“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Uma foliada é isto: numa praça de uma vila qualquer da Galiza, toda a gente se junta, cada um leva o seu instrumento e toca-se e baila-se e come-se e bebe-se noite dentro. Na Rua Júlio de Andrade, 3, na freguesia de Santo António, perto do Jardim do Torel, faz-se o mesmo na Xuventude de Galicia – Centro Galego de Lisboa, mais ou menos de mês a mês, num palacete que um milionário galego ofereceu aos seus compatriotas.
Entram gaitas de foles e pandeiretas, claro, mas também acordeões, violinos, um saxofone que apareceu recentemente e até grupos de roda de samba, porque “os brasileiros estão sempre prontos para a festa”, ri Alejandra Vázquez, professora de pandeireta na Xuventude e uma das organizadoras das foliadas. Nas últimas três, contaram-se, “sem exagerar”, 200 a 300 pessoas. Gente que ficaria a tocar e dançar madrugada dentro, não fosse a porta ter de fechar.


Fotos: Rita Ansone e Xuventude de Galicia.
Houve um tempo, em que a casa esteve como que adormecida, a precisar de obras, de atividades e de gente. Desde 2022, tem vindo a rejuvenescer, tendo a nova direção, presidida pelo economista Jesús Bescos, estabelecido como prioridade recuperar o palacete e enchê-lo de vida.
A programação cultural ganhou novo fôlego com concertos, encontros literários, lançamento de livros, exposições, oficinas e palestras e há menos de um ano foi criado um coro, o Xuventude Coral – Coro do Centro Galego de Lisboa, dirigido pelo maestro Luís Lopes Cardoso, que veio juntar-se às escolas de música – com aulas de piano, canto, gaitas de foles, percussão ou pandeireta – e de dança, com sevilhanas, flamenco ou baile galego.
No próximo mês de setembro, estreia um ciclo de cinema da Galiza.



A história de como se reacendeu a chama da Galiza em Lisboa conta-se em pessoas e vontades que se encontraram, juntaram e produziram a imprescindível faísca. Entre elas, que são muitas, está Paulo Marinho, português apaixonado pela cultura galega e professor de gaita de foles, Paula Ferro, galega, gestora hoteleira e atual vice-presidente da Xuventude de Galicia, e Alejandra Vázquez, gestora de recursos humanos na área portuária e percussionista nas horas livres.
De aguadeiros a milionários
Antes, a história, que é longa – 117 anos de associação e alguns séculos de galegos em Lisboa. Começaram a chegar há 500 anos, vieram em força nos séculos XVIII e XIX, ajudaram a reconstruir a cidade depois do Terramoto de 1755 e de aguadeiros, moços de fretes, carvoeiros, taberneiros fizeram-se homens de negócios, industriais, donos de restaurantes e de hotéis.

Vinham para Lisboa porque era mais perto do que Madrid, porque daqui poderiam dar mais facilmente o salto para a América Latina e porque a língua portuguesa, irmã da galega, facilitava o entendimento e a integração.
Em novembro de 1908, alguns deles juntaram-se e fundaram a Xuventude de Galicia – Centro Galego de Lisboa, ponto de encontro da que ainda hoje é chamada de “colónia galega”, que tinha como grande propósito a preservação da cultura e das tradições galegas, em particular da música, da dança e da língua.
Durante décadas, a sede foi na Rua da Madalena, até que Manuel Cordo Boullosa, que fez fortuna com o negócio do petróleo, vendido, em grande parte, nas carvoarias dos compatriotas, quis retribuir-lhes a consideração e doou à associação o palacete Guilhermina Andrade Bastos, no Alto do Torel.
Ocupado em 1974, nos agitados tempos do pós-25 de Abril, e transformado em creche e jardim de infância, o edifício voltou à posse do milionário galego para se tornar, em julho de 1988, propriedade e sede da Xuventude de Galicia, o que, numa Lisboa onde as coletividades vão caindo às mãos das rendas e dos despejos, faz muita diferença.


Fotos: Rita Ansone.
“Quando a casa não é delas, é muito mais difícil manter”, comenta a vice-presidente Paula Ferro, que testemunha a importância que o Centro Galego de Lisboa tem não só para os galegos, mas também para os lisboetas e a freguesia de Santo António.
“Há uma boa integração, seja com a Junta de Freguesia, seja com a Câmara Municipal de Lisboa e até mesmo com as vizinhas freguesias de Arroios e Santa Maria Maior”, diz Paula, que conta com o apoio destas entidades, sobretudo para a divulgação dos eventos que a Xuventude promove.
Entre os vizinhos, há um caso que a vice-presidente sublinha com particular gosto: a Igreja da Pena. A relação com o pároco é estreita, o que proporciona um intercâmbio frutuoso.
“Há um relacionamento muito bom. Tanto eles nos pedem para nós irmos lá tocar – o Paulo tem tocado lá, tem feito coisas lindíssimas, e o coro já cantou lá também –, como participam em coisas nossas.”

A geografia de contactos não se esgota no bairro. Consulados, Xunta da Galicia, Embaixada e Casa de Espanha e outros centros regionais formam uma rede de intercâmbio. “Eles precisam de nós, nós precisamos deles”, resume Paula Ferro.
É por esta malha de relações que a comunidade em torno da Xuventude de Galicia se vai alargando. E não só. “As pessoas vão-nos conhecendo através de vários eventos, aqueles em que participamos fora ou nas nossas festas que fazemos aqui, que são muito giras, e quando sabem que temos aulas de música, de dança e de vários instrumentos galegos, juntam-se”, diz Paula Ferro, que toca gaita de foles desde os quatro anos, “como qualquer natural da Galiza que gosta das danças e da música tradicional da terra”.
A música como ponto de encontro
Paula saiu da Galiza há mais de vinte anos. Gestora hoteleira, andou de cidade em cidade – Barcelona, Valência, Santander, Málaga. Onde chegava, procurava sempre centro galego para manter a ligação e praticar a música. Quando chegou a Lisboa, há cerca de 15 anos, para dirigir o Hotel Santa Justa, pensou: “Aqui tem de haver, tem de haver, porque entre Portugal e a Galiza há muita irmandade.”

Havia. Um dia tocou à campainha do palacete do Torel e a Concha, “anfitriã” da casa, disse-lhe: “vai lá abaixo, há um senhor que se chama Paulo Marinho e fala com ele”. “O Paulo estava ali a afinar uns instrumentos e pergunta: ‘O que queres fazer?’ E eu: ‘tocar’.”
Tocar é palavra mágica, senha, palavra-chave neste lugar de encontro, artes, cultura e música. Juntou-se ao grupo de gaitas de foles, aos Anaquiños da Terra, grupo da Xuventude de Galicia fundado em 1955, e às foliadas que então se faziam num restaurante ali perto.
Fez parte da direção. Envolveu-se nas atividades da casa, mas a certa altura sentiu-a definhar. “Eu vinha para ficar feliz e encontrava um sítio escuro”. Afastou-se. Até que em 2023 chamaram-na para tocar numa festa – o centro celebrava 115 anos – e estavam lá todos.

“O Paulo, o Roberto, a Alejandra. Numa tarde ensaiámos e preparámos o concerto e eu vi que estava na hora de voltar. Parecia que nos tínhamos encontrado ali, as pessoas perfeitas”. Em 2026, convidaram-na a voltar à direção, como vice-presidente. “Tento ajudar em tudo o que posso aqui na casa”, diz Paula, que integra o grupo Xoteiras, com a Alejandra Vázquez e o Roberto Gregores, o Anaquiños da Terra e o mais que for. Alejandra traduz: é a Paula quem faz a ponte entre a direção e a parte cultural e musical da casa.
Português de coração galego
“Entre Portugal e a Galiza há muita irmandade”. Paula Ferro disse-o lá atrás e Paulo Tato Marinho é a prova disso. Chegou à Xuventude de Galicia há 42 anos, para tocar gaita de foles. É português, mas de uma família de Valença do Minho, mesmo colada à fronteira. “Desde que nasci que aquela realidade do outro lado é bastante familiar. O meu avô e o meu pai eram grandes amigos da Galiza; sempre que ia lá de férias, ia à Galiza.”
Dá aulas de gaita de foles galega desde 1996, mas tanto antes como depois, muito do seu trabalho é voluntário. E o empenho com que o desenvolve é reconhecido por todos. Mesmo não sendo galego de nascimento, conhece como poucos a casa e a história da “colónia galega” em Portugal. “Em 1984, quando entrei, havia muita gente, muitos sócios, muitos jovens. Sempre houve muitos jovens, daí a Xuventude no nome”, diz.

É interessante que um dos guardiões da Xuventude de Galicia seja português. É ele que explica, sem melindre, a hierarquia dos estatutos: sócios efetivos só os que tiverem, pelo menos, um avô oriundo da Galiza; os outros são sócios simpatizantes.
“Nos estatutos há uma diferença, um apartheid, que é totalmente compreensível”, diz, a rir, apressando-se a lembrar as mudanças que se operaram recentemente: os sócios simpatizantes já podem votar em assembleia geral e fazer parte da direção, só não podem ainda ocupar a presidência.

A Xuventude tem hoje cerca de 500 sócios, na maioria segundas e terceiras gerações de imigrantes galegos vindos das zonas fronteiriças. Mas o perfil mudou. Em 2024, em entrevista ao Galicia Exterior, o presidente Jesús Bescos Sinde falava de um número crescente de jovens trabalhadores – Portugal tornou-se destino de nómadas digitais, galegos incluídos – e de um grupo de sócios simpatizantes, sobretudo portugueses, chegados pelas escolas de dança e música: “Mas este segmento também é cada vez mais internacional e nós aproveitamos essa circunstância para divulgar as nossas tradições e cultura a um leque mais alargado da população.”
O chamariz das foliadas
Alejandra Vázquez é dessa nova geração. Veio para Portugal em 2016, viver com uma tia que tinha sido vogal da direção da Xuventude de Galicia. Conhecia a casa só de ouvir falar. Foi no primeiro emprego em Lisboa, em janeiro de 2017, que conheceu Roberto Gregores, também galego, também de trinta e poucos anos, também da nova geração de imigrantes.

“Um dia, na conversa, descobrimos que ambos tocávamos pandeireta e então resolvemos vir aqui, à Xuventude de Galicia, tocar”. Fizeram-se sócios para poderem ensaiar, “começámos a conhecer esta malta divertida e ficámos todos muito amigos”. Alejandra acabou mesmo por tornar-se professora de pandeireta do Centro Galego de Lisboa.

As foliadas faziam-se então na tasca de um amigo, o Carlos, também ele galego, no Campo dos Mártires da Pátria, até que os vizinhos se queixaram. Passaram para o bar da Xuventude. “Na altura, era o Andrés, filho de galegos, que estava a explorar e dava bebida e comida aos músicos no início da noite, para abrir a festa”. Quando o espaço mudou de gerência, há três anos, a foliada mudou-se para dentro de casa: a sala do rés-do-chão e o terraço, com serviço de balcão.
Quem faz tudo – as compras no supermercado, as bifanas, a limpeza, o balcão, e ainda toca – são três pessoas: Alejandra, Roberto e Susana Vázquez, uma espécie de comissão de festas, ou melhor, de foliadas. Trabalho voluntário, como o da direção.
“O associativismo tem de ser assim, senão não se consegue. E além disso, é esse o espírito que se quer”, diz Paulo Marinho. O lucro que as festas dão é investido nas festas seguintes e em material para os grupos e escola de música: instrumentos, equipamentos, adereços.



O modelo tem sido apurado. Nas últimas foliadas, a fórmula passou a incluir um workshop ao fim da tarde e um concerto antes da festa: houve uma com os Xoteiras, com workshop de baile galego; outra com Xisco Feijóo, nome conhecido da música tradicional galega, que ensinou dança e pandeireta; e a Roda Ibérica, do músico português Rui Ayres, que senta a uma mesa portugueses, galegos, brasileiros, colombianos e italianos, cada um com o seu instrumento, e vai convidando gente para se juntar. “Aquilo traz tão boa energia. As pessoas não queriam que eles deixassem de tocar”, conta Paula. “No fim, saímos todos lá para fora e cada um começou a tocar e os outros iam atrás.”
A 4 de julho, fechou-se o ano letivo com a apresentação dos alunos de pandeireta e de gaita, seguida, claro, de foliada. Agora, a “loja” está fechada até setembro.

Alejandra conta que lhe dizem que podia fazer vida disto: dar mais aulas, abrir uma escola sua. Não quer. “Eu gosto muito que isto seja o meu hobby. Saio do escritório e venho para aqui dar umas pancadas na pandeireta, como alguém que vai ao ginásio. É o meu anti-stress.” E admite, a rir, um egoísmo altruísta: “Sou a primeira a querer ter um sítio para tocar e beber e estar com os meus amigos. Assim, partilhamos. E ao mesmo tempo, nas foliadas recruto alunos e pessoas para a Xuventude de Galicia.”
Eis o paradoxo bonito desta casa: a maioria dos alunos de gaita e de pandeireta não é galega. São portugueses, são italianos – “aqui nesta freguesia, não sei porquê, vivem muitos italianos”, nota Paula –, são gente de todas as nacionalidades que rodam por esta Lisboa cosmopolita, alargando assim, como dizia Jesús Bescos, o potencial de divulgação da cultura galega.



É assim que a casa se vai recompondo. Houve financiamentos – de bancos galegos, do El Corte Inglés – para recuperar o mirante lá de cima, “que estava um bocado destruído e ficou lindo”, diz Paula, e o chão e paredes da sala grande; seguem-se as portas e as janelas, “para não deixar cair isto de vez”. As salas convertem-se no que for preciso: espaço de exposições, festas de aniversário, missas, aulas, ensaios, concertos.
Xuventude coral

O coro é a novidade mais recente e chegou por vizinhança. Luís Lopes Cardoso, com formação superior em música e direção coral, dirige três coros e mora mesmo ao lado. Durante anos, não teve qualquer ligação à Xuventude de Galicia – a casa atravessava o tal período de pouca atividade e, vista da rua, “parecia uma casa fantasma”. Até que começaram a acontecer coisas que o fizeram aproximar-se. Ou melhor: até que o filho, Manuel, hoje com 13 anos, quis aprender gaita de foles com o Paulo Marinho. “Coitado, a gente tentou dissuadi-lo”, brinca o maestro. “O miúdo é excelente”, garante Paula.
“O Manuel veio porque quis e gosta muito. Já vai no terceiro ano. E entretanto desafiaram-me a formar um coro”, conta Luís, que fez uma proposta e daí resultou o Xuventude Coral, que já deu concertos, ora sozinho, ora com o grupo de gaitas de foles. São, para já, vinte vozes. Quarenta seria o ideal, segundo o maestro, que conhece a fragilidade destas estruturas: “os coros amadores”, diz, “são como uma planta silvestre, que nem sempre resiste aos primeiros calores do verão”.
Pesa sobre eles, como sobre o teatro amador, um certo estigma, considera Luís Lopes Cardoso, que espera, no entanto, que a colaboração entre os grupos da casa dê frutos. “Vamos ver.”
Os primeiros coralistas já tinham ligação à Xuventude; os seguintes chegaram pelo passa-palavra. Do impacto na freguesia, o maestro não se atreve a fazer contas – “a Rua Júlio de Andrade não é um sítio de passagem” –, mas das foliadas não tem dúvidas: têm atraído muita gente.
“Mas há que dizer: um dos dínamos de tudo isto é o Paulo Marinho, um workaholic que não para, que puxa pela malta da música tradicional galega e que ainda canta no coro – tal como o Jesús Bescos, que é o presidente”, diz Luís Lopes Cardoso.
Anaquiños da Terra… e de Lisboa
O grupo Anaquiños da Terra é a atual “causa” de Paulo Tato Marinho. Conta ele que a última grande vaga de imigração galega foi nos anos 1960: “E quem veio nessa altura já vinha para trabalhar com quem estava cá, com os proprietários. Já não havia aguadeiros.” Depois, a democracia dos dois lados da fronteira fez diminuir, pelas melhores razões, o fluxo migratório, o que se refletiu na “colónia”, que não só encolheu como mudou bastante.
Um dos grupos em que o “encolhimento” se fez sentir foi o Anaquiños da Terra. “Nunca acabou, mas a atividade e o número de participantes diminuíram”, diz Paulo, que acalenta o sonho de voltar a enchê-lo de jovens. Houve uma renovação em 2010, com muitas crianças, entre as quais a filha dele, que durou uns cinco anos. Depois as crianças cresceram e não houve quem as substituísse.
Mas o Paulo, com a Alejandra e a Paula, estão a trabalhar para recuperar o velho grupo folclórico da Xuventude de Galicia e voltar a apresentá-lo “ao mundo de Lisboa”.

Sangue novo não falta – é a própria Paula quem o diz: “Juntámos aqui pessoas com sangue novo e com vontade de fazer as coisas. A casa está diferente, está muito gira.”
Os galegos têm uma palavra para a falta que a terra faz: morriña, irmã da nossa saudade. Durante mais de um século, a Xuventude de Galicia foi o sítio onde a colónia vinha matá-la. Hoje, no palacete do Torel, passa-se também o contrário: há lisboetas, italianos, brasileiros a ganhar morriña de uma terra que nem é a deles. Sinal de que a casa está viva. E de que, entre Portugal e a Galiza, a irmandade continua a ser o instrumento que toda a gente sabe tocar.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 52 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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