Há histórias que parecem escritas com a precisão com que se desenha uma peça de alta engenharia, ainda que, afinal, tivessem começado com o maior dos improvisos. Para contar esta, temos de recuar ao momento em que um rapazinho de 20 anos, Anghel Ivanof, jovem promessa da canoagem romena, decidiu arriscar tudo ao fugir do seu país e, só por acaso, veio parar a Alhandra, Vila Franca de Xira.

15 de agosto de 1993, Galiza, Espanha. Um verão quente, como seria de esperar. Na ria de Pontevedra, a seleção de canoagem da Roménia estava ali representada em mais uma prova internacional: o Troféu Príncipe de Astúrias. Ali, numa das três principais entradas de mar das Rías Baixas, na parte sul da área costeira da Galiza.

Anghel “nunca tinha visto o oceano na vida”. Nem visto, nem competido nele. “Armar em águas lisas… Bem, ponham um povo no oceano com um barco de águas lisas…”, diz-nos.

Na Roménia, o rio é que manda – o Arieș, o Buzău e o Delta do Danúbio, sobretudo. Foram eles que ditaram que lendas como Ivan Patzaichin, o lendário canoísta vencedor de quatro medalhas de ouro olímpicas, que inspirara gerações de jovens romenos, tornassem este país uma superpotência histórica da modalidade.

Anghel poderia ter virado uma lenda também: foi medalhado em Viena, em 1991, e o treinador da seleção prometia fazer dele “campeão do mundo”.

Ivan Patzaichin, lendário canoísta romeno. Foto: site ivanpatzaichin.ro

Mas, com 20 anos, não fora às Astúrias apenas para competir.

Tinha desenhado o plano na cabeça durante semanas: assim que a prova estivesse terminada e as comitivas de atletas começassem a ir embora, pediria boleia para ir com eles… e não voltar à Roménia. Já tinha tentado fugir duas vezes antes, em Amesterdão e noutra prova espanhola, mas o medo travara-o. Desta vez, era a sério. “Eu tinha decidido: se correr como eu quero, já não volto.”

Assim foi, à boleia da comitiva portuguesa.

“Para mim, e peço desculpa por isto, Portugal era uma província espanhola. Nem fazia bem ideia do que era.” Nos desfiles das provas internacionais, as delegações alinhavam-se por ordem alfabética. Quis o destino, se nele acreditarmos, que Portugal e Roménia ficassem quase sempre lado a lado. Anghel criou empatia com a equipa portuguesa. No momento da despedida, ganhou coragem e fez a pergunta. Com apenas um saco de treino ao ombro e cerca de 25 euros no bolso, oferecidos por atletas espanholas, meteu-se na carrinha dos portugueses.

A viagem levou-o primeiro até Gondomar, no Norte, onde atracou grande parte dos atletas da seleção nacional. Depois, seguiu até Setúbal, com Nuno Silva, da comitiva. “Deixo-te em Setúbal, mas depois tens de ir sozinho”, ter-lhe-á dito. O dinheiro que as atletas espanholas lhe tinham dado permitiu-lhe, ali, dizer que “sim”. Apanhou um autocarro para Lisboa. Depois, seguiu para Alhandra.

Trazia no bolso um bilhete com um nome escrito à mão: “Vítor Félix” (atleta, residente em Alhandra, que entretanto se tornaria o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem), “Zeca” (José Freitas, presidente da Associação de Canoagem do Distrito de Lisboa) , “Francisco Câncio” e a morada da secção náutica da qual o tal Francisco era presidente, o Alhandra Sporting Club. Sabia que o clube local precisava de alguém para ensinar os mais novos. Na margem tranquila do Tejo, onde a água e o desporto sempre foram língua franca, Anghel sentiu-se finalmente em casa.

Aqui fincou raízes.

Começou por arranjar barcos na Secção Náutica do Alhandra Sporting Club e treinar novos atletas na canoagem. “Melhores do que alguma vez fui”, diz ele.

Anghel Ivanof segura uma taça, depois de uma prova internacional. Foto: DR

Mais tarde, trocou as águas do rio pela precisão cirúrgica da indústria: entrou para a OGMA (empresa de Indústria Aeronáutica de Portugal, em Alverca), onde trabalhou durante 21 anos no mundo dos materiais compostos. “Passei por todas as fases, desde trabalhar com as mãos até em cargos de gestão”, conta-nos. Ali, entre a montagem de peças em fibra de carbono para aviões militares e comerciais da Airbus, aperfeiçoou um saber-fazer que poucos dominam.

Até ter uma ideia: criar o selim mais leve do mundo.

Sob o medo e a fome da ditadura

Para perceber por que razão um homem que fabricava peças para a Airbus decidiu, com 44 anos, arriscar tudo numa fábrica de selins em Alhandra, é preciso recuar até aos anos 1970 e 1980, em Tulcea, na Roménia. Ali, onde o Danúbio se abre em delta antes de chegar ao Mar Negro.

Anghel nasceu em 1973, o mais novo de três irmãos, filho de um mineiro que mudou várias vezes a família de sítio atrás do trabalho.

A partir de 1974 e até 89, a Roménia viveu sob o regime ditatorial de Nicolae Ceaușescu. Conta-se por Tulcea, há vários anos, que um casal desapareceu sem deixar rasto só porque o marido fez, em voz alta, numa loja, uma piada sobre Ceaușescu ter o tamanho de um frigorífico que estavam para comprar.

Anghel cresceu a ver as prateleiras vazias das lojas e a fazer fila cinco horas por um quilo de carne que, muitas vezes, se esgotava antes de chegar a sua vez. Para o pão, havia um cartão que era picado a cada compra: uma peça por família, por dia. “Se já tivesse o cartão picado naquele dia, não podia comprar mais.” O resto não virou fome por causa da horta de família, onde cultivavam para sobreviver, como tantos outros romenos.

“Havia dinheiro, as pessoas eram obrigadas a trabalhar, mas não havia nada para comprar. As lojas estavam vazias.” Para conseguir pagar aos credores, o regime romeno passou a exportar a esmagadora maioria da produção nacional (sobretudo alimentos e energia), deixando o mercado interno com o que sobrava.

Aos 11 anos, a família de Anghel fixou-se numa zona ainda mais pobre, para a mãe de Anghel cuidar de uma tia doente. E a vida de todos só mudaria quando ele fez 13 anos.

Retrato de Anghel Ivanof, na infância. Foto: DR

Um treinador entrou na escola dele a recrutar jovens para canoagem. O critério era puramente físico: Anghel já media 1,80m e pesava 80 quilos. “Vou fazer de ti um campeão do mundo”, prometeu-lhe o treinador. Para um adolescente vindo de uma casa onde a roupa era sempre herdada dos irmãos mais velhos, foi a primeira vez que sentiu que tinha algum valor para alguém. “Pela primeira vez na minha vida senti que alguém estava interessado em mim. Senti que, se calhar, tinha algum valor.”

Os pais resistiram. “Não há cá desporto, tens de estudar e ajudar em casa”, terão dito. Até serem convencidos pelo irmão mais velho, a quem nunca tinha sido permitido praticar.

E, afinal, era menos uma boca para alimentar numa casa onde a fome estava sempre iminente.

Aos 13 anos, quase 14, Anghel mudou-se para um centro de estágio a mais de 300 quilómetros de casa. Pela primeira vez na vida, tinha três refeições diárias com carne (algo que, em casa, só acontecia ao domingo), roupas novas e sobremesa (um luxo impensável, comparando com os crepes de farinha e água da mãe). Mas o preço foi alto: “Para todos os efeitos, eu rompi com a minha família aos 13 anos”, passando a vê-los apenas duas vezes por ano – nas férias grandes e no Natal.

Tornou-se uma promessa nacional.

Em 1991, na prova de K2 500 metros masculino, dividindo a embarcação com o colega romeno Geza Magyar, Anghel foi medalhado júnior em Viena. Bronze. Não foi campeão, como o treinador tinha prometido, mas estava a caminho. Até uma disputa entre dois clubes rivais, o do Exército e o da Polícia, o tirar do barco titular apenas dois meses antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, por não ter aceitado trocar de equipa, perante a proposta.

“Senti-me injustiçado.”

E ainda diz que foi essa injustiça, e não o que se passava na Roménia – até porque Ceasescu tinha já caído -, que o fez começar a planear com afinco sair da Roménia.

Duas tentativas falharam antes – na Holanda, depois em Espanha, sempre travadas pelo medo de colegas e do próprio Anghel de andar “ilegal” com um visto de um mês. A terceira aconteceu em agosto de 1993, na regata das Astúrias. O resto da história já sabe.

Das barracas de Alhandra às pontes da Expo 98

Quando Anghel chegou a Alhandra em 1993, encontrou uma vila ribeirinha diferente da que vemos hoje. Alhandra parecia um descampado à beira-rio, com um mercado sobre terra batida e um bairro de pescadores em barracas de madeira sobre estacas, “um sítio extremamente pobre”.

“Não fosse a forma calorosa como os portugueses me receberam, eu não ficava cá.”

Estranhou a democracia sólida que se praticava por aqui: um Partido Comunista não fazia sentido a quem tinha vivido sob a sombra desse nome na Roménia. Mas só aqui percebeu, de facto, o que é viver numa democracia: “Posso não gostar de extremos, mas, como democrata, tenho de aceitar que há pessoas que podem e devem pensar diferente de mim.”

Como tantos outros que também chegaram nessa altura do leste europeu, sem documentos, Anghel enfrentou dois anos de incerteza até conseguir a legalização – no caso dele por via do estatuto de “interesse nacional”, apoiado pela Federação de Canoagem. No final de 2010 havia já 36.830 cidadãos romenos legalizados em Portugal, no fim de uma onda migratória que começou com a queda do bloco do Leste europeu – Anghel foi dos primeiros.

O atleta foi bem acolhido pela comunidade. Já no Alhandra Sporting Club, foi recebido por “Zeca” e Francisco Câncio. “Arranjaram-me alojamento, comida, trabalho, e ainda me trataram de todo o processo de legalização e nacionalidade (obtida em 2005)”, conta.

Anghel alugou um quarto perto do rio à “dona Idalina” – que se tornaria uma espécie de “avó portuguesa” e, mais tarde, madrinha do seu casamento.

Anghel e a atual mulher. Foto: DR

Recebia um pequeno subsídio para treinar miúdos em quatro clubes da região (Alhandra, Seixal, Vala do Carregado e Doca de Lisboa). Entre eles, David Varela, ainda hoje o único atleta afrodescendente português a chegar a uma final olímpica de canoagem, em Tóquio.

Usava ainda a habilidade manual que aprendera nos clubes romenos para reparar barcos em fibra de vidro e carbono.

Mas o subsídio de treinador não chegava para sustentar a vida, e o relógio corria: tinha decidido, quando chegou, que voltaria à Roménia “cheio de dinheiro” por volta dos 35 anos. Ainda não tinha nada.

Foi então que o chamaram para um projeto invulgar: a construção de pontes pedonais em fibra de carbono para os acessos à Expo 98 – um plano da Câmara de Lisboa para substituir passadeiras por pontes aéreas leves, montada sem fechar as vias rápidas, durante a noite. A empresa que ganhou o concurso, com experiência em mobiliário metálico de escritório, nunca tinha trabalhado com compósitos. Anghel, com conhecimentos básicos adquiridos a reparar barcos de canoagem, tornou-se o único elemento da equipa que sabia, de facto, fazer a mistura mágica de resina e fibra.

Montaram três pontes na zona da Expo. Uma ainda está de pé, na estação de comboios de Moscavide. Mas o projeto tornou-se “um buraco financeiro” e acabou por fechar.

Anghel seria amparado: por recomendação, chegou então à OGMA, em Alverca. E, já lá, formou-se e tirou uma pós-graduação em Tecnologia Aeronáutica do Instituto Politécnico de Setúbal.

Criar o selim mais leve do mundo

Como tantas coisas revolucionárias, a ideia da empresa não nasceu numa reunião de negócios formal, mas numa conversa entre colegas de trabalho.

Um colega praticante de duatlo tinha um selim de bicicleta rasgado. Ao retirar a capa de couro estragada, percebeu que por baixo havia apenas uma carcaça de plástico rígido. Olhou para Anghel e fez-lhe o desafio: “Pá, consegues fazer uma coisa igual a esta em carbono?”

A resposta veio em tom de brincadeira: “A gente fabrica aqui aviões… Não me digas que a gente não é capaz de fazer um selim!”

Ilustração: Inês Oliveira/Lisbon School of Design

Nas horas vagas e usando o know-how acumulado ao longo de duas décadas, Anghel fez o primeiro protótipo. O resultado surpreendeu: era leve, muito leve, mas ainda tinham de responder a uma dúvida: seria confortável?

“Se convidar alguém a sentar num selim de carbono, a primeira reação vai ser ‘bem, isto não é bom’, porque não tem qualquer tipo de almofadagem. As pessoas ficam ansiosas.” Mas a ciência da ergonomia prova o contrário. O conforto num selim de carbono de alta gama não vem da espuma macia que se afunda com o peso, mas sim da flexibilidade calculada da própria estrutura e do estudo minucioso dos pontos de pressão.

Para testar a invenção, Anghel não recorreu a máquinas nem a robôs de laboratório. Recorreu à comunidade e à rede de afetos que construiu desde que chegou a Portugal.

Anghel no armazém da Gelu, em Alhandra. Foto: Catarina Ferreira

O “piloto de testes” foi Sérgio Silva, ex-canoísta e uma das maiores lendas portuguesas do duatlo e triatlo, que também vivia em Alhandra. Pediu-lhe um feedback sem rodeios: queria a avaliação de um atleta de elite, de alguém “que usasse efetivamente e que sente e sabe apreciar melhor o material que o robô”.

O veredito de Sérgio Silva foi inequívoco: “Quando cheguei à subida, levantei o rabo e achei que tinha perdido o selim. Não sentia nada”. O segredo estava no “efeito pêndulo”: como o selim fica no ponto mais alto da bicicleta, retirar-lhe peso reduz drasticamente o esforço do ciclista a cada pedalada em pé.

Este tornou-se o selim mais leve do mundo, com apenas 38 gramas. O que equivalente a sete moedas de 2 euros. Ou um ovo cozido pequeno sem casca.

Um selim convencional, de plástico, pesa em média 250 gramas. Um modelo comercial em carbono, 150.

De uma pequena oficina em Alhandra para 56 países

Em 2017, Anghel fundou a empresa Gelu (quatro anos depois de ter registado a marca). Durante três anos acumulou o trabalho na OGMA com a oficina, até que em 2020 se dedicou a 100% à empresa.

Hoje, a partir de uma pequena oficina em Alhandra, lidera uma equipa de oito pessoas (incluindo engenheiros de materiais e de desenho 3D). O produto estrela é um prodígio da engenharia: o selim de carbono de 38 gramas.

A filosofia de produção recusa atalhos: o carbono é importado diretamente de Itália (a mesma fibra pré-impregnada usada na aviação civil dos Airbus); e o restante tecido, as embalagens e a manufatura, são totalmente feitos em Portugal.

Anghel Ivanof acredita que está também a retribuir à terra que o acolheu, Alhandra. Foto: Catarina Ferreira

A marca atraiu cópias no mercado asiático (com vendas no AliExpress que usam indevidamente até o logótipo original, mostra-nos no seu telemóvel), obrigando a ações jurídicas com o apoio da Câmara de Comércio. “É chato, porque nós temos muito custo para desenvolver um produto e depois, só porque é bom, copiam-nos do outro lado do mundo”, lamenta. Mas remata com o orgulho de quem venceu pelo talento: “Se sou copiado, é porque sou bom.”

Como gesto de gratidão à terra que o acolheu de braços abertos quando não tinha nada, Anghel instalou recentemente uma estação pública e gratuita de reparação de bicicletas junto ao passeio ribeirinho do Tejo, em Alhandra. Ali, onde tantos passeiam nas duas rodas, alguns em direção a Fátima ou até Santiago de Compostela.

“Sinto que retribuí a Alhandra aquilo que fizeram por mim. Tudo o que fazemos aqui, primeiro, é para a nossa empresa e o nosso ganha-pão. Mas depois acaba por arrastar o nome de Alhandra pelo mundo.”

Exporta atualmente para 56 países. E até já entrou num segmento bem conhecido: o futebol, fazendo caneleiras de carbono para grandes lendas mundiais – que, por compromisso, não podemos revelar.

Ilustração: Cláudia Monteiro/Lisbon School of Design

Anghel já não pensa regressar à Roménia. Nunca lá voltou a viver, e a família, que só passou a saber da sua decisão depois de ele já a ter tomado, nunca veio visitá-lo. Tal como quando tinha 13, teve de fazer as pazes com a decisão que tomou: para fugir à pobreza, deixar a família para trás.


Catarina Reis

Nascida no Porto, Valongo, em 1995, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020. Ajudou a fundar a Mensagem de Lisboa, onde é repórter e editora.

catarina.reis@amensagem.pt

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