O Azulinho de Alcântara, a carrinha-autocarro de 14 lugares lançada em 2015 pela Junta de Freguesia de Alcântara, é muito mais do que um meio. Esta é a missão de vida de Bruno Teixeira, há muito conhecido no bairro como o “Maradona”. Não foi contratado para isso, mas o motorista Bruno assume também o papel de agente social e de amigo.

Desde há cinco anos, é ele quem percorre, de segunda a sexta, entre as oito e as 17 horas, pontos chave da freguesia no veículo azul. Sabe “praticamente de cor e salteado” quando e onde vai apanhar os seus passageiros. São, na maioria, habituais e fiéis às rotinas. Vão para atividades da Junta, para a piscina, fazer as compras semanais, ao centro de saúde ou vão, simplesmente, passear para não ficar em casa.

Quando as vizinhas do bairro deixam de aparecer à hora habitual, questiona-se. “Encosto aqui o Azulinho, vou à rua, toco à campainha, e pergunto se está tudo bem. As minhas pausas são para falar e para ver [os passageiros], para saber onde estão e se está tudo bem.”

Chegou ao Azulinho em 2021, em plena pandemia, para ocupar a vaga que o anterior motorista havia deixado. Antes, trabalhava nas bagagens do terminal de cruzeiros de Lisboa e talvez tenha sido o destino a querer que regressasse ao lugar que o viu crescer e onde muitos o conhecem. “Sou uma personagem daqui e acabei por vir parar aqui como motorista. Parece que foi por acaso, por coincidência, mas é engraçado.”

Bruno é mesmo “uma personagem” de Alcântara. E a culpa é do futebol. Nascido e criado no velho bairro de Alcântara, foi no clube local – o Atlético Clube de Portugal – que se formou enquanto jogador de futebol, tendo chegado a jogar profissionalmente no terceiro escalão nacional, no final dos anos 90, ao serviço do Clube Desportivo dos Olivais e Moscavide. Extremo esquerdo veloz, conta-nos, ficou conhecido como o “Maradona de Alcântara” desde os seis anos. Se dúvidas houvesse, Bruno decidiu desfazê-las de forma definitiva: no braço esquerdo tem tatuada a sua homenagem a Diego Maradona.

Alvito, a aldeia sem café nem farmácia que depende de um homem e da sua carrinha azul

Numa tarde em que as temperaturas chegaram aos 41 graus em Lisboa, encontramos Bruno Teixeira na primeira paragem do percurso do Azulinho – o bairro do Alvito. Construído durante o Estado Novo, é uma aldeia no meio da cidade.

Plantado na ponta sul do Parque Florestal de Monsanto, o Alvito é constituído por moradias unifamiliares que, vistas de cima, formam um V, com um jardim na parte inferior, observando o Tejo e a Ponte 25 de Abril.

Nesta quase aldeia, explica Bruno, não existe “nem um café, um multibanco, nenhuma farmácia, não há nada”. Muitos, conta, dependem do Azulinho para as deslocações diárias e para aceder a serviços básicos. Aqui, a oferta de transportes públicos é parca, com a passagem de apenas duas carreiras da Carris.

Talvez por isso, o trabalho que faz no Azulinho desempenha aqui um papel duplo: assegura a ligação ao tecido urbano da freguesia e cuida da vizinhança. Este segundo papel não constava da descrição das funções de motorista – foi Bruno que, voluntariamente, o assumiu.

Primeira e última paragens do percurso do Azulinho, no bairro do Alvito, em Alcântara. Foto: Margarida Filipe

Na manhã desta quinta-feira de julho, Bruno teve uma consulta e não esteve ao volante do Azulinho. E, quando não está, não há ninguém para o substituir. Mas ninguém ficou apeado no meio do calor infernal. “Sabiam de antemão que eu iria ter a consulta de manhã.”

“Têm todos o meu contacto e eu tenho o contacto de todos. Perguntam-me antecipadamente se venho ou não.”

O motorista que assegura o funcionamento do serviço é filho do bairro. Nascido e criado em Alcântara, o homem de 48 anos inicia no bairro do Alvito um serviço que, ao olho menos atento, pode até parecer desnecessário – há alturas do dia em que a carrinha chega a circular vazia. Mas o sucesso do Azulinho mede-se, antes, por uma métrica intangível: pelos minutos de conversa até ao centro de saúde, pelo cuidado que Bruno tem com quem não aparece certo dia e pelo cumprimento de uma missão – a de atenuar o isolamento que assola parte da população da freguesia.

“Ontem, por exemplo, trouxe a Dona Isabel para baixo. Ela não ia fazer nada e eu percebi – ela só queria andar aqui comigo. Já tive pessoas a perguntarem se podiam andar comigo o dia todo para poderem falar comigo.”

O contacto entre passageiros e motorista é constante e o telemóvel pessoal de Bruno funciona como central de comunicação não oficial. Para ter o número do Bruno, “é só pedir”, assegura. As interações pelo telefone asseguram a transmissão de disrupções no serviço, garantindo que ninguém fica à espera na paragem em vão, mas também cumprem outras funções: alguns dos passageiros do Azulinho “não têm ninguém com quem falar” e Bruno está sempre disposto a conversar, dentro da carrinha e através do telemóvel.

Durante uma paragem, Bruno mostra-nos mensagens que são trocadas entre motorista e passageiros: confirmações de presença no Azulinho a determinada hora, mas também várias mensagens com o objetivo único de desejar um bom dia.

No seu telemóvel, guarda o contacto de mais de 50 passageiros habituais.

Foto: Margarida Filipe

O bairro que a ponte partiu ao meio e o Azulinho tenta colar

Na segunda paragem do Azulinho, em frente ao Estádio da Tapadinha, casa do Atlético Clube de Portugal, entra Filomena Dias. Vive aqui, no bairro da Quinta do Jacinto, há 42 anos, desde que aos 17 chegou a Lisboa, recém casada e vinda da Sertã. A Quinta do Jacinto, conta, “era um bairro inteiro”, entretanto “cortado ao meio quando fizeram a ponte”. Chamar a polícia, por exemplo, deixou de ser simples. “Não sabem como ir para lá; o que é estranho, não é?”

A construção dos acessos à Ponte 25 de Abril abriu fissuras em Alcântara que ainda hoje perduram. São estas as quebras territoriais que, todos os dias, o Azulinho procura mitigar. É preciso ligar quem vive nestes bairros aos pontos centrais do território: o centro de saúde, as farmácias, os supermercados.

Os acessos à ponte separaram o bairro velho de Alcântara e a Quinta do Jacinto do contínuo urbano da freguesia. O bairro de Filomena foi mesmo partido ao meio – de um lado, está o conjunto de prédios onde vive, junto ao estádio do Atlético; do outro, ligado por uma ponte pedonal, três prédios resistem numa espécie de ilha, rodeada por um nó rodoviário por onde passam todos os dias dezenas de milhares de automóveis.

No total, o percurso, com início e fim no Alvito, leva cerca de 55 minutos a completar, mas para Filomena leva apenas cinco minutos. “São praticamente cinco minutos, mas naqueles cinco minutos falamos de muita coisa”. O Azulinho é a boleia diária para a zona do Largo do Calvário, onde trabalha. “Houve dois choferes antes, mas não era a mesma coisa”, diz, referindo-se à companhia que Bruno oferece a quem entra no Azulinho.

“Ele é uma pessoa muito amiga, é uma pessoa cá do bairro. Desde que o Bruno veio [para o Azulinho], isto tornou-se totalmente diferente.”

O motorista tem observado de perto a transformação da freguesia: a chegada recente de novos habitantes e novas dinâmicas sociais e económicas, mas também o envelhecimento e isolamento dos vizinhos de sempre, que sublinha e que tenta combater. No Azulinho, transporta sobretudo pessoas com mais de 70 anos.

Durante os cinco anos que leva ao volante da carrinha azul, Bruno já perdeu passageiros habituais. Num caso, foi a ausência repetida de uma passageira do Azulinho que levou Bruno a levantar o sinal de alerta. Foi encontrada morta em casa, algo que tem vindo a repetir-se. Transporta várias pessoas que vivem sozinhas, muitas delas sem rede de apoio familiar e é a atenção do motorista e dos vizinhos a garantir que não ficam esquecidas no meio da cidade.

“Se não venho, porque estou de férias, ou tiro o dia, ou acontece qualquer coisa, imagine-se o que acontece a estas pessoas. Não saem de casa, isolam-se.”

O neto de Alcântara

A proximidade que criou com os seus passageiros também o cansa. Não consegue abstrair-se, partilha. Lembra-se das datas das consultas dos passageiros e acaba por confundir a sua própria agenda com as agendas de quem transporta. Mas sabe que também os seus fregueses se preocupam consigo. Depois de uma cirurgia que fez recentemente, não tardou a receber a chamada de passageiros do Azulinho.

“Acho que acabam por ser os meus avós e eu o neto deles.”

Muitas dos passageiros são habitantes dos bairros mais distantes do centro da freguesia. Para além de passar no Alvito e na Quinta do Jacinto, o Azulinho passa também na Quinta do Cabrinha, para onde foram realojadas, no final dos anos 1990, famílias residentes no antigo Casal Ventoso.

Aliás, durante a pandemia, o Azulinho alterou temporariamente o seu trajeto para garantir oferta de transporte público no interior do bairro velho de Alcântara, numa altura em que a carreira de bairro 73B, da Carris, foi afetada pela suspensão do serviço, por falta de motoristas.

Nem todos os que entram na carrinha têm um destino concreto. “Tenho uma senhora que vem todos os dias comigo às oito da manhã – tem 94 anos. Levanta-se todos os dias às seis e vai para Alcântara às oito não fazer nada. Espera que a Junta e a papelaria abram às nove. Não tem ninguém e sente a necessidade de ir para a rua.”

“Há pessoas que até acho que vêm só para o Azulinho para terem dois dedos de conversa com o Bruno, para saírem de casa. Como é que eu hei de dizer? É um familiar, já”, conta Filomena Dias.

Motorista, amigo… e até salva vidas

Sinalização de paragem do Azulinho, no bairro do Alvito. Foto: Margarida Filipe

O Azulinho é uma carreira em quase tudo idêntica às operadas pela Carris – pelo menos no papel. Tem um horário e paragens devidamente assinaladas por um sinal azul que indica o nome do serviço. A utilização é gratuita para fregueses, mediante apresentação do Cartão Alcântara. Esta carreira é, aliás, a única operada por uma Junta de Freguesia em Lisboa com serviço de transporte coletivo de passageiros regular e padronizado, com horário e paragens definidas, ao contrário de serviços de transporte a pedido ou porta a porta, como o oferecido pela Junta de Freguesia da Misericórdia.

Como qualquer motorista de serviço de transporte público, Bruno tem de colocar o cartão no tacógrafo, o dispositivo que monitoriza os quilómetros percorridos e as velocidades praticadas. Marca aproximadamente 180 mil quilómetros percorridos desde o início da operação do Azulinho. Dos 11 anos que o serviço da Junta de Alcântara leva, metade foram já às mãos de Bruno.

Habitualmente, não há entrada ou saída de passageiros fora das paragens, mas aqui tudo se adapta às circunstâncias – o estado do tempo ou dificuldades de mobilidade podem ditar uma maior flexibilidade no cumprimento das normas.

Há ainda outras instâncias em que Bruno quebra o protocolo do motorista de passageiros – as mais corriqueiras, como ajudar passageiros a transportar sacos de compras, ou as mais inusitadas, como o episódio em que, da janela do Azulinho, avistou fumo no bairro do Alvito e acabou a apagar um pequeno incêndio no quintal de uma passageira.

Bruno Teixeira, ao volante do Azulinho. Foto: Margarida Filipe

Em 2021, pouco depois de iniciar-se ao volante do Azulinho, Bruno sugeriu à Junta de Freguesia que o trajeto se estendesse para lá dos limites da freguesia, com o objetivo de chegar à Unidade de Saúde Familiar Descobertas, em Pedrouços, na freguesia de Belém, já que é nesta unidade de saúde que estão registados muitos dos fregueses de Alcântara. Dias depois, o percurso foi alterado.

Hoje, esta é uma das paragens mais importantes do Azulinho. Bruno explica que chega a renovar as receitas dos seus passageiros no centro de saúde, evitando viagens desnecessárias por parte dos utentes mais velhos que transporta. “À tarde, já têm a receita no SMS.”

O motorista assume para si papéis pesados para os seus passageiros. “Vou tirar uma senhora de casa, para andar de lá até aqui, para ela chegar e escrever num papel os medicamentos e o número de caixas que pretende? Tem de haver um bocadinho de tato.”

E além do Azulinho?

Fora do serviço do Azulinho, Bruno não para.

Porque faz outros serviços de transporte para a Junta de Freguesia de Alcântara e para o Atlético, dentro da cidade e para outros cantos do país. Transporta o coro da Junta de Freguesia de Alcântara e as crianças da marcha infantil da freguesia. Transporta os adeptos do Atlético quando há jogo com o rival da freguesia vizinha – o Belenenses – e país fora. Também nas eleições, assegura o transporte de fregueses para os locais de voto.

“Já não consigo viver sem isto. Às vezes, com o meu carro, chego a encostar na paragem do Azulinho, por ser tão automático. Mas gosto muito disto, porque sei que, para além de estar a trabalhar, estou a ajudá-los muito.”

Já no final do percurso, parados na Quinta do Cabrinha, enquanto espera pela hora para arrancar novamente rumo ao Alvito, Bruno mostra, no seu telemóvel, fotografias suas com o seu “menino” Azulinho e com os seus fregueses. Até que se depara com um texto que escreveu na sua página de Instagram em setembro de 2022, um ano após ter iniciado serviço.

“ELES... não são os utentes da freguesia,
não são os velhotes que por aí andam,
não são números ou idosos,

ELES... são os Meus Amigos.”

Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

frederico.raposo@amensagem.pt

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *