Foi há quase dez anos. Lisboa, um número telefónico, o Whatsapp, uma mensagem enviada. Uma semana depois e ainda não havia resposta, apenas um ruidoso silêncio. Uma semana era muito tempo, dava para uma carta ir pelo correio e a resposta voltar.
Será que havia escrito algo inapropriado? Cometido uma gafe? Um incidente diplomático? Um brasileiro preso às armadilhas de uma língua que é a mesma, mas às vezes não é?
Aflito, peguei o telefone e mostrei a mensagem a um amigo português, o Diogo, que havia morado no Brasil e conhecia os meandros das duas culturas. O Diogo olhou o telemóvel na palma da mão, balançou a cabeça e sorriu:
— Ê, pá, não me venhas cá com essa pressa do Novo Mundo. Estás no Velho Mundo, pá! Um dia vão te responder.
Um dia?
Pois é, no Velho Mundo, pá, há dez anos o Whatsapp era uma abstração.
Ao contrário do Novo Mundo, onde a intimidade era tanta que a aplicação era chamada no diminutivo, carinhosamente de Zap, e cada brasileiro estava preso ao emaranhado de pelo menos dez grupos, uns tantos do trabalho, outros da família, o da velha guarda dos tempos da escola, da galera da pelada e do boteco.
— Envias um SMS — sugeriu o Diogo.
Um SMS? Para o ouvido brasileiro, o SMS era meio de comunicação paleolítico, um hieróglifo desbotado numa parede, quase como ouvir alguém sugerir usar um pombo-correio ou enfiar uma folha de papel dentro de uma garrafa e atirar ao Tejo.
Mas o pior de tudo é que foi tiro e queda.
SMS enviado e um minuto depois o bip do aparelho anunciava a resposta.
Foi a minha primeira experiência com os mistérios do tempo em Portugal.
O tempo, uma grandeza física que em boa parte do planeta rigorosamente divide-se em horas, minutos e segundos, mas que neste cantinho do Velho Mundo tem suas particularidades e uma hora nem sempre tem sessenta minutos e cada minuto pode demorar centenas de segundos para passar.
Um exemplo disso é o trivial cumprimento de bom dia, boa tarde a alguém.
No Brasil, como diria o árbitro de futebol, a regra é clara: antes do meio-dia, é bom dia, depois das doze, boa tarde, simples assim. Mas aqui, não, a divisão entre bom dia e tarde dispensa o relógio, aliás, respeita outro tipo de relógio.
O relógio biológico.
— Boa tarde, o senhor poderia me dizer…
— Boa tarde, não, pá, é bom dia, que ainda não almocei.
Ou seja, para desejar bom dia ou boa tarde a um português é preciso ter a certeza se o estranho a sua frente já almoçou ou não.
O que é um problema, por exemplo, para os milhares de frequentadores de brunchs de Lisboa, presos no limbo temporal entre o breakfast e o lunch, onde nunca se é um bom dia nem uma boa tarde.
Perceber se alguém almoçou para lhe desejar corretamente o bom-qualquer-coisa correto, convenhamos, exige dons de clarividência ou, no mínimo, o instinto de um perdigueiro, farejando resquícios de odores de sardinha no ar.
O que pode tornar um simples cumprimento um processo kafkiano.
— Com licença.
— Diga.
— O senhor já almoçou?
— Sim, carapaus à espanhola, um copo de vinho, baba-de-camelo e um café cheio.
— Parece delicioso, sendo assim, boa tarde, o senhor poderia me dizer onde fica…
Para facilitar a vida dos não-iniciados, em nome da boa convivência social deveria ser obrigatório às pessoas em Portugal propositalmente deixarem pistas claras se já haviam almoçado, sei lá, uns farelos de queijo da serra na lapela, uma visível nódoa de cozido na manga da camisa, ou andar pela rua escandalosamente palitando os dentes.
Mas ainda assim deve existir uma maneira humanamente mais fácil de acertar o cumprimento a um português. Na próxima vez que encontrar o Diogo vou perguntar como ele faz, mas temo ouvir a mesma resposta de sempre:
— Ê, pá, lá vens tu com essas coisas do Novo Mundo…

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