O que é preciso para que haja sombra na estação da Pontinha? Para já, começar com o sonho de Anastácia Moreira, Carolina Fontes, Gonçalo Martins e Sara Cherry, que foi o grande vencedor do Concurso Ideias à Rua promovido pela Mensagem no nosso Festival de Histórias Verdadeiras. Esta foi a ideia favorita do júri e do público, uma proposta que pretende, através da construção de uma simples peça de mobiliário urbano, oferecer sombra e lugares para sentar na praça do terminal intermodal da Pontinha. Agora, é preciso pô-la em prática, e é o que a Mensagem está a tentar fazer, com as entidades e stakeholders envolvidos no processo.

Quem já passou pelo terminal da Pontinha sabe do que falam estas três cidadãs de Lisboa. O lugar, onde se cruzam o acesso ao metropolitano e várias carreiras de autocarro, tem uma praça exterior com poucos lugares para sentar e menos ainda espaços que sejam abrigo do sol e da chuva (a realidade foi reportada pela Mensagem em 2022). E se isso mudasse?

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Esta é a ideia vencedora do concurso lançado pela Mensagem de ideias para melhorar o espaço público em Lisboa, oferecendo lugares que convidem à permanência na rua com conforto. Houve 39 propostas com ideias concretas para melhorar ruas, pequenos recantos, becos e praças de Lisboa, dotando-os de espaços para sentar, sombras e elemento verde.

Do total de ideias recebidas, o júri, constituído por um jornalista da Mensagem de Lisboa, três arquitetos e um especialista em climatologia urbana, selecionou 10 propostas finalistas, convidando-as a defender as suas ideias numa sessão final de votação, decorrida no passado dia 21 de junho, no âmbito do Festival de Histórias Verdadeiras da Mensagem, realizado no Centro Cultural de Belém.

As propostas apresentadas deviam contemplar uma intervenção temporária, de pequena escala e baixo custo, contribuindo para, pelo menos, um dos seguintes objetivos:

  • criar refúgios climáticos e zonas de sombra, aumentando o conforto térmico no espaço público;
  • introduzir elementos verdes e áreas permeáveis, promovendo a infiltração da água e ajudando a prevenir cheias;
  • criar espaços de estadia, encontro e brincadeira;
  • reduzir velocidades e melhorar a segurança rodoviária.

Dias depois de escolhidas as propostas finalistas, foi perante uma sala lotada que o vencedor foi conhecido. Perante uma centena de pessoas presentes, os representantes de cada uma das nove propostas finalistas presentes dispuseram de três minutos para tentar convencer o público de que a sua deveria ser a ideia escolhida. No final, o público teve a oportunidade de votar, ordenando as propostas finalistas por ordem de preferência.

O concurso Ideias à Rua conta com a parceria institucional da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos (OA-SRLVT).

O júri foi composto por Frederico Raposo, jornalista da Mensagem de Lisboa, António Lopes, especialista em climatologia urbana, docente e investigador no IGOT-UL, Margarida Marques, arquiteta e co-fundadora da associação Rés do Chão, Pedro Novo, arquiteto e presidente da OA-SRLVT e Pedro Campos Costa, arquiteto e fundador do estúdio de arquitetura Campos Costa e da Galeria e Rádio Antecâmara.

Para a escolha dos 10 finalistas, os elementos do júri atribuíram, individualmente, uma pontuação a cada um dos critérios definidos para a avaliação: o impacto social da intervenção, a adaptação climática, a viabilidade técnica, o potencial de replicabilidade e reversibilidade e a pertinência global.


Uma Pontinha de Sombra – a proposta vencedora

Proposta por: Anastácia Moreira, Carolina Fontes, Gonçalo Martins, Sara Cherry

A proposta vencedora do concurso Ideias à Rua, promovida por quatro pessoas que residem e estudam nesta zona, pretende oferecer refúgio a quem espera pela chegada de autocarros no terminal intermodal da Pontinha, um local por onde passam milhares de pessoas diariamente – muitas destas veem-se obrigadas a esperar de pé e expostas ao sol e à chuva.

A peça proposta prevê um banco circular construído a partir de tubos de ferro curvados com sete centímetros de diâmetro e uma chapa perfurada para oferecer sombra e abrigo em dias de chuva, contando com uma placa de metacrilato que impede a passagem da chuva. A proposta aponta para a possibilidade de instalação de vários destes módulos, “disposição livre de módulos individuais, de acordo com a área disponível”.

Com a peça proposta, os autores da proposta, “usuários assíduos desta estação”, propõem “oferecer aos Lisboetas um espaço público que permita uma suavização do ritmo do quotidiano citadino, que se tornou bastante acelerado. Assim, este assume o papel de abrigo, de motor de convivência e de tempo de espera ou lazer”.

Nota: as seguintes propostas finalistas são apresentadas por ordem alfabética.


Colinas Verdes

Proposta por: Inês Xu

Esta proposta, submetida por uma cidadã que estudou e residiu na zona da Alameda Dom Afonso Henriques, propõe a plantação de árvores e uma modelação suave do relvado que existe em frente ao Instituto Superior Técnico. Através da criação de “pequenas colinas/elevações”, geram-se espaços e oportunidades para que as pessoas se possam deitar e recostar.

Adicionalmente, a plantação de árvores pretende criar sombras para oferecer refúgio em “épocas de exposição ao sol intenso”. Recorde-se que atualmente não existem quaisquer árvores no extenso relvado da Alameda, apesar de já terem existido no passado.

A autora da proposta explica que, “por outro lado, esta intervenção reforça o carácter sossegado desta metade da Alameda, mantendo a dualidade com o relvado onde se situa a Fonte Luminosa – sendo este conhecido por receber frequentemente palcos, festas e outras atividades de lazer e convívio.” Inês Xu acrescenta ainda que esta proposta poderia ser replicada “em outros pontos urbanos com características semelhantes à Alameda”, tais como a Alameda Universitária, em Alvalade, ou o Jardim da Torre de Belém, na freguesia de Belém.


Drop stops – ilhas de descanso e brincadeira

Proposta por: Luís Miranda e Rita Ochoa

Da autoria de um casal com duas filhas, residente na freguesia dos Olivais, esta proposta visa a criação de “pontos de pausa e sombra ao longo de um percurso inclinado, muito utilizado por idosos carregados com compras”. Com o objetivo de melhorar o espaço público, oferecendo lugares para pousar compras e sentar, esta intervenção propõe, em “espaços naturalmente frescos e sombreados” e que hoje estão “subutilizados”, a instalação de peças modulares e de instalação reversível, capazes de criar “novas oportunidades de estadia, encontro e brincadeira informal”.

Os dois lisboetas propõem que a instalação das peças, ao longo deste caminho pedonal, seja feita ao abrigo da sombra das árvores existentes e em zonas localizadas entre o passeio e as zonas verdes que o ladeiam, promovendo a permanência num espaço que se torna num “micro-refúgio climático” e transforma o espaço público existente num “recurso urbano útil”.


Lazer e descanso na esquina do Pentagon

Proposta por: Ana Bernardino

Esta moradora da Penha de França propõe transformar uma área asfaltada e atualmente sem utilização da freguesia, junto ao café Pentagon, num novo espaço público de convívio e descanso. A intervenção prevê o alargamento da área pedonal em mais de 80 m², com instalação de bancos, mesas e cadeiras, canteiros com vegetação e soluções temporárias de sombreamento, criando um refúgio climático numa zona marcada pela escassez de espaços confortáveis para permanecer, sobretudo para a população mais envelhecida.

Para ilustrar a proposta, apoiantes da mesma pegaram em rolos de fita adesiva colorida e reimaginaram o espaço, apropriando-se de espaço rodoviário sem estacionamento ou utilidade para a circulação rodoviária.

A proposta inclui ainda estacionamento para bicicletas e poderá integrar uma componente de arte urbana. Concebida como projeto-piloto de baixo custo, pretende testar uma solução replicável a outros espaços idênticos na cidade e que contribua para a adaptação climática, a mobilidade sustentável e o reforço da vida de bairro, constituindo a primeira etapa de uma visão mais ampla para a valorização da envolvente do Jardim Luís Ferreira.


Linha de Sombra – Doca de Alcântara

Proposta por: Tatiana Sinelnikova e Eugeny Reshetov (RHIZOME)

A ideia dos dois arquitetos, fundadores do ateliê de arquitetura RHIZOME e moradores da freguesia da Estrela, propõe criar trazer sombra e alívio climático a uma zona de lazer e mobilidade suave da frente ribeirinha que, atualmente, não oferece proteção dos elementos.

A intervenção pretende reaproveitar blocos de betão existentes no local, transformando-os em bancos com encosto e suporte para bicicletas, instalando sobre os mesmos uma estrutura leve com cobertura em tecido perfurado, inspirado nos reflexos da água. A proposta inclui ainda um sistema de nebulização de água para reduzir o desconforto térmico durante os dias da calor mais intenso.

Com uma implementação simples, cria áreas de sombra e descanso para peões, ciclistas e utilizadores habituais desta amplo espaço público, incentivando uma maior permanência junto ao rio. Os autores defendem que os módulos possam ser replicados ao longo da Doca de Alcântara, formando uma rede de espaços de estadia que contribua para aproximar as pessoas da frente ribeirinha e reforçar a adaptação climática do espaço público.


Pátio Viva Bela Flor – Refúgio Climático e Praça de Bairro

Proposta por: Gabriel Oliveira

Propõe transformar um largo residencial da Bela Flor, em Campolide, atualmente desprovido de sombra e de espaços de convívio, num refúgio climático e ponto de encontro para a comunidade.

A intervenção prevê a instalação de estruturas temporárias de sombra, jardins de chuva modulares, mobiliário urbano e uma área lúdica pintada no pavimento, promovendo o conforto térmico, a infiltração da água da chuva e a criação de um espaço de permanência para moradores de todas as idades.

Concebida como uma solução reversível, de baixo custo e facilmente replicável, a proposta pretende testar o impacto destas micro intervenções antes de uma eventual implementação permanente, reforçando a adaptação do bairro às alterações climáticas, introduzindo o elemento verde no largo e promovendo a convivência entre vizinhos.


Re-canto

Proposta por: Francisco Scotti

A proposta de um morador nascido e criado em Lisboa propõe transformar parte do espaço rodoviário do cruzamento entre a Rua Pinheiro Chagas e a Avenida Luís Bívar, na freguesia das Avenidas Novas, num novo espaço de permanência e convívio, respondendo à elevada presença de automóveis e à escassez de mobiliário urbano para peões.

A intervenção prevê a criação de uma pequena praça protegida, com bancos integrados numa estrutura modular metálica, uma pérgola para suporte de vegetação trepadeira, criando sombra natural, e grandes vasos com árvores que funcionam simultaneamente como barreira de proteção face ao trânsito e como elemento de sombreamento.

O espaço seria ainda delimitado por pintura no pavimento, contribuindo para acalmar o tráfego e reforçar a segurança rodoviária.

Reversível e facilmente replicável, a proposta pretende devolver espaço aos peões, incentivar a mobilidade ativa e criar um refúgio confortável num cruzamento atualmente dominado pelo automóvel.


Um banco multifuncional para um beco cheio de história

Proposta por: Mariana Pereira

Esta proposta propõe uma intervenção numa parte de um beco na Travessa Artur Lamas, atualmente ocupado por estacionamento informal, transformando-o num espaço de descanso, encontro e mobilidade ativa.

A proposta centra-se na instalação de um banco multifuncional, construído preferencialmente com materiais reutilizados, que integra sombra, um canteiro com vegetação e um suporte para pequenas reparações de bicicletas.

Mais do que uma peça de mobiliário urbano, o projeto pretende ativar um espaço com forte significado comunitário, onde ao longo dos anos decorrem atividades como cicloficinas, sessões de cinema ao ar livre e festas de bairro. Ao criar um refúgio climático e um ponto de encontro para moradores, a intervenção pretende reforçar a apropriação do espaço público, incentivar a mobilidade ciclável e servir de modelo replicável para locais idênticos pela cidade.


Um Ponto Vivo

Proposta por: Callie Wentling

Um Ponto Vivo, de Callie Wentling, propõe transformar uma área asfaltada e sem utilização num pequeno parklet de refúgio climático e convívio na Penha de França.

A intervenção prevê a instalação de árvores em vasos, uma estrutura com plantas trepadeiras para criar sombra, bancos em madeira reutilizada e elementos que promovam a biodiversidade, como recipientes de água para aves.

Numa fase posterior, poderá incluir um piso elevado e estacionamento para bicicletas. A proposta pretende converter um espaço “morto” num ponto de encontro entre vizinhos, melhorando o conforto térmico, aumentando a presença de vegetação e incentivando uma utilização mais segura e humana da rua. Concebida como uma solução de pequena escala, simples e replicável, pretende devolver vida e identidade ao espaço público.


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