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Foto: Unsplash

Todas as famílias com filhos pequenos conhecem a corrida de telefonemas, listas de espera e respostas que tardam a chegar para garantir uma vaga numa creche. Até à meta, setembro, encontrar informação continua a ser um desafio. Joaquim Cabral, sabe bem o que isso é. Tem 28 anos e vai ser pai de primeira viagem. E foi quando procurava por uma creche para o filho, que ainda nem sequer nasceu, que percebeu que a informação estava dispersa e espalhada  por diferentes fontes.

Joaquim Cabral, criador do Creches.pt

 “Para uma família em julho é como se uma em cada três portas não tivesse campainha”, diz Joaquim Cabral. A metáfora nasceu das horas em que passou à procura de creches para o filho, sem encontrar um contacto para pedir informações. 

Numa noite de computador ao colo, e porque Joaquim é engenheiro, pôs as mãos à obra: começou com uma lista de opções e transformou-a  numa folha de cálculo com cerca de 2.500 estabelecimentos. E porque não disponibilizá-la a pais como ele? Foi o início da Creches.app

Embora ele seja de Lisboa, espalhou a busca em todos os lugares. E à medida que a plataforma crescia, Joaquim começou a reparar num padrão. Havia concelhos em que as pesquisas eram mais repetidas. 

A pergunta surgiu quase naturalmente: seriam também os concelhos com maior falta de creches? Começou, então, a completar as pesquisas de creches cruzando os dados com a Carta Social e do Instituto Nacional de Estatística (INE), para obter números demográficos. 

O sistema acabou por servir um propósito que Joaquim Cabral não antecipava: identificar onde a pressão sobre as creches é maior. E claro, a conclusão é óbvia:  os concelhos da Área Metropolitana de Lisboa com menor cobertura de creches são também os que concentram maior procura na plataforma dele. E o destaque vai para Sintra.  

Basta olhar para os dados para perceber como, na AML, é o desigual acesso às creches. Entre Oeiras, com 88% de cobertura das pesquisas, e Sintra, apenas 28% há um retrato de uma realidade oposta. 

Na leitura de Joaquim Cabral, a pressão concentra-se nos concelhos “para onde os custos de habitação empurraram as famílias jovens de Lisboa” como Amadora, Odivelas, Seixal, Moita, Palmela e Sintra. 

Seis dos 18 concelhos da AML — Sintra, Moita, Amadora, Seixal, Palmela e Odivelas — ficam abaixo dos 40% de cobertura, longe da meta europeia de 45% até 2030. São os concelhos-dormitório onde vivem as famílias jovens.

44.086 lugares de creche oficialmente na AML (Carta Social) para cerca de 89.500 crianças até aos 3 anos — cobertura de 49%, em linha com os 48% nacionais apurados pelo Edulog para 2023 com metodologia independente.

Nada de novo, num retrato social que se cruza com outras desigualdades que a Mensagem de Lisboa acompanha. Na série documental “Cidades para quem ?”, por exemplo, relata-se a forma como o aumento dos custos habitacionais levou famílias a fixarem-se nas periferias, onde o acesso a serviços essenciais como os  transportes, nem sempre acompanhou esse crescimento populacional. 

O contraste torna-se mais evidente quando se compara o número de crianças até aos três anos com os lugares de creche disponíveis – dados que Tiago obteve, levado pela sua curiosidade, mas que evidenciam uma realidade necessária de conhecer. 

A estimativa do número de crianças até aos três anos, foi feita a partir dos dados do INE e não corrige migrações internas, isto é, nos concelhos que existem as famílias jovens, o número real será ainda maior do que o apresentado, como Sintra ou Seixal. 

“E a ocupação oficial média de 87% esconde 5.548 lugares sem criança na AML. Parte é desfasamento de reporte e rotação normal — mas parte é desencontro real entre as vagas que existem e as famílias que procuram, por falta de um sítio onde a informação se encontre. É este desencontro que o creches.app tenta resolver”, explica Tiago.

Tiago refere ainda que os dados da Creche.apps refletem apenas a atividade dos utilizadores da plataforma e não devem ser interpretados como um retrato de todas as famílias da Área Metropolitana de Lisboa, mas antes como um indicador de distribuição da procura entre concelhos.  

“A dificuldade nem sempre está na falta de uma vaga, mas no obstáculo de saber onde ela está” 

Desde maio até julho Joaquim contabilizou 1.294 consultas no creches.app, num total de 167 concelhos do país. A região de Lisboa domina as pesquisas com 36%. E a maior procura concentra-se em concelhos onde a oferta de creches é menor – isso descobriu Joaquim com a sua lista.  

O caso do concelho de Sintra volta a destacar-se neste retrato. Este é o mais procurado do país e fica à frente da cidade de  Lisboa, com consultas a 51 estabelecimentos diferentes. 

Fonte: Creches.app

Dos 130 estabelecimentos mapeados na cidade de  Lisboa, 43 não disponibilizam nenhum contacto público que seja acessível- nem telefone nem email. Na Área Metropolitana de Lisboa essa realidade verifica-se em 20% dos estabelecimentos e a nível nacional 23%.

“A dificuldade nem sempre está na falta de uma vaga, mas no obstáculo de saber onde ela está.” acrescenta Joaquim. “Além de faltarem lugares, falta informação sobre os que existem. Dos 130 estabelecimentos de educação de infância mapeados em Lisboa cidade, 43 (33%) não têm nenhum contacto público encontrável — nem telefone, nem email, em site próprio ou registos abertos. Na AML são 20%; no país, 23%.”

Mais do que um mapa de creches 

A iniciativa creches.app não termina depois desta análise, “ a ideia é mesmo manter”, afirma Joaquim, revelando que está de braços abertos para receber ajuda a desenvolver a plataforma através do contributo de associações ou pessoas. 

Apesar do projeto continuar a crescer há uma coisa que não irá mudar : a gratuidade. Porém as creches privadas pagam-lhe um pequeno valor por cada pai que pede um contacto direto. A app permite procurar no mapa interativo as zonas mais próximas, a idade da criança ou o tipo de creche ( Pública, Privada, IPSS). Os utilizadores podem ainda guardar as creches favoritas, e acompanhar o processo  de cada candidatura, desde o primeiro contacto até à lista de espera. 

Entre os próximos passos Joaquim quer lançar uma newsletter para quando surgirem novas vagas e criar um sistema de avaliação, para que as famílias possam conhecer as experiências de outros pais antes de escolher a creche.

Tatiana Martins

Nascida e criada nas ruas de Lisboa. Encontra no simples “bom dia” e na conversa de café a matéria-prima para a sua escrita. Para ela, contar histórias começou na vizinhança.É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Lisboa e está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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