Joana Rita aponta para a inscrição na lateral do jazigo de Almada Negreiros, onde se lê “A alegria é a coisa mais séria da vida”. A frase no monumento fúnebre do artista português no cemitério do Alto de São João em Lisboa resume a “filosofia” de um passeio que tem guiado crianças e pais, com leveza e sinceridade, pelo delicado percurso da morte. 

“Quando uma criança tem uma curiosidade e faz uma pergunta sobre um assunto, é sinal de que ela já está preparada para uma resposta”, ensina a filósofa Joana Rita, idealizadora das Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais – um conjunto de iniciativas que pretende ajudar as crianças (e também os pais) a lidarem com questões filosóficas da vida. 

Questões filosóficas da vida como é a morte. 

Afinal, se os filósofos desde a Antiguidade andam a procurar por um sentido para a vida, é porque a vida, segundo a filósofa, é finita. “Uma das motivações que levaram a filosofia a questionar a nossa existência é justamente porque essa existência vai acabar”, reforça a lisboeta de 47 anos, licenciada pela Universidade Católica.

Ao contrário de muitos filósofos que se dedicam a estimular os alunos em sala de aula, Joana preferiu filosofar na prática, aplicando-a às empresas, corporações e, especialmente, na vida social “Uma filosofia pública, junto das pessoas, não só nas escolas, mas no trabalho, nos cafés e, assim, pronto, há agora filósofos também nos cemitérios”, diverte-se.

Sentada num banco entre os jazigos do Alto de São João, Joana conta que essa filosofia pública não requer do interessado nenhum conhecimento prévio sobre o assunto. “Não há pré-requisitos, a não ser a disponibilidade para pensar”, explica, metida num casaco decorado com uma das famosas e festivas caveiras mexicanas do Dia de los Muertos. 

É, portanto, com a morte bordada no peito, que Joana convida os vivos para, desde pequeninos, verem a morte com outros olhos: a próxima oportunidade é o passeio pelo próprio cemitério do Alto de São João, no dia 17 de outubro, às 10h30, onde, como manda a filosofia, filhos e pais serão provocados a filosofar sobre Será que a vida mora aqui?

Emojis esculpidos nas lápides

De repente, uma carrinha quebra o silêncio entre lápides e jazigos do Alto de São João. “É a linha de autocarro do cemitério”, explica Joana Rita, enquanto o veículo lentamente transporta os vivos pelas ruas do maior cemitério de Lisboa, construído em 1833, para dar conta das vítimas da epidemia de cólera.

Oficialmente chamado de Cemitério Oriental, popularmente conhecido com o nome da topologia onde foi construído, no Alto de São João, é o primeiro cemitério de Lisboa. Uma imensa Cidade dos Mortos que se estende por uma área de 22 hectares de área, a metade do tamanho da cidade do Vaticano.

A imagem de um cão acompanha o dono em seu descanso eterno: símbolos fúnebres que funcionam como emojis. Foto: Álvaro Filho.

Uma cidade silenciosa que nos ajuda a pensar sobre a nossa ruidosa cidade. “As pessoas costumam pensar que os cemitérios são sítios sem vida. Pelo contrário. São espaços onde é possível aprender sobre a cidade, o país, sobre sua história e o seu património. Em vários aspetos, a Cidade dos Mortos reflete a cidade dos vivos”, ensina. 

E alguns reflexos dos assuntos da vida no mundo dos mortos estão gravados em pedras.

A escultura do cão, do melhor amigo, de um instrumento de trabalho da pessoa em vida e até um jazigo espelho de uma típica casa portuguesa ajudam a compor a memória de quem já não está mais entre nós. “As crianças percebem esses símbolos como uma espécie de emojis”, diz.

O reconhecimento do terreno é o ponto de partida do passeio com cerca de uma hora e meia de duração guiado pela filósofa, na companhia da investigadora cemiterial Gisela Monteiro. A atividade começa com um tour por entre alguns monumentos fúnebres que remetem à relação do morto com a sua vida. 

Como o curioso jazigo do médico Abel Jordão, um legista falecido em 1874. A lápide do doutor Abel, cuja máscara mortuária está em destaque, deixa claro a sua vocação, reproduzindo uma mesa de autópsias com os instrumentos cirúrgicos utilizados pelo médico gravados sobre a campa, tudo esculpido nas devidas dimensões originais.

Alguns jazigos propõem reflexões laborais. É o caso do Visconde de Sanches Frias, uma construção imponente, efígie do nobre e brasão da família gravadas, sublinhados pela frase “Trabalha embora morras”. A dúvida é: conselho para se trabalhar menos, pois todos morreremos, ou a advertência para se continuar a trabalhar apesar da inevitável morte um dia chegar?

A resposta ao enigma o visconde levou consigo. 

O trabalho, seja o de médico ou de nobre, é a certeza para a filósofa Joana de que a morte inclui-se nas questões filosóficas da vida que nos fazem refletir sobre o nosso futuro deste lado aqui. “É como perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer”, explica. 

Para a filósofa, quando o filho traz uma dúvida sobre o assunto, os pais tendem a ignorar, muito por acreditar que a criança não está preparada para o tema. “Mas está sim. Não há idade certa para falar sobre a morte. Se a criança pergunta, já é a idade certa para ter uma resposta”, sugere. 

Gincanas e entrevistas

Um rumoroso funeral, com prantos coletivos e abraços ao caixão, interrompe a entrevista. É o luto no seu estado bruto. Os vivos diante da dor, da ausência, da saudade, mas também diante da constatação de que a própria existência tem um fim e que, mais lento ou mais rápido, caminhamos em direção ao nosso destino fatal. 

Apesar de a morte soar como um tema distante do universo infantil, é provável que o pequeno se depare com ele mais cedo ou mais tarde. “Muitas crianças, ao perceberem a existência da morte, temem pela morte dos pais. Nos passeios, elas costumam encontrar outras crianças com os mesmos dilemas e saber que não está sozinha nessa dúvida é um alívio”, explica Joana.

Esqueletos e caveiras nos monumentos fúnebres costumam interessar as crianças. Até para “entrevistas”. Foto: Álvaro Filho.

As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais, portanto, são uma oportunidade para os pais perceberem como um assunto aparentemente sério, pesado, como a morte, pode ser abordado de forma leve, divertida e didática com os pequenos. Longe das atividades banais típicas do Halloween ou caça aos fantasmas, uma oportunidade de refletir de forma filosoficamente estruturada.

Para isso, Joana propõe atividades para atiçar a curiosidade dos pequenos participantes, como diálogos entre os participantes, uma espécie de “gincana” à caça de esqueletos ou “entrevistas” às caveiras nas lápides. 

“As crianças são ótimas. Já perguntaram à caveira se preferia estar morta ou viva ou se gostaria de ter virado pó”, conta, numa referência à cremação, um tema bastante popular nos passeios guiados. “Os miúdos não entendem como um corpo tão grande de uma pessoa pode caber num vaso tão pequeno”, completa, lembrando que o cemitério de Alto de São João foi o primeiro em Lisboa a oferecer o serviço crematório.

Algumas questões sobre o além da vida, porém, estão também além das propostas do passeio, evitando sempre desvios mórbidos ou traumáticos. “A atividade não é prevista para responder sobre para onde vamos depois de morrer ou amenizar a experiência do luto. Se esse for o caso, há outras ferramentas teológicas e terapêuticas mais apropriadas”, adverte a filósofa. 

Um dos pontos de maior reflexão para os pequenos durante o passeio dá-se diante do túmulo da pequena Cacilda. “A morte de uma criança traz sempre algum sentimento, pois soa como algo que contraria um processo natural”, conta a filósofa, diante da imagem gravada na pedra de uma mãe, a filha ao colo, tentando em vão protegê-la do anjo da morte.

A imagem da mãe que tenta em vão evitar a morte de levar a filha esculpida no túmulo da pequeno Constância. Foto: Álvaro Filho.

Turismo cemiterial

Para os mais desavisados, pode soar estranho os pais levarem os filhos para um tranquilo passeio matinal por entre caveiras e anjos tristes esculpidos nos túmulos, mas essa atividade é mais comum do que se pensa e tem até nome: “turismo cemiterial”.

A edição do Será que a vida mora aqui? em outubro é a oitava guiada por Joana e Gisela.

A programação faz parte da quinta edição da Semana Cultural nos Cemitérios, organizada pela Câmara Municipal de Lisboa e que, desde o dia 10 até o dia 18, oferece não só visitas e outras atividades para as famílias, mas também conversas e workshops, cruzando o património funerário de Lisboa com a história, a arte, a arquitetura e, claro, a filosofia. 

A entrevista encerra-se envolta pelo odor da cera das velas a derreterem sobre as lápides. A metáfora para a nossa vida que se consome e um dia também vai expirar – embora a vela ensine que antes da escuridão haverá luz.

Como a luz iluminada pela filosofia.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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