Por volta das duas da tarde, quando se entra no Bairro 2 de Maio, na Ajuda, o silêncio instala-se nas ruas – é dia de semana e a maioria dos moradores está a trabalhar. Nas janelas, as roupas estão estendidas e vão abanando ao ritmo da aragem que desce do Monsanto. Mas, atrás das portas da associação Amigos do 2 de Maio, o ambiente é outro.
Sábado é dia de celebração na sede dos Amigos do B2M: “dona Luísa Bravo”, 61 anos, um dos principais rostos da associação, vai casar-se. Entra com algumas bebidas e sacos de comida e diz que vai ser “uma grande festa”, porque casar e com esta idade não acontece todos os dias. Mas não só por isso se celebra aqui: depois de Benfica, a Ajuda é o novo palco da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP).
O projeto “Pelos olhos cantamos” arranca já este sábado, 18 de julho, para unir vizinhos, vozes e instrumentos: durante os próximos dois anos, a memória e a identidade do Bairro 2 de Maio serão preservadas através da música e de outras expressões artísticas, com a ajuda de Tiago Pereira, o fundador da MPAGDP.
A iniciativa é financiada pela DGArtes no âmbito do programa “Arte e Periferias Urbanas”, com o apoio da junta de freguesia da Ajuda, e da what’s up locals.
O projeto começa à moda portuguesa: com um pequeno almoço musical entre as 11 e as 13 horas, no jardim das Damas, no recinto do Palácio Nacional da Ajuda. Com a presença de uma dupla musical: Toy (não, não é esse) e Emanuel Matos, artistas já reconhecidos pela Música Portuguesa a Gostar Dela Própria.
Como um miúdo a cantar mudou o destino do Bairro 2 de Maio
A ligação de Tiago Pereira ao Bairro 2 de Maio não começou agora. O diretor e coordenador da MPAGDP conheceu um pedaço da Ajuda durante um projeto BIP/ZIP dedicado à cultura cigana. Enquanto assistia a uma oficina de construção de cajón, um episódio inesperado acabou por marcar a sua visita:
“Quando aqui estivemos, apareceu-me um miúdo a cantar música cigana em espanhol e achei incrível. Rapidamente, pensei num projeto que enaltece aquilo que se faz pelo 2 de Maio”, recorda Tiago Pereira.

A ideia ficou e um ano depois transformou-se em “Pelos olhos cantamos”.
O primeiro passo é entrar, conhecer quem ali vive e começar a construir relações. Aos poucos chegam as câmaras, os microfones e os computadores. Os participantes vão aprender a documentar as histórias dos vizinhos do lado com as suas próprias mãos.
O resultado desta experiência será exposto na própria freguesia com um painel digital para outros visitantes ou moradores poderem acompanhar o quotidiano da comunidade. Mais tarde, irão acompanhar Tiago nas gravações de artistas fora da Ajuda.
Para o coordenador, o verdadeiro sucesso não se mede ao fim de um par de anos. “O mais importante é o que acontece a seguir, quando nos formos embora. É o que fica. Nós trazemos o material audiovisual, ensinamos como devem utilizá-los e tentamos que ganhem amor por estas coisas. Os projetos têm que deixar alguma coisa nos sítios.”
Carregar no botãozinho do elevador social
É Sandra Alves quem abre a porta da casa para todos. Presidente executiva da Associação desde 2017, ao lado de Carina Faria, vê na arte uma ferramenta para fortalecer a comunidade.
“Quer queiramos quer não, o estigma existe associado a estes bairros, portanto, o facto de existir capacitação artística destes jovens ou menos jovens para subir ao palco e mostrar os seus talentos, muitos deles invisíveis aos olhos da sociedade, cria oportunidades, autoestima e sentido de pertença”.

Nesta associação, o trabalho com diferentes gerações já não é novidade. Ao longo dos últimos anos têm sido desenvolvidas atividades que aproximam avós e netos – desde a reinvenção de receitas tradicionais com vegetais, até a ações de sensibilização para a alimentação de pessoas diabéticas, Sandra sentiu sempre que esta teria de ser uma missão: ligar gerações mais novas com as mais velhas.
“Tínhamos muitos avós fechados em casa e muitos netos a precisar de valores e de memórias. Muitos deles não sabiam que os avós vieram com as suas trouxas à cabeça para ocupar o bairro, sem água ou escoamentos sanitários. Foi o que nos atraiu para participar nesta iniciativa: a capacidade de transmitir histórias”, conta.

Até porque, acredita, cada oportunidade pode ser um primeiro passo para mudar uma vida e para incentivar alguém a “carregar no botãozinho do elevador social”.
A partir de 18 de julho, serão eles a contar as histórias das ruas onde vivem.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
