Rui Lagartinho, responsável e curador deste equipamento cultural da Junta de Freguesia de São Vicente, lutou para trazer Lá Fora até à Arte Graça. Reconheceu nas fotografias que a compõem um olhar cuidado, próprio, autêntico, sobre a cidade que tanto ele, almadense, como o fotógrafo Manuel Ferreira Chaves, nascido em Moçambique, fizeram sua. Um olhar que remete para a fotografia analógica, a preto e branco, num tempo em que os olhares são cada vez mais ensaiados e filtrados.

A galeria tem uma maneira de estar que a diferencia. Empenha-se para que os artistas estejam presentes enquanto a exposição decorre – normalmente é o próprio quem recebe os visitantes, sem horário imposto – e é privilegiado o trabalho dos artistas locais da freguesia.
À entrada, uma máquina de venda de rolos fotográficos analógicos também contribui para a “distinção”, atraindo fregueses e fidelizando público. A programação, feita em parceria com o executivo da Junta, cruza pintura, escultura, fotografia, lançamentos de livros, concertos, como os do Festival Lisboa Barroca.

Este ano, pela primeira vez, a Arte Graça será um dos espaços do IMAGO, o festival de fotografia de Lisboa. “Não há tempos mortos aqui”, diz Rui Lagartinho. “Há sempre qualquer coisa que está para acontecer.”
As pazes feitas graças a uma D70
Manuel Ferreira Chaves nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, em 1962. Havia muita fotografia nos passeios e convívios familiares e foi aí que o gosto começou. Tinha 13 anos quando veio para Portugal, e lembra-se bem de num ano mudar de casa sete vezes. A experiência de “retorno”, como lhe chamavam, também lhe moldou o olhar. Formado em Línguas e Literaturas Modernas, foi-se dividindo entre o ensino, a tradução e a fotografia, mais paixão que trabalho.

Uma paixão interrompida durante mais de uma década. A 20 de dezembro de 1989, não se esquece do dia, os pais já tinham ambos morrido e ele mudava de casa. Levava no carro a máquina fotográfica (da antiga República Democrática Alemã) e os sacos com todas as fotografias da vida. Junto à Casa dos Bicos, um assaltou levou-lhe tudo. Foi à polícia, procurou na Feira da Ladra, nada. E decidiu: “Nunca mais vou fotografar na minha vida. Nunca, jamais, em tempo algum.” Não era uma perda como as outras. “A máquina é substituída. As fotografias não. É como se a vida tivesse sido escondida ao tirarem-me o acesso àquelas memórias”.
O reencontro com a fotografia chegou no início dos anos 2000, pela mão de uma amiga que lhe ofereceu, com o marido, uma Nikon D70 – vem mencionada no caderninho dos agradecimentos. Seguiram-se as exposições: New York, New York, no Espaço Sousa Valles, em 2008; a coletiva Escalators, em 2011; Eurozone versão 3.0, nos anos da troika, entre o Sousa Valles e esta mesma Arte Graça.
Ou há o escuro ou há o claro
“A minha fotografia não é programática.” Nenhuma das imagens de Lá Fora nasceu de um tema definido, nenhuma é encenada. Fotografar, para ele, é como viajar, ficar numa esplanada ou num banco, ou onde for, a ver o que as pessoas fazem, como é que a vida acontece.

Os títulos vêm depois das fotografias, entre a literatura e o olhar. Idílio, um casal de namorados (será?) apanhado da janela do fotógrafo, virada para o Miradouro do Monte Agudo. Na linha mostra pessoas como peças de xadrez sobre as linhas do chão – há umas muito na linha, outras em cima da linha, e há sempre uma fora dela. Schmilblick – palavra francesa para “mono”, algo que não serve para nada – titula o instante em que, enquanto os dois elevadores estão imóveis lá em cima, um estafeta da Glovo sobe o Lavra a pé, numa mecha de luz, com um calor insuportável, e um grupo de “expats” (pronuncia “expats” com ironia) desce descontraidamente.



Com estes homens, os estafetas imigrantes, relegados “sabe-se lá para que confins”, Chaves conversa muitas vezes. Também lhe chamaram “retornado” e mandaram-no voltar para a terra dele. “Exatamente o mesmo discurso de hoje, que me irrita muito.”
Nas fotografias de Manuel Ferreira Chaves não há gradações de cinzento. “Ou há o escuro, ou há o claro.” Em Eles vêm aí, uma das preferidas – ele que adora ficção científica e Kubrick –, uma família no cimo do MAAT parece um grupo de seres acabados de aterrar na terra prometida. Em Viu a luz, uma rapariga no Miradouro do Monte Agudo ganha um ar fantasmagórico à luz do telemóvel.

Depois há um homem com um pombo na cabeça, à varanda. Há uma mulher encostada à parede no Cais do Sodré. Há um homem que sobe uma escada rolante numa véspera de fim de ano, enquanto outros estão ali, à espera, talvez do ano que vem. Há um pescador Sozinho num cais deserto, “uma evocação da Ode Marítima, do Pessoa”. E há um grupo de homens no Cais do Ginjal, em Cacilhas, a ver ao fundo cruzeiro a rasgar o Tejo, numa fotografia que foi buscar o título a Barca Bela, de Almeida Garret, “Pescador da barca bela/Inda é tempo, foge dela“.
“Vais-me perguntar se isto é tudo sobre solidão”, adianta-se o fotógrafo. “Talvez seja, mas não é só.”
Olhar nos olhos
É muito sobre Lisboa. Chaves vive na Graça. A relação com a cidade tem amor e queixas e saudades: “Lisboa tem coisas lindíssimas e pessoas lindíssimas e também tem coisas péssimas”, diz, precisando, “Lisboa não olha as pessoas nos olhos”. O medo do desconhecido, considera, é o choque cultural que Portugal atravessa. “O exótico só existe a partir do momento em que não saias da tua zona de conforto e nós por cá saímos pouco.”
Numa das últimas fotografias no piso de cima, um homem de bengala avança, na Gare do Oriente, por um caminho iluminado. Para além dele, o escuro. O que está depois, não se sabe. “Quando acabar aqui, se calhar acende-se alguma coisa do outro lado.”

É talvez isso que faz uma galeria de bairro com a porta aberta e a chave na mão do artista: acender qualquer coisa do outro lado.
A Galeria Arte Graça fica na Rua da Graça, 29. É gerida pela Junta de Freguesia de São Vicente, dá destaque à produção artística de residentes da freguesia e a entrada é sempre gratuita.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 52 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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