O primeiro instinto é sempre o mesmo: levar a mão ao bolso. As pessoas fazem-no automaticamente, quase sem pensar, apenas para perceberem segundos depois que o telemóvel já não está lá. À medida que os participantes chegam ao evento de trabalhos manuais do Offline Club, na livraria Piena, recolhem-se cuidadosamente todos os telemóveis e guarda-se no que o clube chama de “hotel dos telemóveis”. Em troca, entrega a cada pessoa uma pequena ficha numerada correspondente ao “quarto” onde o telemóvel ficará durante as próximas três horas, quase como um bengaleiro.

A história começa há dois anos. Não em Lisboa, mas em Amesterdão. Foi lá que o Offline Club foi criado: primeiro, com retiros desenhados para ajudar as pessoas a desligarem-se dos telemóveis e a reconectarem-se consigo próprias e com os outros. Mas a primeira publicação dos fundadores no Instagram tornou-se rapidamente viral e pessoas de diferentes cidades começaram a pedir que o conceito fosse levado também para elas.

Estar offline mostrava-se uma necessidade de muitos.

Estudos recentes mostram que os portugueses passam, em média, 6 horas e 30 minutos a 7 horas na internet, a maioria a olhar para o telemóvel. Isto é equivalente a quase 100 dias inteiros por ano “presos” ao ecrã. Aliás, segundo o Eurobarómetro divulgado em junho deste ano os adolescentes portugueses estarão entre os que mais usam ecrãs ao fim de semana na UE.

Desde outubro, Lisboa tornou-se um dos mais recentes capítulos – assim se chamam os clubes hoje espalhados por diferentes cidades – do Offline Club e a comunidade já conta com cerca de 20 mil seguidores no Instagram. O capítulo de Lisboa é liderado por Lily Parla e Joëlle Hartog, duas imigrantes de 25 e 31 anos com experiência em organização de eventos e marketing.

Conheceram-se há três anos enquanto tentavam obter o NIF na Loja do Cidadão de Saldanha. Lily tinha-se mudado do Minnesota para Lisboa para o mestrado, enquanto Joëlle, originalmente dos Países Baixos, depois de anos a viajar pelo mundo, acabou por decidir estabelecer-se em Portugal com o namorado.

Hoje, não são apenas amigas, mas também colegas de trabalho.

Lily Parla e Joëlle Hartog, líderes do Offline Club em Lisboa. Foto: Sara Bassini

Quando o silêncio se torna o melhor quebra-gelo

Toda a gente reage de forma semelhante no início da atividade: sorrisos ligeiramente nervosos, mãos hesitantes, olhares rápidos em redor da sala, subitamente sem saber muito bem o que fazer sem o conforto de um ecrã. Faz-nos pensar: quando é que a humanidade se tornou assim?

A longa mesa comunitária começa lentamente a encher-se de desconhecidos que observam os materiais de trabalhos manuais espalhados à sua frente. Nessa noite, a atividade principal é decorar pratos de terracota: tintas, pincéis, marcadores e decorações coloridas cobrem a mesa, tudo fornecido pelo clube. À volta, há também livros para colorir, papel e lápis, enquanto alguns participantes trazem de casa o próprio material de crochet ou desenho.

Até ao ano passado, o Offline Club existia apenas em nove cidades. Há seis meses, mais dez capítulos, incluindo Lisboa. O clube funciona como uma espécie de franchizing, mas cada cidade desenvolve-se de forma diferente consoante as pessoas e os líderes comunitários que organizam as atividades.

Recentemente, Lily e Joëlle participaram num retiro com líderes de diferentes capítulos europeus, trocando histórias e experiências com colegas de todo o continente. Cada cidade é diferente, explicam, mas o objetivo mantém-se igual em todo o lado: conectar enquanto se desliga.

“Esta comunidade, fazer algo tão significativo… é a primeira vez”, diz Joëlle. 

Antes da atividade começar, as pessoas mantêm-se sobretudo reservadas: sentam-se silenciosamente ao lado de desconhecidos e observam os marcadores e tintas à sua frente. Sem ecrãs, as pessoas parecem subitamente mais conscientes umas das outras, e também mais conscientes de si próprias.

Depois começa o silêncio. Durante a primeira hora dos eventos de trabalhos manuais, os participantes não podem falar entre si. É uma das regras fixas do Offline Club: desconhecidos sentam-se simplesmente juntos em silêncio, a desenhar, pintar, fazer crochet ou colorir enquanto música suave toca ao fundo. Os únicos sons são o raspar dos lápis no papel, o ocasional barulho de alguém a comer batatas fritas e, às vezes, um tímido “Posso usar esse marcador?”

Partilhar algo que normalmente se faz na privacidade do próprio quarto com completos desconhecidos parece estranho ao início, quase íntimo. Mas, à medida que todos se concentram lentamente no que estão a criar, o embaraço desaparece e transforma-se em algo… relaxante.

Ao fim de uma hora, as pessoas mal conseguem esperar para falar umas com as outras. É quase como se partilhar silêncio primeiro se tornasse o quebra-gelo perfeito.

Para todas as idades e nacionalidades

Enquanto cidades como Amesterdão e Barcelona atraem sobretudo jovens expatriados, o capítulo lisboeta tornou-se surpreendentemente variado tanto em nacionalidades como em idades. Para além dos internacionais, muitos locais participam regularmente. Recentemente, recorda Joëlle, um grupo de mulheres portuguesas na casa dos 70 anos juntou-se a uma das atividades e abraçou imediatamente o conceito.

“Tem sido muito giro ver como os lisboetas acolheram o Offline Club, e também as pessoas mais velhas”, diz Lily.

O grupo de cerca de 20 participantes neste dia é variado: pessoas que gostam de trabalhos manuais, outras à procura de fazer amigos, que querem uma pequena pausa do telemóvel, que acompanham o seu copo de vinho e happy hour com uma atividade para a qual raramente encontram tempo…

A comunidade vai também além de Lisboa. Participantes que frequentam eventos numa cidade procuram muitas vezes atividades do Offline Club quando viajam ou se mudam para outro país, criando uma espécie de rede de segurança.

Os próprios espaços de Lisboa também abraçaram o conceito. Segundo Lily e Joëlle, muitos cafés, bares e espaços culturais contactaram-nas, oferecendo-se para acolher atividades porque se identificavam com a filosofia do clube e queriam tornar-se espaços onde as pessoas pudessem desligar-se.

O próprio clube também evoluiu ao longo do tempo. Enquanto inicialmente se focava em retiros, mais tarde foram introduzidos formatos mais curtos para tornar a experiência acessível a mais pessoas. Hoje existem encontros diurnos de cinco horas, atividades de três horas como o clube de trabalhos manuais e até sessões gratuitas de leitura de uma hora, onde os participantes simplesmente se sentam juntos em silêncio com livros enquanto os telemóveis permanecem guardados.

Os benefícios de estar offline

Durante os eventos, Lily e Joëlle participam tal como qualquer outra pessoa, deixando os seus próprios telemóveis de lado, antes de se sentarem para se concentrarem nos seus trabalhos manuais ao lado dos participantes.

A própria Lily e Joëlle dizem que, desde que começaram o Offline Club, se tornaram muito mais conscientes do tempo que passam em frente aos ecrãs. Lily explica que agora repara na frequência com que as pessoas colocam instintivamente os telemóveis em cima da mesa nos restaurantes ou os verificam desnecessariamente durante conversas. Joëlle gosta tanto de estar desligada que recentemente comprou um despertador e deixou completamente de levar o telemóvel para o quarto.

“Trazer o Offline Club para a tua vida diária é tão fácil”, diz Lily.

Ao longo dos anos, estudos da Universidade de Harvard têm vindo a alertar para os níveis crescentes de ansiedade, distúrbios de sono e a uma sensação crónica de solidão (mesmo quando estamos rodeados de “ligações” digitais), causados pela dependência dos ecrãs.

Neurologistas apontam que períodos de desconexão reduzem drasticamente os níveis de cortisol (a hormona do stress) e ajudam a restaurar a nossa capacidade de foco e atenção profunda, hoje fragmentada pelas redes sociais. Além disso, ao darmos ao cérebro o chamado “tempo de tédio” – aquele espaço vazio onde não estamos a consumir informação -, reativamos a criatividade e a capacidade de introspeção. É nesse silêncio analógico que a mente finalmente descansa.

Levar o clube para a ponte 25 de Abril?

Falando sobre os planos futuros, Lily e Joëlle esperam eventualmente organizar também retiros em Portugal, dando aos participantes não apenas algumas horas, mas dias inteiros de descanso longe dos ecrãs. Um dos sonhos de Lily seria até organizar um enorme evento do Offline Club na Ponte 25 de Abril, fechando-a durante uma tarde para que as pessoas pudessem desfrutar do pôr do sol juntas sem telemóveis.

Por agora, no entanto, a atividade aproxima-se lentamente do fim. À medida que todos terminam de decorar os seus pratos de terracota, Lily e Joëlle começam a distribuir pequenos pedaços de papel onde os participantes podem escrever os seus números de telefone ou nomes de utilizador do Instagram para manter contacto e talvez voltarem a encontrar-se fora do clube.

A ironia é quase inevitável: as mesmas pessoas que, no início da atividade, agarravam o telemóvel como uma espécie de fuga ao desconforto e ao embaraço de estar entre desconhecidos são agora as que parecem mais relutantes em voltar a pegá-lo.


Sara Bassini

Nasceu em Itália, Veneza, e migrou para Lisboa, onde é estudante de jornalismo na Universidade Católica. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

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