Era um desejo antigo. Muitos dos moradores de Arroios perguntavam à Junta de Freguesia como poderiam tomar conta de um canteiro ou jardim abandonado perto das suas casas. Fazer como o jardineiro Nuno Prates, por exemplo, que começou aquilo que ficou conhecido na cidade como “jardinagem de guerrilha”. Os vizinhos de Arroios queriam formalizar essa vontade toda. Finalmente, o executivo aliou-se a ela. É por isso que, a partir de 1 de outubro, a Junta de Freguesia estende a palavra “padrinho” aos espaços verdes públicos.
A partir de agora, qualquer freguês pode adotar um cantinho verde, entre os mais de 40 sinalizados e a precisar de cuidados. E foi exatamente Nuno Prates quem ajudou a regulamentar a iniciativa.
Manuel Banza, assessor do gabinete da presidência da Junta de Freguesia de Arroios e um dos impulsionadores desta iniciativa, explica que “o grande objetivo é criar um sentido de comunidade para as pessoas estarem mais envolvidas com o espaço público”. Não exatamente “desresponsabilizar a junta de freguesia de cuidar de estes espaços”. Pelo contrário, diz: “Nós queremos continuar a fazê-lo, mas com a ajuda da população”. Porque os recursos da própria freguesia, alerta, são escassos.

É através deste site que tudo começa: num mapa, encontramos todos os espaços sinalizados pela Junta e que podem ser apadrinhados. São 44 espaços verdes de Arroios, entre jardins e canteiros, embora apenas entre 10 a 12 é que vão estar disponíveis na primeira fase de candidaturas.


O que é preciso para ser padrinho de um espaço verde?
Desde que viva, resida ou trabalhe nesta zona da cidade de Lisboa, pode ser padrinho de um espaço verde público.
Todas as pessoas que se candidatarem têm, obrigatoriamente, de inscrever-se em uma das três sessões de boas-vindas, que vão acontecer entre outubro e novembro. É dentro deste contexto que os responsáveis vão explicar as regras da iniciativa e falar sobre os espaços em questão e os cuidados que os mesmos necessitam.
O espaço fica a cargo de uma pessoa durante um ano, e é renovável.
De momento, a junta já registou várias manifestações de interesse sobre esta iniciativa e, claro, há moradores que já se encontram a cuidar, informalmente, de certos espaços verdes.




O jardineiro que ajudou a criar o regulamento dos padrinhos
Há alguns anos, Nuno Prates, jardineiro, fez do pequeno “Jardim das Plantas Doadas”, numa rua interior de Alvalade, entre a Avenida Estados Unidos da América e o Bairro das Estacas, um momento de mudança história cívica em Lisboa. Os jardins tinham-se tornado campos de batalha cívicos. A história, contada pela Mensagem em 2021, obrigou a Junta de Freguesia de Alvalade a criar um regulamento que acomode os jardins feitos pelo interesse dos cidadãos.
Por isso também, foi Nuno quem deu “o pontapé de saída” em Arroios. Como cidadão, primeiro, pois é residente da zona.
“Isto não é um conflito, não é um confronto. Quem me dera que a câmara municipal e as juntas de freguesia me dessem apoio, mas eu não vou passar todos os dias por um sítio que está negligenciado, saber que posso fazer uma intervenção direta e cuidar dele e não o fazer. Portanto, faço. Eu só sou um jardineiro, um cidadão irrequieto. É participação ativa. É mais jardinagem de colaboração do que de guerrilha.”
Nuno Prates, jardineiro

Nuno criou uma minuta para os cidadãos poderem preencher e entregar às suas juntas para, depois, estas poderem criar regulamentos adaptados aos locais sobre espaços verdes. Ele próprio preencheu a sua minuta para Arroios. E deixou a ideia germinar no regulamento desta nova iniciativa de apadrinhamento de jardins e canteiros. Sabendo que seria um processo demorado, algo que Nuno respeita. Aprendeu, com o caso em Alvalade, a ter confiança sobre a sua missão.
Acredita ser uma mais valia para todos: “Não quero substituir a junta de freguesia, não quero substituir os seus técnicos de espaços verdes que trabalham. Não tenho nenhum tipo de ambição política. Apenas acho que a manutenção de espaços verdes pode ser melhorada com uma elevação da população, onde a população também mostra interesse sobre estes espaços. Eu quero abrir a porta e abrir a janela e ver um bom ambiente.”.
Entre a bondade do cidadão e o dever de uma Junta de Freguesia
A minuta de Nuno foi adaptada à realidade da freguesia de Arroios. Apesar de achar que a iniciativa é boa e confiar na sensatez da Junta, acha exagerado como atualmente toda a responsabilidade fica do lado dos cuidadores dos espaços.
“É a junta que tem de, por exemplo, limpar o material vegetal de desperdício. O cidadão não tem capacidade para fazer este tipo de gestão, pois apenas está a cuidar do espaço para o melhorar”.
Nuno dá o exemplo: “Imagine que é preciso recuperar um canteiro de três metros quadrados que tem vários arbustos e produz dez quilos de desperdício vegetal. O que é que uma pessoa faz com dez quilos de matéria orgânica? Vai deitar no contentor de sua casa? Tem de existir um equilíbrio entre a bondade do cidadão se importar e colaborar no espaço público e a junta de freguesia. O transporte de um volume de dez quilos até ao ecoponto não é fazível para uma pessoa comum.”
Reconhece que este programa de apadrinhamento e o regulamento são um bom começo em Arroios.

Manuel Banza lembra que, quando chegou à junta, a equipa de espaços verdes era muito pequena. Era impossível cuidar de todos os espaços verdes com tão poucas pessoas. Entre eles, Fernando Neto, técnico superior da equipa de espaços verdes, que naquele dia pousava ao lado de Banza, junto a um dos locais que podem ser apadrinhados e transformados na freguesia. Comentava com Banza que a limpeza ali tinha sido feita apenas há uns dias. “Está pronto para a inauguração”, brincava.
O atual executivo, diz Banza, está a aumentar a capacidade de trabalhadores no espaço público, especialmente para não morrerem grandes plantas e árvores.
“Mais do que plantar, é importante garantir que o que existe sobrevive. Este pensamento também nos levou a pensar que é muito importante envolver a comunidade.”
Manuel Banza, assessor do gabinete do presidente da Junta de Freguesia de Arroios
Diz ainda que não existem sistemas de rega em alguns pontos da freguesia de Arroios e muitos espaços, que agora são verdes, eram antigos edificados. Ou seja, o local foi demolido e depois nenhum projeto que pudesse existir para aquele espaço se concretizou.
Para garantir que estes espaços não voltam a ficar sem nenhum tipo de cuidados, Banza afirma que vai existir um acompanhamento por parte de uma equipa técnica, que irá identificar se o local se encontra em constante acompanhamento, ou não, do cidadão responsável por aquela área verde.
Se um canto voltar a estar sem assistência, a responsabilidade sobre o local, volta completamente para a junta de freguesia, onde um cuidado especial sobre o espaço será feito para, em pouco tempo, poder devolver o espaço ao cuidado de um novo cidadão.
“Não queremos dar um terreno que tem lixo a uma pessoa. Aí, sim, parece que a junta está a tentar desresponsabilizar-se. Nós queremos ir até ao local com as pessoas e nos primeiros dias trocar a terra e plantar, dar dicas sobre o terreno. A partir desse momento, é esperar que a pessoa fique autónoma. Sempre que precisar, vai ter os contactos dos nossos técnicos, que a podem ajudar”, afirma Banza.
Quem também se encontra sempre à disposição para aconselhar e explicar detalhes é, mais uma vez, Nuno Prates, devido à sua experiência em resgates de espaços verdes públicos.
“Os materiais de trabalho são o menos. É muito mais importante dar continuidade e alento ao cuidador, ele vai descobrir que não é fácil cuidar de espaços verdes. É muito mais importante dar esse alento aos cuidadores para que eles não desistam, do que apenas dar ferramentas para trabalhar”, remata Nuno.
Para o “jardineiro de guerrilha”, esta pequena dificuldade é uma oportunidade para “educar a população a olhar” à sua volta.

O futuro dos espaços verdes em Arroios
Nuno Prates não se candidatará a padrinho de nenhum dos locais sinalizados, assume. Está com outro papel em mãos: quer combater o problema de espaço, envolver-se na criação de mais zonas verdes por Arroios, “para abrir canteiros onde se possa plantar”. “Já tenho localizado um ou outro sítio. Vou propor e aí, sim, vou candidatar-me para cuidar desses possíveis novos espaços.”
Um desejo alinhado com os da Junta de Freguesia de Arroios, que quer trazer mais plantas e mais árvores para a freguesia para “combater o efeito de ilha de calor“. “Arroios é uma das freguesias que mais sente os efeitos do calor. Queremos combater este problema”, revela Manuel Banza.
Nuno também acredita que um espaço verde é capaz de criar e fortalecer comunidades. Um eco simpático por parte da população por ver uma área verde a ser restaurada pode passar a agradecimentos e a momentos de partilha, sobre o trabalho que está a ser feito ou não, entre a vizinhança.
Também cria uma vontade de participação. “O público olha para uma planta que ele mesmo forneceu e plantou e pensa “Fui eu!”. A população também torna-se vigilante do canteiro, pois sente-se responsável, gratificado e reconhecido”.
Os vizinhos que cuidam de um canteiro há mais de 20 anos… e os jardins de chuva no Brasil
O caso de Arroios, e Alvalade, não é único. Em vários bairros e várias cidades pelo mundo, cuidar de um jardim deixou de ser apenas uma tarefa das autoridades locais.
Em Anchorage, a maior cidade no Alasca, a autarquia cedeu 30 canteiros municipais para serem adotados por moradores: quem escolhe um compromete-se a plantar, regar, cuidar dele durante a época de crescimento. Há jardins que têm o mesmo “guardião” há mais de 20 anos.
Em Belo Horizonte, no Brasil, a ideia ganhou uma dimensão ainda mais curiosa: os cidadãos podem adoptar jardins de chuva – são pequenas estruturas verdes instaladas pela autarquia para ajudar a absorver a água da chuva e reduzir o risco de inundações (um problema familiar a Lisboa). Quando o programa arrancou, em 2024, já havia 64 destes jardins em ruas e espaços públicos e chegaram 113 pedidos de adoção. A Câmara instala a infraestrutura e os moradores cuidam dela.
E em Joaçaba, também no Brasil, uma moradora, Karen Kristine Neuhauser, foi selecionada para assumir, durante três anos, uma área verde pública onde se comprometeu a plantar árvores de fruto e flores, criar uma horta comunitária, instalar bancos e uma zona para crianças e garantir a manutenção do espaço.
Faz lembrar a história de Florentina, que fez com as suas mãos (e dos vizinhos) um paraíso entre prédios de Alvalade.
*Texto editado por Catarina Reis

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

