Dizem que o circo morreu. Lisboa tem outra versão. Ao longo de seis reportagens, a série “O Circo em Lisboa” mergulha na história e na vida desta arte tão antiga, que tem resistido à passagem do tempo e às mudanças culturais da cidade. Através de entrevistas com artistas, historiadores, sociólogos e outros especialistas, lembramos os tempos dos grandes espetáculos itinerantes e as novas formas de expressão contemporânea e urbana.
Por Maíra Streit, jornalista e coordenadora desta série premiada no âmbito do Programa Lisboa, Cultura e Media, da Lisboa Cultura.
Às dez da manhã, antes de entrar no primeiro quarto do hospital, há um pequeno ritual: aquecer o corpo, preparar a voz, vestir o figurino, sem esquecer, é claro, o emblemático… nariz vermelho. Seguem-se as informações sobre cada membro da plateia: nome, idade, se é necessário usar máscara, bata ou luvas, se pode receber visitas, se está em jejum. O diagnóstico, quase sempre, fica de fora. Não é a doença que interessa ao Doutor Palhaço. É a criança que existe para além dela.
Às 10h30, as portas dos hospitais abrem-se para eles. Ainda assim, não se invade aquele espaço sem um aceno, um olhar ou qualquer outro sinal que indique consentimento. Se a resposta for negativa, os palhaços recuam ou ficam por perto, à espera de que aquele se transforme, talvez, num sim.




O som do banjo convida às canções, uma almofada pode virar uma personagem engraçada e, de um simples copo de plástico, nasce uma história louca e inesperada. Quando a brincadeira encontra o seu caminho, o sorriso cresce e dá lugar a gargalhadas que ouvimos até nos corredores.
Assim é a rotina dos 39 profissionais da Operação Nariz Vermelho, organização não governamental que, desde 2002, leva aos serviços pediátricos dos hospitais portugueses momentos de alegria, improviso, escuta e presença.
De Lisboa ao Porto, passando por Vila Franca de Xira, Setúbal, Leiria, Aveiro, Viseu, Coimbra, Braga e Guimarães, o trabalho da Operação Nariz Vermelho chega hoje a 24 hospitais do país, onde atua ao longo de 42 semanas por ano. Entre eles estão o Hospital de Santa Maria, o D. Estefânia, o São Francisco Xavier, o IPO Lisboa, o Hospital de Cascais e o Hospital Beatriz Ângelo. São dezenas Doutores Palhaços em ação, apoiados nos bastidores por uma equipa de 21 colaboradores.
E é esse movimento que começa agora também a chegar à preparação dos futuros médicos.




O que é preciso para ser Doutor Palhaço
Numa parceria com a Universidade de Lisboa, a organização colabora diretamente na unidade curricular “A Arte do Doutor Palhaço no Contexto da Formação dos Estudantes de Medicina”, que integra, desde o ano passado, o Mestrado Integrado em Medicina.

A ideia nasceu de uma constatação feita nos corredores do hospital: ao acompanhar de perto o trabalho dos palhaços, o neuropediatra e professor Tiago Proença dos Santos reparou que os artistas conseguiam estabelecer com uma criança assustada uma relação que, por vezes, escapava aos próprios profissionais de saúde. Coube-lhe levar o projeto para a Universidade, onde é docente.
A primeira edição da unidade curricular tornou-se realidade em setembro de 2025, com as 20 vagas iniciais esgotadas. A segunda contou com 23 estudantes. A terceira está agora em curso e a quarta já está prevista para fevereiro de 2027.
A metodologia construída, testada e aperfeiçoada pela organização ao longo de mais de duas décadas foi o ponto de partida para uma proposta pedagógica centrada na dimensão humana da medicina. A expectativa é que, com o tempo, esta formação tenha um lugar regular no plano de estudos, deixando de estar limitada ao regime opcional.
Durante as aulas, realizadas na sede da Operação Nariz Vermelho, os estudantes começam a reparar naquilo que normalmente passa despercebido: a postura, a direção do olhar, o tom da voz, o silêncio entre as frases, a distância a que se colocam, a energia com que entram nos lugares. As propostas incluem jogos de atenção, experiências de linguagem corporal, simulações de comunicação clínica e momentos de reflexão em grupo.
É um ambiente protegido para experimentar, falhar e voltar a tentar antes de transportar essas aprendizagens para um contexto real. “A reação inicial é de alguma estranheza, e isso faz parte: é-lhes pedido que se exponham ao erro e ao ridículo num contexto em que estão habituados a ser avaliados pelo acerto. Ultrapassada essa barreira, a adesão é total”, explica Tiago.

A intenção, neste caso, não é ensiná-los a fazer rir, mas a desenvolver competências necessárias também ao exercício da medicina, como a empatia perante a vulnerabilidade de quem está do outro lado. Com a pressa e a sobrecarga de trabalho, o risco, segundo o professor, é que os médicos se afastem dessa parte essencial da profissão.
A improvisação é uma das ferramentas utilizadas nas aulas para chegar a esse objetivo. “Uma consulta é quase sempre isso. Preparamos uma conversa e a pessoa começa a chorar ao segundo minuto, ou faz a pergunta que não queríamos ouvir, ou o pai reage com uma agressividade que não estava prevista. Quem apenas sabe seguir o guião bloqueia”, conta o responsável pela cadeira.
Tal como o Doutor Palhaço não faz ideia do que encontrará quando abre uma porta, também o médico não controla tudo o que pode acontecer dentro de uma consulta. A realidade está sempre a mudar de direção. O treino ajuda a lidar com as emoções dos doentes e familiares num quotidiano feito de surpresas, muitas delas marcadas pela dor, pelo medo e pela incerteza.
O médico que aprendeu a escutar
A aluna Mara Sanches começou a unidade curricular em setembro à procura de ferramentas que a ajudassem a comunicar melhor, mas rapidamente percebeu que a proposta ia além disso. Foi desafiada por conteúdos que nunca tinha encontrado nos livros. Numa medicina cada vez mais tecnológica e acelerada, diz, essa consciência tornou-se ainda mais importante.
As atividades fizeram-na pensar no hospital e nas vezes em que o olhar do médico acaba preso ao computador enquanto o doente está diante dele. Numa das propostas, os estudantes tiveram de ouvir a história de um colega sem interromper, comentar ou procurar imediatamente uma solução. A intenção é, precisamente, evitar reações automáticas e desenvolver uma atenção capaz de reconhecer o que acontece naquele encontro.


É essa consciência que Mara quer levar para a prática, sobretudo nos momentos em que a medicina não oferece respostas fáceis, como perante uma má notícia, um diagnóstico crónico ou no fim da vida de alguém.
“Quero ser uma pessoa verdadeiramente interessada no outro, capaz de parar, olhar e escutar antes de assumir que já compreendi tudo. Quero lembrar-me de que a presença treina-se, de que uma recusa também pode ser uma forma de relação, de que a leveza e o rigor não são opostos”, conta.
Como este curso pode curar

“Um dia, vamos cruzar-nos nos corredores dos hospitais com muitos destes estudantes, vamos trabalhar lado a lado em prol de humanizar a experiência de internamento para muitas crianças”, lembra a diretora-geral da organização, Anabela Possidónio. “Por isso, se pudermos desde já partilhar as técnicas, a linguagem e o imaginário dos Doutores Palhaços, mais tarde estas sinergias e parcerias surgirão de forma muito mais natural”, completa.
Porque no meio de exames e medicamentos, há uma criança que continua a querer brincar, conversar, imaginar e ser vista para além do que está escrito no seu processo clínico.
Anabela defende que, quando a relação com os profissionais de saúde é boa, os pacientes aderem mais facilmente às terapêuticas recomendadas, o que pode contribuir para uma recuperação rápida e com melhores resultados.
A Dra. Sapa e o Dr. Custódio
Joana Sapinho e Tiago Quites conhecem bem a arte de fazer rir e encontraram-se nesta missão depois de seguirem caminhos distintos. Ela, atriz portuguesa com passagens pelo teatro, cinema, publicidade e televisão, deu à Operação Nariz Vermelho, desde 2022, a Dra. Sapa, uma palhaça cuja trapalhice e sentido de absurdo fazem parte do seu modo de criar.
Ele, ator brasileiro, trouxe na bagagem duas décadas de experiência no universo do clown e uma personagem chamada Dr. Custódio, apresentado como um especialista em “conquistar corações”. Entre a irreverência de Sapa e o gingado de Custódio, os dois percorrem os corredores dos hospitais com uma habilidade particular para transformar quase tudo em matéria de brincadeira.


Joana recorda que, certa vez, uma menina de três anos, invisual e em recuperação, passou a reconhecer a presença dos palhaços antes mesmo de eles chegarem ao quarto. Quase não falava, mas bastava ouvir os passos ou o som do banjo para começar a cantar a música que a dupla costumava levar consigo.
A canção tornou-se também parte das sessões de fisioterapia: a equipa percebeu que a menina fazia melhor os exercícios quando a ouvia. “Não vamos ser mais uns adultos a entrar no quarto com pena. O que nos importa é ir conectar com o lado saudável da criança, aquele que quer brincar”, sublinha.
A atriz recorda ainda outra situação marcante. Na despedida de um hospital de Cascais, ao terminar o período dos palhaços naquela instituição, profissionais de diferentes áreas prepararam uma surpresa. Entre abraços e palavras de agradecimento, uma funcionária da limpeza chorava diante da ideia de já não os ver por ali.
São estes acontecimentos subtis que revelam a dimensão de um trabalho que envolve crianças, pais, avós, médicos, enfermeiros, auxiliares, administrativos, seguranças e tantas outras pessoas que encontram alegria e conforto num ambiente antes concentrado na doença.
Tiago também destaca a importância de perceber tudo aquilo que está à volta: no hospital, há familiares ansiosos, profissionais cansados, equipas sob pressão e um ambiente que pode pesar sobre quem está internado. É nesse espaço que os Doutores Palhaços procuram intervir para tornar a realidade um pouco mais leve.
“Nós tentamos cuidar do que está em torno dessa criança para que o entorno cuide dela”, explica.
A ideia, diz, passa por respeitar a individualidade, a dor e o momento de cada um, sem transformar o trabalho dos palhaços numa atuação centrada neles próprios. A brincadeira pode começar com a criança, mas os seus efeitos estendem-se a quem a rodeia. Se uma mãe se sente mais tranquila, se uma enfermeira sorri ou se o ambiente do quarto se torna menos tenso, também a criança pode beneficiar dessa mudança.
E é aqui que as duas experiências — a dos estudantes e a dos Doutores Palhaços — voltam a encontrar-se. Quando a ronda termina, o figurino volta a ser guardado. O nariz sai. A maquilhagem desaparece. O hospital continua ali, com os seus corredores, os seus monitores, as suas batas e os seus tratamentos. No dia seguinte, tudo recomeça. “Podemos entrar?”.


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Uma matéria conduzida com sensibilidade sobre uma iniciativa admirável, que ensina aos futuros médicos o valor da empatia e do acolhimento. Ver a criança para além da doença é uma lição de humanidade que merece lugar na formação médica.
Trabalhos como este fazem-nos recuperar a fé na humanidade, e a escrita é tão envolvente que nos transporta para um mundo de magia. A Mensagem sempre a trazer-nos reportagens que nos fazem pensar, refletir e emocionar. Continuem!
Que iniciativa potente! Como psicóloga e mãe de 2 médicas, acredito muito que a cura passa também pelo encontro humano. Ensinar futuros médicos a resgatar o olhar, a escuta e até o riso como ferramenta de cuidado é resgatar a essência da profissão. Humanizar é também cuidar da saúde mental de quem cuida e de quem é cuidado.
Excelente matéria, abrangente e intensa! Não só informou, mas também conseguiu transmitir a energia boa e humana dessa experiência incrível. Parabéns a todos.