João Paulo Santos nunca se considerou um fotógrafo. E o seu método é simples: um telemóvel, algo que lhe chame a atenção e um ângulo que pareça “o certo”. Há nove anos que transporta passageiros pela cidade, é motorista TVDE – essa mal amada, mas tão requisitada, profissão, em Lisboa. Ao longo destes anos, durante as viagens, o telemóvel dele foi-se enchendo de fotografias de locais e momentos ao longo do trabalho. Agora, algumas dessas imagens fazem parte de uma exposição de fotografia da Bolt, que inaugura em Lisboa a 11 de setembro: pela primeira vez, a visão destes e de outros motoristas num espaço expositivo.

Em vez de pedir a fotógrafos profissionais para documentar Portugal, o projeto recorre a pessoas que passam horas a deslocar-se pelas suas ruas e estradas, muitas vezes sem saber para onde as levará a viagem seguinte.

“Sou amador e não tenho conhecimento de fotografia. É simplesmente pegar no telemóvel e achar que aquele ângulo é o melhor e tirar,” diz João Paulo, 60 anos.

Essa incerteza é central para a ideia por detrás da exposição, diz Mário de Morais, diretor-geral da Bolt em Portugal. “Um motorista não sabe para onde vai. Por isso, acho que é um ponto de vista bastante interessante vivenciar a cidade quando não se sabe onde se vai parar ou terminar.” Por isso, descreve a exposição como sendo sobre “a pequena história na grande história da cidade”: momentos individuais que se acumulam para contar algo maior sobre Lisboa – embora haja fotografias de todo o país.

A Bolt teve 58 submissões a este desafio.

A ideia, explica, era olhar para a cidade através dos olhos dos motoristas que trabalham com a plataforma e captar as pequenas experiências que surgem das suas viagens diárias. As fotografias resultantes deste desafio podem mostrar locais que qualquer pessoa poderia visitar e fotografar, mas o que as torna diferentes, defende Mário de Morais, é a forma como os motoristas ali chegaram.

O objetivo, afirma, é tornar a relação entre motoristas e utilizadores “mais humana”, diz o representante da Bolt. Embora não reconheça estas relações como sendo geralmente más. Quando questionado sobre se a exposição poderia mudar o comportamento das pessoas em relação aos motoristas, argumentou que a maioria das interações já corre bem e que os casos negativos são conhecidos porque tendem a dar mais nas vistas.

O que há para contar em nove anos ao volante?

Para João Paulo, estas viagens fazem parte da sua vida há quase uma década. Começou a conduzir há nove anos e diz que o gosto pela condução é uma das razões pelas quais se manteve na profissão. Os seus dias de trabalho duram geralmente entre seis a oito horas, atingindo por vezes as dez.

Conduz um veículo de oito lugares e trabalha frequentemente em zonas turísticas e áreas centrais da cidade. Mas quando lhe perguntam o que mais gosta na profissão, João Paulo não menciona o carro nem as estradas. “O contacto com as pessoas,” diz.

João Paulo Santos, 60 anos, é motorista TVDE. Foto: DR

Nove anos a transportar desconhecidos também lhe deixaram histórias. E um dos momentos de que mais se recorda envolveu uma grávida com os primeiros sinais de parto. Tinha tomado banho, preparado a mala e chamado um Bolt para a levar ao hospital para ter o bebé. No carro, lembra Paula, recebe repetidamente pequenos fragmentos das vidas de outras pessoas.

Por isso também, João Paulo acumulou fotografias ao longo dos seus anos na estrada. Então, quando os motoristas foram convidados a contribuir para a exposição, submeteu algumas das suas imagens mais recentes.

Para alguém que não se considera fotógrafo, ver essas observações do quotidiano integrarem uma exposição foi inesperado.

A exposição inaugurou a 11 de setembro e pode ser visitada na livraria Palavra de Viajante, Rua de São Bento, 34, em Lisboa.


Norina Sohail

Norina Sohail é uma jovem afegã de 27 anos que vive em Lisboa. Mudou-se para Portugal em março de 2022 e iniciou a sua licenciatura em Jornalismo em 2023. A par dos seus estudos académicos, realizou um estágio na Mensagem de Lisboa.

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