião Castro, 33, talvez não pensem em coragem quando lembram o que os levou a juntar amigos para fundarem a Com Calma – Associação Cultural. Mas foi preciso tê-la.
O espaço existia desde 2015, gerido pela VAI – Associação. Já se chamava Com Calma, tinha um café no piso superior e mantinha uma programação cultural com que Catarina se identificava. De tal forma que era voluntária no espaço. Mas em 2020, em plena pandemia, a continuação do Com Calma esteve em risco. A VAI saiu de cena e Catarina e alguns amigos sentiram que tinham de fazer alguma coisa. Não podiam deixar morrer um lugar que já sentiam como seu.

“Nós éramos voluntários e gostávamos muito disto, vivemos aqui na zona de Benfica, Carnide, Amadora e não queríamos que o espaço desaparecesse”, lembra a fundadora.
A decisão foi voluntariosa: criar uma associação e assumir o espaço, sem financiamento garantido, sem estrutura profissional, sem garantias de sustentabilidade, mas com uma ideia clara e vontade de a concretizar.
“Juntei o Sebas [Sebastião], que é da música, a Rebeca Mateus, que é da dança, a Carolina Serranito, que é pintora, e mais amigos, e iniciámos o projeto”, diz Catarina. Uma das motivações foi trazer para este lado da cidade, Benfica, a oferta cultural que frequentavam (e frequentam) do outro, Arroios, Penha de França, Santa Maria Maior.

“Na verdade, eu frequentava vários espaços nessas zonas de Lisboa (foi onde conheci o Sebas) e via que o Com Calma já era e podia ser ainda mais um bocadinho disso. Portanto, se podia ter aqui ao pé de casa um espaço assim, em vez de ter de estar sempre a ir para a outra ponta da cidade, por que não tentar criá-lo e oferecê-lo também às pessoas que vivem aqui à volta?”, explica Catarina Alonso, que foi buscar inspiração a lugares como o Zona Franca, o Bus – Paragem Cultural, o RA 100, a Bota, a Sirigaita, o Anjos 70, a Disgraça ou o Bartô, alguns deles já desaparecidos.
É quase desconcertante a explicação, de tão simples e genuína. E diz muito sobre o que o Com Calma é, cinco anos depois da sua refundação: um espaço cultural de todos e para todos, uma comunidade performativa, um ato de solidariedade e de resistência urbana.
O Com Calma não é um bar
Desconcertante é também a resposta à pergunta sobre a profissão de Catarina Alonso: meteorologista aeronáutica.
“As pessoas reagem sempre assim, mas nós não somos só aquilo em que trabalhamos. Temos outras coisas de que gostamos. Eu gosto muito de música, de teatro, das artes”, diz, divertida.
Gosta tanto que grande parte do seu tempo se divide entre o trabalho e a associação, onde tem sobretudo tarefas de gestão do espaço, das atividades, das finanças e da logística, que assegura de forma voluntária, como, aliás, toda a equipa do Com Calma.


Catarina, Sebastião, que é músico, dá aulas de artes a crianças e está a acabar a faculdade, Mariana Lopes, que estuda teatro, Beatriz Agria, que faz parte da MOSCA (estúdio que partilha o espaço com o Com Calma) e André Rocha, também músico, são os cinco magníficos que garantem que o Com Calma esteja aberto ao público de quinta a domingo, das seis à meia-noite.
Nenhum deles depende financeiramente do projeto. Pelo contrário, conciliam as suas profissões com o tempo que dedicam ao funcionamento do espaço, distribuindo turnos com a flexibilidade necessária para acomodar a disponibilidade de cada um e de quem mais se mostrar disponível para contribuir.
“Quem quer participar e demonstra interesse, é fácil fazer parte do que estamos aqui a construir, basta juntar-se a nós”, diz Catarina.
O mesmo espírito se aplica aos frequentadores ou espectadores. Para entrar, é preciso tornar-se sócio – um gesto quase simbólico, com um donativo anual sugerido de três euros. A ideia é construir comunidade.

“Já temos mais de dois mil sócios”, diz Catarina. “Explicamos a quem chega que somos uma associação cultural e que quem frequenta tem de ser associado. Não custa nada, preenche logo o Excel com os dados e fica com um cartãozinho. Só sugerimos um donativo anual de 3 euros. O que queremos é que as pessoas se juntem a nós e façam seu este espaço cultural”.
A questão não é despicienda, sobretudo por causa do bar, que pode dar origem a equívocos e associar o Com Calma a mais um local de diversão noturna.
“Há muita malta que acha que, por ter um bar, é um bar, mas não, é um espaço cultural”, sublinha Sebastião, esclarecendo: “É preciso desmistificar a ideia de que estes espaços são primeiramente bares, quando são sítios onde as pessoas querem partilhar alguma coisa.”
A chave da solidariedade cultural
Essas coisas que as pessoas querem partilhar são a base da programação do Com Calma. Não há curadoria num sentido clássico. Quem está à procura de um espaço – para tocar, fazer stand-up comedy, ler poesia, apresentar uma performance, dinamizar um workshop ou até propor um quiz – envia uma proposta ou responde às Open Call lançadas regularmente pela associação.
É daí que parte a curadoria. “Nós não procuramos ativamente, recebemos propostas e tentamos agendar o máximo que conseguimos, porque queremos que quem não tem espaço tenha uma oportunidade de se apresentar ao público”, resume Catarina.
“Sim, é o que as pessoas queiram partilhar, sejam propostas artísticas e culturais ou não. Às vezes, há pessoas que querem fazer workshops, de uma skill que estiveram a desenvolver e querem mostrar. Se nos fizer sentido, facilitamos a apresentação e a partilha”, completa Sebastião.
O resultado é uma agenda heterogénea: música, poesia, comédia, cinema, exposições, colagem terapêutica, jogos, palestras, workshops. A programação está aqui.

Mas o Com Calma não é apenas um lugar de apresentação. É também um espaço de ensaio, de aprendizagem e de encontro. Às segundas-feiras, ao fim da tarde, reúne-se o Grupo de Teatro para Desenvolvimento Pessoal e Terapêutico, às terças-feiras, à tarde, ensaia um projeto de música eletrónica que nasceu aqui, chamado Clap na Cara, formado pelo Sebas e o Abuka, às sextas, sábados e domingos de manhã, decorre um Curso Anual de Teatro de Improviso, dirigido pelo Pedro Pedroso, que depois de muito procurar foi aqui que encontrou espaço para desenvolver o seu trabalho.
“Foi fantástico. Fizemos aqui a nossa primeira apresentação. E olha que é bem comum enviar propostas e não haver interesse ou sequer resposta. Aqui aceitaram logo”, diz o ator, relevando as virtudes artísticas, e não só, do teatro de improviso.

“É muito importante, até para pessoas tímidas ou introvertidas, quase como terapia e é ótimo para criar comunidade”, diz, dando o exemplo das suas turmas, que juntam portugueses e estrangeiros a viver em Lisboa que dizem ter encontrado ali um primeiro ponto de integração na cidade.
Também Inês Miranda Pereira, que, além de produtora do Com Calma Comedy Club e gestora de um coworking na Avenida da Liberdade, é atriz, fala do carácter de solidariedade artística da Com Calma – Associação Cultural.
“Eu pertenço a um coletivo de atrizes, o Estado Coletivo, que é relativamente recente, e precisávamos de uma sala de ensaios. Falei com eles numa quinta-feira e domingo à tarde estávamos aqui a ensaiar”, diz.
“Acho que o Com calma é bom por isso. Sempre que os artistas da zona precisam de um espaço, eles são os primeiros a disponibilizar, desde que não interfira com a programação. Acho que fazem um trabalho espetacular e são boas pessoas, o que também conta”.
Conquistar Benfica… Com Calma
O enraizamento local é um trabalho em curso. Benfica não é Arroios, e o público não chega da mesma forma. O facto de o espaço estar numa cave – e de ter atravessado o período da pandemia logo no início desta nova fase – afastou parte da população mais velha, habituada a uma lógica mais próxima de café de bairro.
Há memórias do tempo em que o piso de cima funcionava como ponto de encontro mais informal. Hoje, a dinâmica é outra, e a equipa tenta, pouco a pouco, reconstruir essa relação com a freguesia.



Talvez seja esse um dos maiores desafios: fazer que o Com Calma se torne, simultaneamente, um espaço da cidade e um espaço do bairro.
No fundo, não se trata apenas de desenhar uma programação cultural. Existe uma vontade forma de intervir na cidade. Num tempo em que muitos coletivos, coletividades e espaços independentes desapareceram – por causa das rendas, da pandemia e de uma certa homogeneização urbana – o Com Calma persiste, numa cave de Benfica, mostrando que o encontro, a solidariedade e a participação podem ser a chave para abrir mais (e a mais gente – artistas e públicos) as portas à cultura.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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