“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Não é difícil ser feliz no pátio da Padaria do Povo, sombreado por velhas videiras e tutelado pela centenária chaminé dos fornos de pão lá de baixo, sobretudo em dias como este, de sol e calor temperado.

Na parede do fundo, o mural que Dora Moneti Faggin – escultora e artista plástica, residente desde 2023 – pintou para os 120 anos da cooperativa folheia passado, presente e futuro. Tal como a própria Dora, o José Zaluar, o Vasco Loução e o Jorge Silva, à volta de uma roda de imperiais, pão e azeitonas.
O que é que acontece quando se juntam à mesa uma comunista, dois socialistas e um social-democrata?
Depende.




É quarta-feira ao fim da tarde e, enquanto a conversa na esplanada se desenrola “à italiana” – apesar de nenhum italiano à mesa, só três portugueses e uma brasileira, todos lisboetas de Campo de Ourique –, nas várias salas da Padaria do Povo, que mantêm a patina própria dos lugares com história, pratica-se cultura: sapateado, piano, desenho com modelo vivo. Às terças-feiras, há as noites de xadrez. De vez em quando, há música, lançamento de livros, ensaios de teatro. E todos os dias há um lugar de encontro, que resiste à gentrificação do ambiente, da oferta gastronómica líquida e sólida e dos preços.
A Padaria do Povo, na R. Luís Derouet 20A, é uma cooperativa fundada em 1904, o mesmo ano em que nasceu o Sport Lisboa e Benfica, dois dos muitos amores de José Zaluar, 82 anos, historiador, investigador e professor universitário jubilado. Fumador de cigarrilhas, bon-vivant, antigo exilado político, homem de Abril e da liberdade, é presidente da direção da cooperativa desde 26 de julho de 2008, garante. Lembra-se porque 26 de julho é a data inicial da revolução cubana. Zaluar não é o comunista do grupo, mas está na cara que gosta de revoluções.

Os moinhos, as chaminés e o pão para calar o povo (que não se calou)
E é através delas que José Zaluar conta a história da Padaria do Povo, desvendando a origem da cooperativa como quem desenrola um novelo de lã, a partir dos cereais que cresciam nas encostas vizinhas, dos moinhos de que ainda há vestígios na toponímia local – a Rua dos Sete Moinhos – e das chaminés que sobrevivem em Campo de Ourique, como a deste edifício, sobre a qual promete: “Enquanto eu for vivo, isto não sai daqui”.

Marcas de um bairro que, no fim do século XIX, início do século XX, era já mais industrial que rural, de fábricas, fabriquetas e fornos, um “bairro operário por excelência”.
Foi nesse contexto que nasceu a cooperativa A Padaria do Povo, como parte de uma economia circular que, da farinha, faria pão mais barato para o povo do bairro, convidado a tornar-se cooperante. Por volta de 1906, começaram a funcionar os fornos, de carácter comunitário: “quem trazia dez sacos de farinha deixava três ou quatro em pagamento e levava o resto em pão. Normalmente não havia pagamento em dinheiro, era pagamento direto”, explica Zaluar. A farinha que ficava abastecia a Padaria do Povo.
Há outra versão da fundação, testemunhada por um relógio e um cofre oferecidos pelo rei D. Carlos, que terá patrocinado a criação da cooperativa a pedido da rainha D. Amélia, para socorrer os pobres do bairro e ganhar simpatia para uma monarquia em convulsão.
As duas histórias não se contradizem – convivem como conviveram sempre o pão e a política. Mas a memória que aqui se cultiva é a popular. E é dessa que tudo o resto decorre.

Mal saberia o malogrado D. Carlos, assassinado em 1908, que daqui sairia, na madrugada de 4 de outubro de 1910 – conta Zaluar, agora no papel de historiador –, um grupo de revoltosos carbonários, já bebidos, rumo ao Quartel de Campo de Ourique, onde se encontrava sediado o Regimento de Infantaria 16, aos gritos de “Viva a República!”, naquele que ficaria para a história como o primeiro momento da revolução republicana.
“Sendo bairro operário, Campo de Ourique era território de anarquistas e carbonários, e a Padaria do Povo era a tasca onde se encontravam”, continua Zaluar. “A revolução republicana começa num bairro republicano e na história ficou esta marca, porque, na altura, ser republicano era ser de esquerda. A Padaria do Povo passou a ser uma referência da luta progressista.”
“Com isso, a gente virou um lugar de resistência”, observa Dora Faggin. “E isso foi-se renovando ao longo da história da cooperativa.”
Uma universidade na padaria
Não espanta, pois, que a Universidade Popular Portuguesa, fundada em 1919 por um grupo de intelectuais e operários para difundir a instrução e a cultura pelos trabalhadores do bairro de Campo de Ourique, e de Lisboa, tivesse encontrado espaço na Padaria do Povo para desenvolver a sua atividade, tendo como grande dinamizador o matemático e professor catedrático Bento de Jesus Caraça, militante do Partido Comunista Português, principal opositor da ditadura.
Uma presença que marca a história da cooperativa e foi, ao mesmo tempo, arma de arremesso, segundo José Zaluar. “Por um lado, traz à Padaria do Povo alguma ordem, operários integrados, com consciência de classe, atividades culturais regulares, uma biblioteca, aulas, palestras; mas, por outro, cria conflitos entre os cooperantes”, conta o historiador.

“Nas atas das assembleias gerais, percebemos que havia oportunistas que ameaçavam denunciar a direção à PIDE, dizendo que isto estava controlado pelos comunistas, caso não se baixasse o preço do pão, por exemplo.”
A vigilância apertou. A Universidade Popular Portuguesa seria perseguida e fecharia de vez em 1946, ano em que Bento de Jesus Caraça foi preso pela PIDE e expulso da carreira docente.
À universidade popular sucedeu uma coletividade popular, a Casa de Oliveira de Azeméis, de onde eram naturais muitos dos cooperantes, que passou a ser o centro das atividades de cultura e recreio da Padaria do Povo, com teatro, bailaricos, ranchos folclóricos, música popular e uma biblioteca.
A cooperativa é dos cooperantes… e do povo

Jorge Silva, 55 anos, lembra-se bem da Casa de Oliveira de Azeméis, onde estão também as suas origens familiares. O pai, motorista de pesados feito empresário de transportes, tornou-se cooperante e acionista em 1957. O avô “emprestado”, Alexandre Dias, foi presidente da Padaria do Povo e, segundo Jorge, salvou a casa da bancarrota com dinheiro do próprio bolso.
“Foi ele que me explicou o espírito cooperativo”, diz aquele que é hoje o guardião da memória desta casa, onde nasceu, de nascer mesmo, em 1971.
Herdeiro da transportadora do pai, com sede na cooperativa, a vida tem sido toda passada aqui, de manhã à noite, apesar de não morar na freguesia há muitos anos. “Mas nunca mudei o recenseamento. O meu bairro é Campo de Ourique”, diz, suscitando uma troca de galhardetes com Vasco Loução, vizinho e amigo de décadas. “Tem casas em todo o lado. É um latifundoperário“, diz aquele. “Todas pagas com o meu trabalho”, responde Jorge. “É verdade, saiu-lhe tudo do pelo”, remata Vasco, a rir.

Jorge retribui e volta às memórias. Lembra-se de quando havia festas de Carnaval e de Natal, cadernos escolares mais baratos para filhos de cooperantes, um supermercado lá em baixo “tipo Pingo Doce, antes de o conceito ter chegado a Portugal”, secção de xadrez – tradição que se mantém – e pingue-pongue.
No espaço do supermercado, que surgiu no fim dos anos setenta, início de oitenta, esteve para existir um ginásio, que nunca funcionou, e, já no século XXI, um cooperante organizava ali bailaricos.
“De vez em quando, ainda aparecem pessoas a perguntar pelos bailes”, conta Dora, cujo atelier de artes plásticas ocupa atualmente parte do espaço.
“Digo-lhe mais: quando eu era miúdo, era melhor do que agora”, diz Jorge, recuperando o fio à meada. “É o que eu acho e não tenho papas na língua.” Lá isso não tem, vai-se percebendo ao longo da conversa.
Mas está em vias de se tornar melhor, tanto que Jorge aceitou fazer parte dos novos órgãos sociais da Padaria do Povo, eleitos em Assembleia Geral em 2024, com o objetivo de defender a cooperativa de investidas para a desmembrar.
“Já fomos alvo de várias tentativas de golpe, porque há muita gente a querer este edifício, como deve imaginar, mas enquanto formos vivos ninguém aqui põe a pata”, diz Jorge.
“O edifício é da cooperativa e a cooperativa é dos cooperantes, de todos os cooperantes”, proclama o empresário, explicando o que entende por cooperante. “Não tem de cá vir todos os dias, mas tem de cooperar com a Padaria do Povo. As pessoas que tentaram vender isto nunca cooperaram e nunca cá puseram os pés.”
A importância de dizer não
“A cooperativa mantém-se porque é dona do prédio”, intervém Dora. “Basta olhar à sua volta para entender que todas as associações e coletividades que pagavam renda acabaram. E, imagina, se a Padaria do Povo não fosse dona do edifício, a renda hoje seria impossível de pagar.”

A propriedade é um escudo, mas também é o que torna necessário o permanente estado de alerta. Num bairro em gentrificação intensa, o edifício é alvo de cobiça para muitos que sonhariam transformá-lo noutra coisa, sem sombra da história, da autenticidade e do espírito cooperativista que o ergueu.
Houve tentativas concretas. No início do século XXI, conta Jorge Silva, houve quem quisesse vender o prédio, prometendo outra sede para a Padaria do Povo. “Nós batemos o pé. Eu fui o primeiro a alertar os velhos cooperantes todos, e aquilo acabou logo ali.”
Mais tarde, já na segunda década dos anos 2000, apareceu um empresário que queria fazer-se sócio e investir para modernizar o edifício e pôr os fornos a laborar para fazer pão. “Aquilo tocou-nos, voltar a ter os fornos a funcionar. Mas começou a cheirar a dinheiro a mais”, diz Zaluar, “e dissemos que não. Pusemo-los a andar. A sorte é que isto tem um presidente que diz não.”
Para evitar que tais tentativas alguma vez encontrem brechas por onde entrar, a cooperativa alterou recentemente os estatutos. A pena para quem tentar vendê-la é a expulsão. “Agora estamos blindados em relação a golpes desse género”, diz Dora, que há três anos veio pôr ordem na casa, reconhecem todos, apesar da resistência inicial.
Que força é essa?
Dora Faggin, investigadora, formada em Estudos Sociais pela Birkbeck, University of London, e em Artes Plásticas pela Ar.Co, dedica-se atualmente à escultura em grande escala. Foi candidata à presidência da Junta de Freguesia de Campo de Ourique pela CDU e é militante do PCP. Não é cooperante, é “apenas” residente, mas tornou-se, nas palavras de Zaluar, “o número dois, o número três, às vezes o número um”.
Chegou há três anos à procura de um atelier. Tinha “toneladas de material” e um prazo para sair do espaço que ocupava antes. Expedita, dirigiu-se à Junta de Freguesia de Campo de Ourique, que lhe recomendou a Padaria do Povo. Entrou, deu de caras com Vasco, que não gostou do ar determinado – ele diz que a achou arrogante – e a encaminhou para o Zaluar.


Zaluar recusou as quatro propostas de Dora. Ela não desistiu. Voltou todas as semanas até o presidente lhe perguntar o que tinha de fazer para ela o deixar em paz. “Tem duas opções: ou me atira da varanda e eu morro, ou aceita a minha proposta.”
Ele aceitou, com uma condição: esvaziar, sem perturbar ninguém, a sala que seria o futuro atelier. “A sala era um depósito de móveis de meio bairro, de todas as senhoras de Campo de Ourique que morreram, de todos os restaurantes que fecharam”, exagera a escultora. “‘O dia em que me perguntares de quem é essa cómoda, cancelo o contrato'”, lembra Dora, engrossando a voz para imitar a de Zaluar.



Tirou-os um a um. A última cena foi a da escultora a pedir emprestada a grua de uma obra vizinha para fazer subir um piano e um sofá para o andar de cima. Limpou. Pintou. “Tudo no braço, sozinha.” Foi esse trabalho que lhe valeu o respeito de todos – incluindo o do vizinho Jorge, cuja confiança é a mais difícil de conquistar.
“Quando eles me esnobaram, mal imaginavam que seria eu quem ia ajudar a colocar isto em ordem de novo”, diz Dora em tom provocador. Mas a verdade é que foi ela, conta Zaluar, que começou a organizar atas (desde a fundação), contactos, reuniões, atividades, e a assembleia geral da qual saíram os novos corpos sociais e os novos estatutos. “É como a gente diz no Brasil: trocar o pneu com o carro andando.”

Por que o fez, não sendo cooperante? “Porque a cooperativa precisava. Estava à beira de fazer 120 anos [em 2024] e nós queríamos garantir que fizesse pelo menos mais 120.”
“Lugares como este têm uma função social e cultural muito importante”, diz Vasco Loução, sobretudo numa cidade que se vai esvaziando de espaços onde se cultive o cooperativismo e a relação entre as pessoas. Por isso, conclui o vice-presidente da Padaria do Povo, “é essencial que espaços que resistem, como o nosso, sejam defendidos”.
Enquanto puder ser um euro, será um euro
O início dos anos 2000 não correu de feição à Padaria do Povo, e foi o bar – que depois se fez também restaurante – a voltar a encher a casa, desde que Vasco Loução, 47 anos, o assumiu em 2013.

Vasco é do bairro, da Rua Silva Carvalho, e parava aqui desde miúdo. Jorge lembra-se dos dois a ver os velhotes jogar à sueca, e depois a conquistar lugar à mesa para jogar com eles – uma vitória. Quando o bar, externalizado e a correr mal, ficou sem ninguém, Vasco propôs-se pegar nele com dois ou três amigos, todos na casa dos 30. “Viemos respeitando quem ali estava há décadas, mas, ao mesmo tempo, tentando abrir ao mundo a cooperativa, que vivia um um bocado em circuito fechado.”
Atrás dos amigos vieram mais amigos, e a pouco e pouco foram propondo à direção outro tipo de atividades – um concerto, o lançamento de um livro, um clube de leitura, um recital de poesia. Hoje, é só perguntar à Dora, diz Vasco: há teatro, desenho à vista, dança, piano, sapateado, crochê, xadrez. A casa abriu-se sem deixar de ser o que era.
Os preços não subiram. Dora lembra-se de ter perguntado a Vasco como podia a imperial custar um euro. A resposta tem que ver com princípios: enquanto não fosse ele a pagar para que custasse um euro, custava um euro – porque as origens da Padaria são proletárias e há que não trair as origens, como diz Zaluar.


Vasco trabalhou anos com crianças, passou pelos cursos de Direito, Política Social e História, sem terminar nenhum (embora mantenha a esperança de acabar este último), e, para ele, a cooperativa é muito mais do que um trabalho. “Se fosse só o ganha-pão, conduzia isto de outra maneira. A ideia não é ficar rico aqui.”
A preocupação é outra, e é nela que mora o futuro: que a casa não viva fechada, que se ligue ao bairro e às outras instituições – o Clube Atlético de Campo de Ourique, a Casa Fernando Pessoa, a Junta de Freguesia, os clubes da Quinta do Loureiro, o Atlético Clube de Portugal.
“É muito importante trabalhar em rede para contrariar a tendência da sociedade atual, fechada e individualista”, diz Vasco. “Criar dinâmicas de participação coletiva na vida comunitária, porque às vezes temos uma pessoa ao lado, na vida de quem podemos fazer a diferença para melhor, e não sabemos. Isso, para mim, é mesmo importante.”
Que a chaminé não saia daqui
O futuro tem, então, “duas linhas que andam em paralelo”, diz Dora. A primeira é jurídica e formal: garantir que a cooperativa se mantém saudável e sustentável, um trabalho que tem de se fazer independentemente de tudo.
A segunda é mais lenta e mais viva. “Aos poucos, ir ocupando os espaços com atividades diferentes, com perfis diferentes de pessoas – manter essa diversidade que é própria da Padaria do Povo”.
Para isso, acrescenta Vasco, é preciso, resolvidas as pendências legais, “abrir espaço a que possam entrar novos cooperantes, sangue novo, ideias novas, mas com a noção de onde estão a entrar”.
“Para quem não respeite o espírito cooperativo, a porta da rua é serventia da casa”, avisa Jorge Silva. Ninguém à mesa o contraria.


O que é que acontece quando este social-democrata, esta comunista e estes dois socialistas se sentam à mesa, na Padaria do Povo? É isto. A vontade de que a cooperativa venha a celebrar 244 anos, pelo menos.
A chaminé continua lá, como testemunho da história. “Enquanto eu for vivo, isto não sai daqui”, prometeu Zaluar no início. Enquanto estes quatro forem vivos – e os filhos e netos deles (assim o esperam) e de quantos se juntarem – é provável que não saia.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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