Junto ao Mercado de Benfica, há uma loja de reparação de bicicletas onde não são só as bicicletas que perdem a ferrugem e ganham nova vida e novas viagens. Assim aconteceu também ao mecânico, Salvador Esteves, que, com a sua boina e avental, tem agora em mãos uma bicicleta de criança à qual dá os últimos retoques: cesto na frente e fitas coloridas nas pegas, está quase pronta para se fazer à estrada.

Salvador tem 64 anos, e fora os últimos nove, uma vida inteira de repórter fotográfico. Mas foi longe do glamour social que a sua máquina captava (trabalhou para a revista Lux e fazia “social” a maior parte do tempo), a reparar bicicletas, entre correias, óleo e ferramentas, nesta loja que abriu há 9 anos, que descobriu a sua verdadeira missão. Na sua oficina Salva Biclas, veio ao de cima a sua paixão pelo ciclismo que está também em evidência na montra e nas paredes – estão decoradas com relógios clássicos, um telefone fixo, medalhas e camisolas de ciclismo.

Salvador não esconde a paixão. Para ele, passear de bicicleta é como “ir à missa ao domingo”. Não é apenas fã da modalidade, mas é também um grande defensor da mobilidade ciclável. E está a preparar-se para mais uma viagem, desta vez rumo à Suíça, onde irá pedalar durante 12 dias pelas montanhas. Já percorreu rotas emblemáticas, como o Canal do Midi e o Passo do Stelvio.

Os primeiros arranjos

A paixão pelas bicicletas começou como uma brincadeira de bairro. Salvador cresceu em Camarate, e recorda uma infância feliz sobre rodas – com memórias do dia em que os pais lhe compraram a primeira bicicleta. Iam numa excursão a Badajoz, em Espanha, para comprar caramelos, mas os olhos de Salvador detiveram-se noutra “guloseima”: uma bicicleta “de menina”, pendurada numa loja. Depois de uma grande birra, voltou com ela para Portugal, dentro do autocarro.

Para grande preocupação da mãe, Salvador passou a fazer muitos passeios de bicicleta em que perdia noção das horas… e chegava tarde a casa. Na altura, a bicicleta também era “uma forma rápida e divertida de ir ter com os amigos, que moravam em bairros diferentes”, conta.

Esses amigos foram os primeiros clientes de Salvador, quando começou a arranjar bicicletas a troco de berlindes e de piões.

“Na altura, havia rapazes que avariavam a bicicleta e não a sabiam arranjar. Como eu era curioso e gostava de ferramentas, eu tentava arranjar as bicicletas dos meus amigos. Pouco a pouco, fui criando, fui mexendo e também fui estragando”, ri-se Salvador.

Pôr bicicletas antigas a andar

Salvador ganhou o gosto pelo ofício e, já em adulto, enquanto se dedicava à fotografia, criou um “cantinho” na cave de sua casa, uma oficina onde montava e desmontava bicicletas. A pedido dos vizinhos, também ia fazendo algumas reparações, como quem troca favores.

A mudança para Benfica deu-se quase por acaso. Um dia, em conversa com o presidente do Clube de Futebol Benfica (Fófó), perguntou se podia alugar uma das lojas que eram geridas pelo clube. Procurava um lugar para guardar as bicicletas que tinha em casa (e que eram cada vez mais).

Foi assim que se instalou no número 9Q da Rua Olivério Serpa e a sua chegada rapidamente despertou o interesse do bairro de Benfica, até porque fica mesmo junto do Mercado. “Trouxe as minhas bicicletas todas para aqui. Comecei a brincar com isto ainda fechado. Só que as pessoas batiam-me à porta e diziam: Você arranja bicicletas? Tenho uma do meu netinho para arranjar.” 

A oficina Salva Biclas situa-se em Benfica, no número 9Q da Rua Olivério Serpa. Fotos: Margarida Filipe

A pandemia de COVID-19 trouxe uma nova vaga de clientes à oficina. Procuravam alternativas seguras para se deslocar e formas de se manterem ativos, conta Salvador.

Esse período impulsionou o negócio da oficina de bicicletas que, hoje, oferece serviços para todos os gostos: desde o simples remendo de um furo ao restauro completo de bicicletas que pareciam condenadas ao lixo. Para além disso, fazem-se personalizações à medida de cada freguês.

Ali, independentemente do modelo ou do estado em que se encontre, o mote da Salva Biclas é sempre o mesmo: Ponha a sua bicicleta a andar!

Mudar a mobilidade a partir de um bairro

Para Salvador, a bicicleta devia ser o motor da cidade. Argumenta que este meio de transporte é bom para quem pedala, para a vizinhança e para o planeta:

Não polui o ambiente, pára quando quiser, pode dizer bonjour, pode beber um cafézinho, tem tempo para tudo. Se se enganou na rua, sai da bicicleta e atravessa a rua com a bicicleta na mão”, diz o mecânico.

O dono da Salva Biclas defende que os lisboetas se “acomodaram demasiado ao carro” e que a cidade ainda está muito longe dos exemplos de mobilidade de outras capitais europeias, como Paris, Londres ou Berlim, onde os decisores políticos criaram condições para o boom das duas rodas.

A oficina tem vários serviços, desde personalização a restauro de bicicletas e trotinetes. Fotos: Margarida Filipe

Segundo Salvador, é preciso educar mentalidades e exigir ação dos autarcas – para que se criem mais ciclovias e se garanta a segurança de quem pedala. Por essa razão, acredita que o seu trabalho é um ponto de partida para a mudança: preparando a cidade, uma bicicleta de cada vez, para um futuro menos dependente do automóvel.

Pela sua parte, vai fazendo o que pode e já conquistou clientes habituais – incluindo algumas figuras públicas, como o presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Percorrer o mundo em duas rodas

Ao fim de quase uma década a trabalhar na oficina, Salvador conta, emocionado, que a melhor coisa que a mudança de trabalho lhe deu foi o tempo para fazer aquilo que mais gosta:

“O tempo é das coisas mais preciosas que se pode ter na vida. Há gente com muito dinheiro, mas não tem tempo. O dinheiro serve para vivermos: para comer, para passear, pôr a bicicleta no comboio, ver paisagens lindas…”

Os sapatos de ciclismo vintage utilizados por Salvador nos passeios internacionais que faz anualmente. Fotos: Margarida Filipe

Aos fins-de-semana, junta um grupo de amigos para pedalar e, duas ou três vezes por ano, parte para viagens internacionais em duas rodas. Até o logotipo da loja foi inspirado num desses passeios: Salvador criou-o a partir de uma fotografia que lhe tiraram enquanto andava de bicicleta em Itália.

Um dia, Salvador gostaria de viver em Bordéus, uma cidade “linda, grande, plana, onde as pessoas se deslocam muito de bicicleta”, confessa. Por enquanto, faz o seu proselitismo em Benfica, um bairro com muitos carros e poucas ciclovias, mas que ele garante estar a fazer tudo para mudar.

Maria Maia

Nasceu em Lisboa, em 2002, e cresceu entre a cidade e a periferia. Na universidade, ganhou o gosto e o ofício do jornalismo. Apaixonada por ouvir, interessada em conhecer e destinada a escrever sobre isso. É jornalista e produtora na Mensagem de Lisboa.

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